𝕝𝕚𝕒𝕤𝕒𝕟𝕥𝕚𝕒𝕘𝕠𝕤
Foi necessário certo esforço de Amelia para não erguer uma sobrancelha em uma expressão surpresa. Depois de tanto tempo morando naquela cidade, estava acostumada com pessoas sérias demais e que não possuíam metade da simpatia que o rapaz estava lhe oferecendo. Um sorriso gentil e um acenar de cabeça lhe foram ofertados enquanto sentava-se à sua frente, fazendo uma vistoria nele, como um velho hábito irritante. Por influências do pai, costumava analisar pessoas desconhecidas em uma tentativa de descobrir um pouco delas ou se possuíam algo a mais para obter em troca. Talvez fosse um hábito de qualquer gerente de negócios, mas ela desconfiava que não. Depois de passar um segundo, ou dois, observando o livro que estava lendo, voltou a fitá-lo. “ — O que está lendo?” Perguntou, deixando a curiosidade vencer. Franziu o nariz ao pensar que agora teria todo o tempo do mundo para ler o que quisesse. “ — Eu sou Amelia, mas você pode me chamar de Lia, se quiser.” Respondeu com um sorriso, apertando a mão estendida em um cumprimento habitual.
Sentiu os olhos da mulher pairando sobre si. Gabriel não era um homem refinado, não fazia a barba todos os dias, não gostava de comprar roupas novas e passava longe de ternos sempre que podia. Costumava estar sempre com camisetas simples e calças desbotadas, naquele dia havia até colocado um tênis não muito surrado. Não era um cara de aparências e não ligava para ser observado, na infância costumara ser muito tímido, mas após todas suas experiências na carreira de filmes adultos percebeu que todas as pessoas estão ocupadas demais com as próprias inseguranças para repararem nos outros. Não parecia o caso dela, contudo. Pigarreou e ajeitou-se em sua cadeira. — Chama “Kafka à beira-mar”. Eu não entendi muito bem o que a sinopse, mas a vendedora disse que é um realismo-mágico e que é muito bom! — Soltou um sorriso. Gab gostava muito de ler, mas achava difícil encontrar livros sozinhos, sempre buscando opiniões e recomendações de terceiros. — Lia... É um prazer Lia! Pode me chamar de Gab se quiser. — Disse após o aperto de mão, tomando um gole de seu café. Olhou em volta, vendo uma cafeteira bastante cheia, não costumava passar muito tempo em locais como aquele fazendo o que desse vontade. Era um sentimento tanto libertador quanto esquisito. Viu sua torta, intocada. — Você aceita? Eu ainda não comi...











