Aos 21 sai da casa dos meus avós, porque foram eles que me criaram. Na verdade, aos 21 sai do país. Em novembro de 2017 eu pisei pela primeira vez em solo europeu. A despedida foi difícil, mas eu estava feliz e empolgada, era meu sonho. Meu coração estava em pedaços no aeroporto, embarquei com cara de choro, e lembro até hoje do Thiago com aperto no peito; meu primo que cuidei como filho, com 4 anos falando "Ingryd, posso ir na sua mala?" Que dor que sinto ao lembrar disso, eu estava segurando as lágrimas até ouvir essas palavras. Lembro que me mudei pro Rio de Janeiro só pra não ficar longe dele, quando minha tia foi morar la a trabalho, e de repente eu estava saindo do país e sem expectativa de retorno. Eu estava ciente de que era o melhor pra mim, e que tudo ia ficar bem depois, eu so precisava me adaptar. No primeiro mês eu chorava escondida no banheiro, não queria que ninguém me visse em momentos de fraqueza, eu estava com saudade, mas para minha surpresa, me adaptei. Viver longe da família e amigos é uma escolha difícil, e traz com ela muitas consequências. Eu estou perdendo a infância dos meus primos, a velhice dos meus avós, o crescimento dos meus irmãos, o casamento dos meus melhores amigos e não estou presente em suas festas de aniversário. Eu estou a um oceano de distância, perdendo momentos importantes da vida daqueles que amo, mas estou correndo atrás do meu sonho, e as vezes me pergunto se vale a pena. Aprender outro idioma nao é fácil, se acostumar com a cultura de outro país menos ainda, e ficar sem a família é a parte mais difícil. A minha bisavó faleceu e eu nao estava lá, e mesmo a gente não tendo uma relação muito próxima, doeu. Meu pai que não vejo há alguns anos foi visitar minha família, e eu não estava lá, todos os meus irmãos estavam, menos eu. Thiago começou a estudar, e eu não estava lá pra levar ele no primeiro dia de aula, como fiz com Heitor. Um dos meus melhores amigos casou, e eu não estava lá pra ser testemunha. Minha melhor amiga vai noivar com meu irmão, e eu não vou estar lá, mesmo sendo a madrinha. Minha irmã se formou e eu não fui na formatura dela. Minha irmã mais nova fez 18 anos e eu não estava lá pra comemorar com ela. Minha amiga estava passando por problemas, e quase entrando em depressão, e eu não estava lá pra abraçar ela. É difícil conseguir aceitar que tive que abrir mão de muitas coisas por um sonho, mas vendo a pessoa que estou me tornando, me faz ver que tudo isso está valendo a pena. Este primeiro ano não foi fácil; alem de ter que lidar com a distancia, também tive que lidar com crises de ansiedade, com o medo de falhar e com a pressão. Eu, mesmo sofrendo, sempre sorria e dizia estar tudo bem, pois queria carregar nas costas sozinha as consequencias das minhas escolhas. Claro, nem tudo é ruim, eu conheci o homem da minha vida, eu conheci pessoas com um coração tão bom que são raras e vivi coisas que pra mim, só viveria na minha cabeça. O caos que quase me derrubou me mostrou que eu era forte, e o mesmo me levantou. Eu aprendi que nem todas as pessoas que dizem te amar, te amam. Eu aprendi que nem todas as pessoas que te ajudam, ajudam por serem boas, mas sim para aumentar seu próprio ego. Eu aprendi que calada eu realizo tudo o que desejo, e que a energia negativa das pessoas interferem sim no meu crescimento. Eu posso não estar em pessoa com a minha família e com meus amigos, mas sei que o meu amor alcança eles de alguma forma. Eu escolhi o rumo que minha vida tomaria, eu só não contei com as consequencias, que claro, estão presentes em todas as nossas escolhas. Eu não tenho a intenção de desmotivar a quem esta correndo atrás dos seus sonhos, pelo contrario, eu quero que estejam cientes de que precisa ser forte para alcançar seus objetivos, e que as pedras no caminho te ajudaram a construir uma fortaleza. Naturalmente, ninguém é forte o tempo todo, caímos e choramos, mas saber se reerguer é a chave de tudo. Começar uma nova vida é como criança aprendendo a dar seus primeiros passos, ela cai, chora, mas não desiste de aprender a andar. Todos nós podemos escolher o rumo das nossas vidas, cabe a nós escolher para aonde e até onde remar.