A dor, por vezes, dilacera. Ele nĂŁo precisava de mais uma prova desse fato, porĂ©m ali estava: destruĂdo. Como se cada mĂnima parte de seu ser queimasse e agonizasse em uma sensação que sequer podia ser descrita em palavras; mal sabia como era capaz de sentir tudo aquilo sem ceder, sem quebrar, sem desistir. Mas, lĂĄ no fundo, sabia: era impossĂvel estar ainda mais quebrado do que naquele momento. Sequer se sentia como si mesmo, tudo o que restara apĂłs aquilo fora uma casca sem vida do que um dia tinha sido Baek Jongsu, o jovem apaixonado que daria absolutamente tudo de si para fazer feliz a Ășnica pessoa que jĂĄ tinha amado com toda sua alma e seu coração; puro e ingĂȘnuo demais. Maltratado demais. Sabia que tinha sido um erro seu depender tanto dele, doar-se tanto ao ponto de ânĂŁo imagino minha vida sem eleâ se tornar tĂŁo real que cada briga era uma dor fĂsica infinitas vezes pior do que as que jĂĄ infligira a si mesmo. Mas que escolha tinha? Era um tolo. Um tolo que via o sol brilhar mais e as coisas fazerem mais sentido apenas por estar na presença dele. A luz que emanava do outro era a coisa mais bela que tinha visto, a qual ele se sentia feliz de ser permitido admirar, chegar um pouco mais perto, tocar, se aquecer em seu calor. Era o suficiente. AtĂ© que essa luz se tornou uma sombra que consumia tudo que existia dentro de si a cada minuto que passava e aquela verdade se fazia mais e mais real para si. Logo ele, que sempre tinha tomado tanto cuidado com o prĂłprio coração, porque sabia que era sensĂvel; a dor sentida quando perdeu a primeira pessoa que amou e sequer chegou a tocar tinha sido amostra e prova o suficiente do Ăłbvio: precisava se proteger. O mundo lhe quebraria. AtĂ© que se convenceu de ter encontrado alguĂ©m que iria cuidar daquela pequena preciosidade tanto quanto si mesmo e foi, de peito aberto; deixou seu coraçãozinho correr por conta prĂłpria e aproveitar a liberdade enquanto assistia, de longe, o que parecia um conto de fadas tornar-se seu pior pesadelo sem que tivesse sequer a chance de impedir. EncontrĂĄ-lo na cama com outro nĂŁo teria lhe ferido tanto se o outro nĂŁo fosse seu melhor amigo; se nĂŁo tivesse acontecido tudo imediatamente apĂłs um desentendimento que jĂĄ o fragilizara demais. JĂĄ estava ferido demais para lidar com uma traição dupla, vindo das duas pessoas a quem confiaria sua prĂłpria vida. A memĂłria, como sempre, lhe ludibriava nesses momentos; sempre era mais fĂĄcil bloquear o que parecia doloroso demais do que registrar aquilo em detalhes. Lembrava-se, porĂ©m, dos gritos; tanto os contra ele quanto os guturais que lhe escaparam enquanto estava ali, trancado no banheiro do hotel, tentando - de alguma forma - colocar para fora o que estava lhe corroendo; lembrava-se do desespero e de como ele lhe levara a quebrar o espelho e usar os cacos para ferir a prĂłpria pele, rasgando-a nos braços e nas coxas de maneira desajeitada como se isso fosse doer mais que o prĂłprio peito; lembrava-se disso nĂŁo funcionar como das outras vezes; e nĂŁo precisava de lembrança para as lĂĄgrimas que ainda eram vĂvidas em seu rosto. Mal tinha conseguido se entender consigo mesmo quando Yejun lhe surpreendeu aparecendo na porta - e soube, naquele momento, que ele tinha mandado-o ali. Tal conclusĂŁo era dolorida como enfiar uma faca em uma ferida ainda aberta e sangrando. ă
Ą Il a fait! IL A FAIT! ă
Ą NĂŁo sabia como ainda tinha voz de tudo aquilo, mas as acusaçÔes saĂram mesmo assim, no tom que mal sabia definir como raivoso ou dolorido. ă
ĄÂ Il a trichĂ© sur moi. ă
Ą O francĂȘs saĂa quebradiço, como se sua voz fosse falhar a qualquer momento. E realmente falhou, ao final daquela frase e de admitir, em voz alta, o que tinha acontecido. ă
Ą Pourquoi, RenĂ©? Ătait-ce ma faute? Encore? ă
Ą Repetia, baixinho, sentado sobre os prĂłprios calcanhares no chĂŁo frio; o sangue sujando as roupas e a pele nĂŁo incomodava mais - era um mero detalhe diante do comportamento de alguĂ©m que estava claramente em choque, se balançando suavemente para frente e para trĂĄs enquanto as unhas corriam pelas prĂłprias pernas. ă
ĄÂ Qu'est ce que j'ai mal fait? ă
Ą Os soluços agora saĂam baixinhos, no choro silencioso e desolado de quem começava a aceitar o inevitĂĄvel: o que tinha de mais precioso em sua vida havia sido arrancado brutalmente de seus braços, e agora teria que reaprender a vivĂȘ-la com essa ausĂȘncia.