❅◞ O nojo que possuía de si mesma era tremendo. Encarava-se no espelho do banheiro, a pele tão pálida, o rosto lhe parecia inchado quando, na realidade, encontrava-se deveras magro. Eunbyeol tinha uma visão distorcida de si mesma, e aquilo se evidenciava aqueles que lhe eram próximos, todavia, nenhum deles tinha noção do quão diferente era a imagem que a mulher via em seu reflexo. Chegava a ser irônico a Coreia do Sul considerá-la uma das mais belas do país quando ela sequer se achava suficiente para ser denominada de bela. As críticas vinham a ser mais danosas que os elogios, é claro, aquilo que era absorvido pela doce e ingênua Shin era a parcela maldosa que não queria seu bem, todavia, era incapaz de não o fazer, não quando já vinha o fazendo há cerda de sete anos, e tinha em seu âmago sua inutilidade como verdade, não mais opinião alheia como deveria o ser.
Havia passado dos limites durante aquelas férias, tinha total consciência daquilo e não precisava de ninguém lhe dizendo que havia ganhado peso, que estava diferente. Ela sabia, podia ver o corpo flácido naquele espelho, e a expressão descontente em sua face lhe indicava que algo precisava ser feito a respeito. Mesmo que ela odiasse aquilo, era danoso, era ruim, todavia, diminuía o próprio pesar de uma culpa que carregava consigo por algo que, talvez, não devesse se culpar. Eunbyeol se martirizava por tantas coisas, porém, sempre havia algo mais a juntar à pilha, e o peso era um enorme fator. Fechou os olhos por um segundo, pegou a escova de dentes antes de se ajoelhar frente ao vaso sanitário, por um instante ficou feliz do dormitório estar vazio, ou assim ela pensava. Levou o cabo da escova de dentes à boca, forçando-o contra a garganta.
O estrago havia sido feito, e a escova foi perdida em meio que tudo começara a sair. O processo era horrendo, mas Eunbyeol acreditava, tolamente, que era necessário. Porém, sentiu os músculos se tensionarem ainda mais quando escutou a voz da segunda maknae, todavia, não era mais capaz de parar, o enjoo era forte, e a vergonha era tremenda. Mesmo após parar de vomitar, a mais velha se manteve quieta, os olhos fechados, a respiração entrecortada. Sentia-se imunda, e tudo o que queria era apenas tomar um banho para tirar de si aquela sensação, embora fosse impossível. Ela sabia. Após todos aqueles anos, ainda se sentia suja mesmo após um longo banho. Levantou o rosto com certo pesar, se forçando a fitar a mais nova. —— Eu estou bem, Minnie. —— Mentiu, forçando um sorriso de canto para a mesma.
❁ ❝ —— Com os anos de convivência, a habilidade de reconhecer mentiras acabava se tornando cada vez mais presente. Não era algo que se orgulhava, mas o tempo era amigo o suficiente para que Minhee aprendesse a perceber cada viés da fala, da linguagem corporal, da forma que as pessoas se escondiam. E, se era assim com pessoas mais desconhecidas, não tinha nem palavras para descrever como era quando o assunto envolvia suas melhores amigas. Poderia culpar a intimidade, o fato de serem tão próximas, os anos que passaram juntas; mas não, é porque a vocalista era exatamente assim, também, e precisa-se de um para reconhecer o outro.
❝ —— Por causa disso, a angústia de não ter percebido sinal algum de Eunbyeol passando mal a exasperou em um nível que sua garganta fechou com o instinto de chorar. Ela devia saber, porque eram praticamente irmãs e esse era sua responsabilidade, falhando até mesmo nisso. Ajoelhando-se, agora, o punho fechando nos fios escuros e puxando-os com muita delicadeza para cima para que não sujasse, sua palma disponível foi na direção das costas magras, fazendo movimentos circulares para acalmá-la. Não ajudava, Minhee sabia disso, mas precisava reafirmar que estava ali, pois estava mesmo, independentemente do que acontecesse. O som da voz fraca automaticamente arrancou um negar seu, a seriedade em suas feições. “— Não, não está.” Também não iria forçar, mas a mentira descarada não a maravilhara; pessoas faziam isso por proteção, mas quem precisava de amparo ali não era a segunda maknae. “— E tudo bem não estar, Yeollie-unnie.” Seu tom era tranquilo, para que ela pudesse se soltar e não se assustar com a presença da vocalista ali.
❝ —— A lateral de seu corpo estava pressionada com a da outra, próxima o suficiente para que sentisse a temperatura férvida contra a sua morna; não sabia há quanto tempo a Shin mais velha estava ali, mas a melancolia de seu olhar mostrava que deveria o fazê-lo. Suprimiu a vontade de comentar sobre os motivos, até quem sabe perguntar sobre ressaca ou se ela comera algo estragado, fazendo o que acreditava ser o correto. “— Deixa eu te ajudar a tomar banho, unnie, você ‘tá tão pálida. Eu posso ajudar, deixa eu te ajudar. Por favor.” O murmúrio tinha certa súplica, porque precisava mostrar para Eunbyeol que não a deixaria sozinha, não teria coragem de abandoná-la.