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@sociedadedobetume
O amor é fodido, Miguel Esteves Cardoso
Request by princessy9
[...] você me faz pensar no homem que se veste de mulher no carnaval: o sujeito usa enormes conchas de borracha à guisa de seios, desenha duas rodelas de carmim nas faces, riscos pesados de carvão no lugar das pestanas, avoluma ainda com almofadas as bochechas das nádegas, e sai depois por aí com requebros de cadeira que fazem inveja à mais versátil das cabrochas; com traços tão fortes, o cara consegue ser - embora se traia nos pêlos das pernas e nos pêlos do peito - mais mulher que mulher de verdade" "e?…" "e tem que isso me leva a pensar que dogmatismo, caricatura e deboche são coisas que muitas vezes andam juntas, e que os privilegiados como você, fantasiados de povo, me parecem em geral como travesti de carnaval.
Um Copo de Cólera
[...] corta essa de solene, desce aí dessas alturas, entende, ô estratosférico, que essa escalada é muito fácil, o que conta mesmo na vida é a qualidade da descida, não me venha pois com destino, sina, Karma, cicatriz, marca, ferrete, estigma, toda essa parafernália enfim que você bizarramente batiza de ‘história’; se o nosso metafísico pusesse os pés no chão, veria que a zorra do mundo só exige soluções racionais, pouco importa que sempre sejam, a seu tempo, as melhores; só um idiota recusaria a precariedade sob controle, sem esquecer que no rolo da vida não interessam os motivos de cada um - essa questãozinha que vive te fundindo a cuca - o que conta mesmo é mandar a bola pra frente, se empurra também a história co'a mão amiga dos assassinos; [...]
Um Copo de Cólera
Deus vem, guia a gente por uma légua, depois larga. Então, tudo resta pior do que era antes. Esta vida é de cabeça-para-baixo, ninguém pode medir suas perdas e colheitas.
Grande Sertão: Veredas
Mas eu gostava mais dele, dia mais dia, mais gostava. Diga o senhor: como um feitiço? Isso. Feito coisa-feita. Era ele estar perto de mim, e nada me faltava. Era ele fechar a cara e estar tristonho, e eu perdia meu sossego. Era ele estar por longe, e eu só nele pensava. E eu mesmo não entendia então o que aquilo era? Sei que sim. Mas não. E eu mesmo entender não queria. Acho que. Aquela meiguice, desigual que ele sabia esconder o mais de sempre. E em mim a vontade de chegar todo próximo, quase uma ânsia de sentir o cheiro do corpo dele, dos braços, que às vezes adivinhei insensatamente – tentação dessa eu espairecia, aí rijo comigo renegava. Muitos momentos. Conforme,por exemplo, quando eu me lembrava daquelas mãos, do jeito como se encostava em meu rosto, quando ele cortou meu cabelo. Sempre.
Grande sertão: veredas
Diz-que-direi ao senhor o que nem tanto é sabido: sempre que se começa a ter amor a alguém, no ramerrão, o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer que isso seja, e vai, na idéia, querendo e ajudando; mas, quando é destino dado, maior que o miúdo, a gente ama inteiriço fatal, carecendo de querer, e é um só facear com as surpresas. Amor desse, cresce primeiro; brota é depois.
Grande sertão: veredas
O senhor sabe? Já tenteou sofrido o ar que é saudade? Diz-se que tem saudade de idéia e saudade de coração...
Grande sertão: veredas
Neste mundo tem maus e bons – todo grau de pessoa. Mas, então, todos são maus. Mas, mais então, todos não serão bons? Ah, para o prazer e para ser feliz, é que é preciso a gente saber tudo, formar alma, na consciência; para penar, não se carece: bicho tem dor, e sofre sem saber mais porquê. Digo ao senhor: tudo é pacto. Todo caminho da gente é resvaloso. Mas; também, cair não prejudica demais – a gente levanta, a gente sobe, a gente volta!
Grande sertão: veredas
Pensar mal é fácil, porque esta vida é embrejada. A gente vive, eu acho, é mesmo para se desiludir e desmisturar. A senvergonhice reina, tão leve e leve pertencidamente, que por primeiro não se crê no sincero sem maldade.
Grande sertão : veredas
[..] um alto funcionário do ministério do interior nos dizia que a censura bem entendida é como o sol, quando nasce é para todos, para nós não é nenhuma novidade, já sabíamos que assim vai o mundo, mas sempre são os justos a pagar pelos pecadores.
Ensaio Sobre a Lucidez
Ligado à máquina por um emaranhado de cabos, braçadeiras e ventosas, o paciente não sofre, só tem de dizer a verdade, toda a verdade e só a verdade, e, já agora, não crer, ele próprio, na asserção universal que desde o princípio dos tempos nos anda a atroar os ouvidos com a balela de que a vontade tudo pode, aqui está, para não irmos mais longe, um exemplo que flagrantemente o nega, pois essa tua estupenda vontade, por muito que te fies nela, por mais tenaz que se tenha mostrado até hoje, não poderá controlar as crispações dos teus músculos, estancar a sudação inconveniente, impedir a palpitação das pálpebras, disciplinar a respiração.
Ensaio Sobre a Lucidez
Não somos robôs nem pedras falantes, senhor agente, disse a mulher, em toda a verdade humana há sempre algo de angustioso, de aflito, nós somos, e não estou a referir-me simplesmente à fragilidade da vida, somos uma pequena e trémula chama que a cada instante ameaça apagar-se, e temos medo, acima de tudo temos medo.
Ensaio Sobre a Lucidez
[...] e se acaso distraído eu perguntasse "para onde estamos indo?" — não importava que eu, erguendo os olhos, alcançasse paisagens muito novas, quem sabe menos ásperas, não importava que eu, caminhando, me conduzisse para regiões cada vez mais afastadas, pois haveria de ouvir claramente de meus anseios um juízo rígido, era um cascalho, um osso rigoroso, desprovido de qualquer dúvida: "estamos indo sempre para casa".
Lavoura Arcaica
[...] Pois até mesmo o fato de vir a ser uma mulher não parecia pertencer à sua vocação. A mulherice só lhe nasceria tarde porque até no capim vagabundo há desejo de sol. As pancadas ela esquecia pois esperando-se um pouco a dor termina por passar.
A hora da estrela
Ela nascera com maus antecedentes e agora parecia uma filha de um não-sei-o-quê com ar de se desculpar por ocupar espaço.
A hora da estrela