𝓢𝐎𝐋𝖣𝖤𝓜𝐎𝐑𝐀𝐍𝐆𝐎, um diário de pessoas perdidas em mundos que não deveriam estar. Transcrito por 𝐀lina, uma 𝐄scritora que vive atrasada e desorganizada.
𝓚𝖺𝗇𝗀 𝓙𝗂𝗇𝖺, conhecida como Powder, garçonete do Foundry Pub. É conhecida por ser engenhosa, agitada e imprevisível. Tem vinte anos, e mora em Eastline. De longe, lembra Minnie Mills.
𝓟𝖾𝗋𝗂𝗐𝗂𝗇𝗄𝗅𝖾 𝓡𝗈𝗌𝖼𝗈𝖾, meteorologista e pesquisadora na Universidade de Westbridge. É conhecida por ser dócil, aventureira e um pouco ingênua. Tem vinte e sete anos, e mora em Ashgrove. De longe, lembra Kristine Froseth.
𝓨𝗈𝗋 𝓑𝗋𝗂𝖺𝗋, pesquisadora da Oscorp, voluntária na fundação Nalbantoğlu e assassina de aluguel. É conhecida por ser paciente, cortês e reservada. Tem vinte e sete anos, e mora em Westmere. De longe, lembra Ju Jingyi.
𝓤𝗆 𝗉𝖾𝖽𝗂𝖽𝗈 𝗉𝖺𝗋𝖺 𝖺 𝗆𝖾𝗌𝖺 𝖽𝖾 @wvnderlands, preparado perto de um carrinho de comida coreana em Eastline.
A lista de coisas que mais alegravam Powder no mundo vivia em constante metamorfose. Senão pelo primeiro lugar, imutável e previsível, o segundo e terceiro já dançavam ao ritmo de uma melodia irregular, mas naquele instante ela poderia proferir seu decreto sem titubear: comida e a companhia de Madoka. Eram as próximas da fila, e Powder já saltitava como um coelhinho eufórico. Ela zarpou para perto do carrinho assim que o casal distraído partiu, fazendo o seu pedido e o de Madoka numa velocidade invejável. E incompreensível. Parecia mais estar inventando uma nova língua do que formulando uma frase normal e coerente, mas os vendedores, já acostumados ao dialeto autoral do furacão azul, apenas a cumprimentam com um sorriso e assentem docilmente ao despejo de palavras que faria qualquer outra pessoa desmaiar em cena.
Enquanto eles preparavam o pedido, Powder voltou-se para a amiga num pulo.
❛❛ Deixa que eu pago. ❜❜ Melhor uso para as gorjetas conquistadas no Foundry Pub não existia. Ela amava o carrinho de comida da família Mo — e, em mais de uma ocasião, avisara amigavelmente que se um dia eles decidissem parar o negócio, seriam eles os culpados por sua morte súbita. Nada como chantagem emocional para motivar outras pessoas! ❛❛ Então… onde é que eu parei? Não, não, não. Lembrei. Acredita que ele ainda quis discutir comigo? Falou que o brinquedo era defeituoso, que eu era uma trapaceira, blá-blá-blá. Sabe o clássico de grandalhão que nunca perdeu pra alguém menor que ele e entra em colapso? Eu até que daria o prêmio de bom-grado pro filho dele… não era um tubarão, então não ligo… mas depois daquilo?! ❜❜
Antes de encantar-se com o cheiro de frango emanando de longe, Powder estava contando para Madoka das suas aventuras pelo festival. A barraca de tiro ao alvo foi a parada de maior sucesso de Powder: consagrara-se vencedora de todas as pelúcias que quis para si (que não foram poucas — o dono da barraquinha parecia a um passo de pegar uma vassoura e enxotá-la para longe dali, assim como os pais amargurados com as próprias derrotas). Ela interrompeu-se mais uma vez ao ouvir o vendedor chamando o seu nome. Obediente, Powder pagou o que devia e estendeu bem os braços para acolher os potinhos, ainda quentes.
❛❛ Obrigada! Amo vocês. ❜❜ A declaração escapou com uma facilidade impressionante. Era verdade. Powder amava qualquer pessoa que oferecesse comida para ela. Se, por algum acaso, um sequestrador em série aparecesse em Westbridge, Powder seria a vítima mais fácil do planeta. Ela entregou o pote de Madoka com cuidado, parando para devorar um pedaço do frango apimentado antes de continuar. ❛❛ Enfim, se eu ignorar isso e todo o resto, até que foi um bom festival. Todo o resto mesmo. Só de lembrar do discurso do velho, meu olho chega a tremer. Foco principal de mudanças. ❜❜ Ela esforçou-se para imitar uma voz áspera, desgastada pelos anos — um motor velho almejando, em seu último suspiro, o pleno funcionamento. Assim a voz do prefeito soava na cabeça de Powder. ❛❛ A próxima mudança vai ser o início de um apocalipse zumbi, vai vendo. Tô até sentindo o zunido no ar. Sua sorte é ser amiga da melhor atiradora do planeta, porque daí a gente só vai precisar roubar uma arma e eu vou te defender de tudo. Se bem que eu nunca assaltei ninguém. Mas não deve ser difícil, né? As pessoas ficam burras quando estão desesperadas. Se bem que elas também ficam agressivas… muito agressivas. Tá, esquece, mudança de estratégia. Sem assalto. Será que a gente se garante na mão? ❜❜ Powder olhou para os próprios braços, finos e pálidos como palitos de batata crua. Contorcendo o nariz em uma careta, ela desviou-se da decepção instantânea, analisando a figura de Madoka por um longo instante. Suspirou enfim, a derrota marcada nos lábios escurecidos pelo batom. ❛❛ A gente vai morrer. ❜❜ Conformada, ela espetou um pedaço de frango e o levou para perto do rosto de Madoka, convidando-a a aceitar sua oferenda criminosamente apimentada — se Powder já não tivesse perdido noção do que era um nível aceitável de pimenta para pessoas normais, seria até uma demonstração dramática de amor. Ela odiava dividir.
Impossivelmente feliz até mesmo em um dia da mais densa nevasca, 𝓟𝐞𝐫𝐢𝐰𝐢𝐧𝐤𝐥𝐞 é um raio constante de luz na Universidade de Westbridge. Sobrevivendo a madrugadas de pesquisa meteorológica com o singelo apoio de copos de chá frio e biscoitos espalhados pela mesa de estudos, esquecidos pelos olhos concentrados de Periwinkle, ela prefere acreditar — contradizendo médicos e ciência — que a privação de descanso em nada a abala, desde que ainda possa ver os amigos a caminho da cafeteria e receber um abraço da mãe ao voltar para casa. Apesar de contente com a vida que começou a construir para si mesma em Westbridge, aos vinte e sete anos sente que existe mais esperando por ela mundo afora, mas uma espécie de vazio a ancora, imóvel, na cidadezinha.
Espere só um pouquinho — a Escritora, como sempre, perdeu o prazo.
ଓ⠀ ؛⠀ CURIOSIDADES.
Sempre adoece no verão. É uma profecia inescapável. Como se a sua alergia ao calor já não atrapalhasse em muito a sua vida — urticária colinérgica, dissera a médica para a mãe, preocupada com a chuva de bolinhas vermelhas e irritantes pipocando na pele alva da filha —, gripes e resfriados de verão nunca falham em piorá-la. Curiosamente, enfrenta o frio e o inverno com uma leveza celeste. Nunca reclamou do frio — apesar da pele parecer sempre mais fria do que deveria estar —, e em um mar de narizes vermelhos, espirros e vozes roucas, Periwinkle estará sempre radiante. Uma força inabalável.
Tem sonhos estranhamente… vívidos. Se acreditasse em fadas, certamente diria que é obra de uma fada dos sonhos, costurando o roteiro, colorindo as imagens e criando os sons em sua cabeça adormecida. Periwinkle costuma beliscar a bochecha quando não sabe dizer se já escapou do mundo dos sonhadores, ou se continua dormindo. Ela divide os sonhos em duas categorias simples: sonhos fantásticos — onde nada de errado acontece, e ela vive apenas coisas boas — e pesadelos terríveis — recheados de cenários… trágicos e sangrentos, em sua vasta maioria.
Sabe que a mãe já foi casada antes, mas a mãe evita falar sobre o passado, e nenhuma lembrança ficou na casa delas. Por nunca ter adotado o sobrenome do ex-marido, Periwinkle não possui pista alguma a seguir. Já foi mais curiosa a respeito do assunto na infância, mas já aceitou o silêncio da mãe.
Coleciona achados peculiares (mundanos, em sua maioria, e esquisitos justamente por sua aparente simplicidade), apesar de não saber o motivo e nem o que fazer com eles. Já improvisou consertos e a criação de bugigangas — cujo propósito, em maioria, ela mesma desconhece —, mas sempre parece estar faltando algo. Periwinkle já considerou parar de alimentar sua coleção e jogar as coisas fora, mas desistiu no último instante. Resta a ela aceitar o acúmulo de coisas inúteis em sua estante.
Adora borboletas.
A mãe diz que escolheu chamá-la de Periwinkle por causa da flor — sua predileta. Não é a flor favorita da própria Periwinkle, mas ela ainda acha o significado amável.
Costuma acompanhar seus colegas de pesquisa em suas visitas à prefeitura — mais por apoio emocional do que nada (como um bichinho de pelúcia de uma pessoa ansiosa). Como responsáveis por monitorar as alterações climáticas de Westbridge, atuam em comunhão com a prefeitura e vivem zanzando de lá para cá — especialmente porque a cidadezinha não está para lá de adepta a resolver problemas via comunicação a distância.
"I know that this family is just for appearances. But… I still feel like… I want to be a better mother to that girl… Maybe I'll never be like a normal mother, but I'll do my best with what I've got!"
Por mais que lembre mais uma passageira efêmera pelas calçadas da cidade do que uma presença destinada a ser eternizada, já faz um ano desde que Westbridge acolheu 𝓨𝐨𝐫 em seu abraço pálido e empoeirado. A natureza da filha de quatro anos, regada a vivacidade e alegria interminável, em nada abalou a reserva e cautela da mãe. Seus colegas a descreveriam como útil — uma presença agora indispensável na Oscorp, onde atua como uma das pesquisadoras, e querida pela fundação Nalbantoğlu por suas contribuições gentis como voluntária — e solícita, mas faltariam palavras em seus lábios para descrever quem a mulher verdadeiramente é. Em um lugar miúdo e sufocante como Westbridge, onde nenhum segredo é capaz de perdurar, um ano bastaria para dissecar qualquer pessoa, mas Yor permanece indecifrável como era em seu primeiro dia pisando na cidadezinha pacata. Ela esperava um fim breve aos seus dias na cidade, mas em seu aniversário de vinte e sete anos, Yor descobriu que Westbridge não a deixaria ir cedo. Resignada, viu-se obrigada a começar a desfazer, pouco a pouco, o muro inquebrável que a distanciava da maioria das pessoas, a fim de proteger sua vida e sua família.
(Aviso de gatilho ⸻ menção a assassinatos e perseguição, sem descrições gráficas) ؛ A vida de Yor depende do fim das vidas de outras pessoas. De ciclos e ordens inevitáveis da natureza o mundo se alimenta, e este é só mais um deles. Acostumou-se a enterrar segredos em seus lábios ainda em tenra idade, assim que descobriu o maior segredo que o pai escondia da família, registrado em uma carícia abandonada na bochecha de alguém que, em semanas, desapareceria. Seu pai matava não por dinheiro, nem por necessidade, mas por uma espécie de fome incompreensível e cruel, mas Yor seguiu os passos dele por medo. Para fugir. Proteger o seu irmão. Proteger a si mesma.
Ao ver-se livre do domínio do pai, se mudou para longe com o irmão e… recomeçou. Uma página em branco na vida dos dois. Juntos. Yor formou-se em Biologia, afundando-se em sua carreira acadêmica e profissional, como se conhecimento e conquistas mundanas pudessem lavar o sangue já envelhecido nas pontas dos dedos. E nada no mundo a impediria de continuar assim. Nada, senão uma pessoa. O lojista a acordou de madrugada com um aviso: Ele está atrás de você.
Yor retomou os antigos costumes. O lojista anunciou que, por um favor, ele a ajudaria. Mas ele não parou de pedir favores, e Yor não parou de fugir. Com a sensação vaga de que era ela que o pai queria, e não o irmão, Yor ignorou a pontada em seu coração ao deixá-lo, convencendo a si mesma de que ele ficaria bem, construiria uma vida longe do olhar do pai e do azar da irmã, e viveria. Era a única coisa que importava.
A vida de Yor — já naturalmente instável — foi mais uma vez abalada quando uma amiga a encontrou, implorando por ajuda, com uma bebê nos braços. Quanto mais perguntas Yor fazia, mais a amiga a evitava, engolindo as palavras e desfazendo-se em lágrimas. Yor aceitou cuidar da bebê por uma noite. Na manhã seguinte, a amiga desaparecera. Confusa e ansiosa, não demorou para que Yor percebesse que não restava lugar em sua vida para uma criança. Não vivendo com medo, dançando por países e cidades diferentes, assumindo nomes que não a pertenciam e ceifando vidas a mando da única pessoa no mundo capaz de ajudá-la. Yor entregou a bebê, mas ignorou o instinto que a dizia para nunca mais vê-la, ficando por perto para descobrir se a amiga um dia voltaria, e como estava a criança. Yor soube de cada devolução, de cada nome que ofereciam e arrancavam da menina.
Um dia, depois de mais uma devolução, Yor fez uma escolha que não deveria. Atendendo ao pedido da amiga — que mais lembrava um pedido final, a súplica de alguém que já imaginava que não viveria um amanhã —, pegou a menina para si e, desta vez, não a abandonou de novo. Elas pousaram na Inglaterra, mas Westbrige não era o plano de Yor. Foi a vontade do lojista. A pedido dele, Yor mudou-se para a cidade, imaginando que viveria ali até que o lojista conseguisse o que queria — e Yor não costumava demorar para atender suas vontades. Yor acomodou-se facilmente no cotidiano da cidade, sem esquecer a sua vontade de deixá-la e escolher um lugar diferente para criar Anya.
Nenhuma das duas partiu. Ainda não era a vontade do lojista. Não era a pior coisa a acontecer no mundo. Yor estava começando a se acostumar com a vizinhança de Westmere, as fofocas da cidade, e alegrava-se em ver Anya feliz ali, mas o medo, sempre implacável, não a abandonava, especialmente após a descoberta de que, após abandonar a filha, a amiga — ou alguém que remetia perigosamente a ela — passara por Westbridge antes de desaparecer outra vez. Sentindo o amargor da dúvida e da desconfiança na ponta da língua, Yor engoliu qualquer pergunta que pensasse em fazer, contentando-se com a ideia de descobrir sozinha a verdade, equilibrando os deveres da maternidade e os corpos que já esconde em Westbridge.
ଓ⠀ ؛⠀ CURIOSIDADES.
Espere só um pouquinho — a Escritora, como sempre, perdeu o prazo.
padmé & powder ( @soldemorango ) na competição das barracas:
you look like you’re in trouble. sorriu aliviada quando powder se aproximou para ajudá-la e agradeceu várias e várias vezes enquanto dividia com ela algumas das caixas que estava tentando equilibrar. ❝ eu não consegui escolher um só. ❞ começou a se explicar, ao mesmo tempo que ajeitava as caixinhas e sacolas em seus braços de uma forma mais confortável. precisaria de ajuda para levar tudo para o seu carro. ❝ todos os doces daquela barraca pareciam maravilhosos e conforme a vendedora me explicava como tinha feito e o capricho que colocou neles, acabei comprando um de cada para dividir com meus colegas de trabalho da fundação amanhã. também aconteceu com a parte dos artesanatos. ❞ padmé adorava escutar histórias e constantemente ficava envolvida com os relatos dos outros moradores da cidade. ouvi-los falando apaixonadamente sobre o que faziam era incrível. ❝ escolhi algumas lembrancinhas e olha esse quadro! foi impossível não levar. ❞ era grande e difícil de carregar, mas lindíssimo. um castelo com janelas enormes, muito verde ao redor, cachoeiras. ficaria no seu quarto!
Powder abriu bem os braços para receber as caixas, confiando mais do que deveria em sua pouca força — do mesmo jeito que costumava acontecer quando estendia os braços para receber uma criança correndo até ela como um míssil, só para cair no chão com a coisinha nos braços e ainda levar um susto. Felizmente, o chão nem precisou abraçá-la. Powder só vacilou um momento, antes de recuperar a compostura, fingindo que nada no mundo acabara de acontecer. Porque era a verdade, claro. Seus olhos, distraídos pelas caixas decoradas, voltaram-se obedientemente para Padmé ao ouvir sua voz.
❛❛ Todo mundo capricha no festival. Não acredito que a senhora caiu no golpe das barracas! Os vendedores vão falando e falando e, quando você vê, já levou tudo. ❜❜ Uma das clientes do Foundry Pub convidara Powder para ser a sua ajudante no festival do ano passado, encantada pelos modos da menina no bar. Powder conhecia bem as estratégias empregadas pelos vendedores, pois eram as mesmas que ela usava. Não que ela pudesse reclamar com sua dignidade intacta. Seus olhos brilhavam feito estrelinhas para qualquer doce colorido e qualquer salgado de cheiro irresistível que brotasse em sua frente. Nem se falava, então, dos poucos, mas preciosos achados de tubarões. Se um dia fizessem uma caça ao tesouro em Westbridge, Powder seria a vencedora invicta. ❛❛ Oi? Com seus colegas de trabalho? Seus colegas que não estão ajudando a senhora num momento de necessidade? Só com eles? ❜❜
Ela murchou como uma flor emburrada, desmanchando o sorrisinho — feliz de poder ajudar — em um beiço chateado. Quase lembrava uma criança de pirulito roubado. Powder se importaria menos se ela dissesse que a caixa era para si mesma e para ninguém mais. Por que os colegas da fundação mereciam os doces e ela não? Era injusto.
Powder levantou as sobrancelhas, recuando um passo. Tombou a cabeça de canto feito uma corujinha, avaliando a pintura com um olhar cuidadoso, apertando levemente as caixas para que nenhuma delas acabasse escorregando.
❛❛ Parece saído de um conto de fadas! A técnica é maravilhosa. Olha a precisão dessas pinceladas! Não faz meu estilo, mas dá pra apreciar a competência por trás mesmo assim. Já imaginou viver num castelo? Não sei o que eu faria com todo o espaço. Nossa, não, não, esquece o que falei. Sei, sim. Um aquário! E moraria perto do mar. Teria o mar na minha casa e fora de casa. O que acha que daria pra fazer com um? ❜❜ Apesar da birra infantil, sua curiosidade — e o desejo de falar — eram maiores.
ㅤ⠀ os olhos azuis se fixaram na garrafinha de água, ligeiramente semicerrados e desconfiados, porquê, mesmo que powder jurasse que não teria envenenado, isabelle não era do tipo que colocaria a mão no fogo por ela. ou melhor, isabelle não colocaria a mão no fogo nem por ela mesma, quem dirá alguém que vivia a irritando constantemente. mas no fim, a tontura venceu mais que a desconfiança, e ela aceitou a água meio à contragosto, abrindo e bebericando antes de entregar de volta para a garota ao lado dela. e se ela não tivesse engolido a água, provavelmente iria cuspir em powder pela resposta sobre a altura de tinkler. pelo jeito era um crime você não ter mais de 1,60 m. ㅤ⠀ ❛ inacreditavel que até a sua voz é irritante. ❜ a loira resmungou, mas continuou sentada no mesmo lugar, afinal, ela quem tinha escolhido ali pra começo de conversa. isabelle desviou o olhar dos trapezistas para o vendedor que passava alegremente entre o publico. ㅤ⠀ ❛ quem? o phill? ❜ bell franziu a testa. ㅤ⠀ ❛ ele é bonzinho. arrumei o trailer dele uma vez, e desde então ele tenta retribuir com comida. ❜ respondeu enfim, apesar de não lembrar se tinha sido mesmo o trailer daquele vendedor em especifico. é, isabelle tinha que começar a anotar os nomes de quem ela ajudava. se ao menos os diários estivessem ali. ㅤ⠀ ❛ você já comeu metade das batatas, e só agora decidiu que talvez elas fossem suspeitas? ❜ ela perguntou em um tom zombeteiro. ㅤ⠀ ❛ e como você vai puxar o meu pé se estariamos as duas mortas? ai, sinceramente powder, sinceramente. ❜
❛❛ Até a sua voz é irritante ❜❜, imitou Powder, recriando a voz de Isabelle em uma versão caricata. A jogada mais infantil e birrenta que existia no planeta Terra. Como a mais nova da família, não fazia mais do que a obrigação — sua missão de vida era ser insuportável.
Powder suspirou de alívio. Um dia ela morreria por alguma estupidez impulsiva (como, por exemplo, comer batatas de origem desconhecida, dadas sem esperar nada em troca, sem questionar nada), mas felizmente não era aquele o dia. Ela deveria agradecer. Morrer logo no festival de fundação de Westbrige seria vergonhoso. Humilhante. Ela precisaria implorar aos céus por outra morte.
❛❛ Claro. Você me deu, e eu confio em você! Eu acho. ❜❜ A última parte foi murmurada, uma reflexão de último instante adornada por um franzir da pontinha do nariz. ❛❛ Não, confio. ❜❜ O veredito, simples e verdadeiro. ❛❛ A minha alma vai puxar o pé da sua alma, óbvio. Vida após a morte. Essas coisas. Você não acredita? ❜❜
As crenças de Powder eram misteriosas. Ela encarava a maioria das ideias supersticiosas sobre o mundo como um amontoado de baboseira criado para acalentar pessoas solitárias (e, às vezes, controlá-las), mas algumas chamavam a sua atenção. Se acreditava ou não nelas, nem a própria Powder saberia responder. O que era crer, afinal?
❛❛ Espero que seja verdade. Não a coisa de ir pro inferno! Já tô morando em Eastline desde que nasci, não preciso de mais essa. Mas morrer e ficar sozinha pra sempre deve ser horrível. Mesmo que seja só um nada do outro lado, ainda conta como solidão eterna, né? O que vai ser da Powder fantasminha sem ninguém pra atormentar? Cacete, agora não sei se eu quero morrer antes ou depois da minha família e dos meus amigos. Eu queria que fosse antes pra não precisar lidar com a morte de vocês, mas e se eu ficar sozinha na Fantasmolândia? ❜❜ Quanto mais ela falava, mais crescia o nervosismo em sua voz. Powder achava que aquele assunto estava mais que perfeitamente resolvido em sua cabeça (vez ou outra, ela perdia a si mesma em devaneios incontroláveis de cenários onde era deixada por todas as pessoas que amava, então claro que a resposta para não acabar como uma velhinha deprimida e solitária como algumas vovós de Westbridge já estava na ponta da língua dela), mas aquela nova possibilidade era aterrorizante. Lançada, de súbito, para os braços de uma quase-crise existencial, ela abandonou as batatas no pacote, ponderando inquieta o seu novo dilema. Ela batucou os dedos na coxa num ritmo frenético, até parar de repente. A solução! ❛❛ Vou trancar todo mundo num prédio e tacar fogo. Só assim pra não me separar de ninguém ❜❜, ela concluiu, numa plenitude de espírito invejável.
Um casal de idosos sentado à frente delas se virou para mirar o rosto de Powder, com olhos enrugados e esbugalhados de incredulidade. Talvez medo. Powder respondeu com um sorriso inocente e uma piscada longa, amável, dos cílios cheios de rímel.
❛❛ Enfim… ❜❜, começou Powder, achando melhor conversar sobre outra coisa antes que alguém decidisse chamar Vi para comunicar a ela que a irmã estava enlouquecendo de vez. E por estar preocupada com Isabelle. Todos aqueles pensamentos sobre o fim da vida agora a faziam ver o mal-estar dela com outros olhos. ❛❛ Tá se sentindo melhor? Se não estiver, e odeio falar isso, a gente busca ajuda. Vai que é grave! E se você perder a cerimônia das lanternas? Tudo bem que aquelas lanterninhas nunca atendem o desejo de ninguém, mas é legal decorá-las. ❜❜
Se é por uma catástrofe ambulante de cabelos com 𝐩𝐨𝐧𝐭𝐚𝐬 𝐚𝐳𝐮𝐢𝐬 que você está buscando, sinto em dizer que não é aqui que você vai achá-la, mas você pode deixar uma mensagem ou entrar em contato com alguém que a conhece! Juro que os vi passando do lado de lá.
ଓ⠀؛⠀CONEXÕES ABERTAS.
A menos que especificado, as conexões não possuem restrição de gênero ou de universo. Como a maioria delas retrata situações dinâmicas ou acréscimos específicos a uma relação já presumida, mesmo que já tenhamos conexões combinadas, se alguma chamar a sua atenção, pode pedir por ela!
𝓟𝐫𝐞𝐟𝐞𝐫𝐢𝐝𝐨 𝐝𝐨 𝓒𝐞𝐢𝐟𝐚𝐝𝐨𝐫 ୭ Powder quase fez o seu tempo na Terra expirar antes de Deus sequer considerar exigir a sua presença no reino dos mortos quando, por um fio, ameaçou esmagar você com o carro monstruoso e velho do pai. Foi sem querer! Em outras circunstâncias, ela nunca faria isso, mas entre a sua vida e a vida de uma gatinha largada na rua, ela decidiu que a sua vida… simplesmente valia menos. Não a ocorreu a epifania estupenda de desviar numa direção em que ninguém precisaria morrer (e muito menos a de frear o carro). Fora do detalhe de ver a sua vida passando pelos seus olhos, você escapou livre de qualquer arranhão. Apesar dos pedidos de desculpas de Powder e do pai dela, você ficou com a impressão de que Powder já queria a sua cabeça desde muito antes e só aproveitou a primeira oportunidade cedida pelo destino. Seu sangue gela de pavor toda vez que você a vê sentada no banco de motorista.
𝓖𝐮𝐚𝐫𝐝𝐚 𝐜𝐨𝐦𝐩𝐚𝐫𝐭𝐢𝐥𝐡𝐚𝐝𝐚 ୭ Deixando a vida quase ceifada e o drama de lado, uma alegria veio do acidente que nem chegou a acontecer — a gatinha! Tristonha, magrela e sozinha no mundo, Powder decidiu adotá-la, apesar de não entender nadinha de animais que não vivem na água. Você, seja por amor à primeira vista pelo filhotinho ou por medo de ver o desempenho de Powder como mãe, se ofereceu como pai ou mãe secundário da criaturinha esquisita, ajudando Powder nos cuidados. Parabéns pela filha! Agora você pode adicionar mais uma dor de cabeça ao seu cotidiano, e de quebra ainda enfrentar o castigo divino que é navegar pelo quarto de Powder mais vezes do que o recomendado por profissionais de saúde.
𝓜𝐞́𝐝𝐢𝐮𝐦 𝐞𝐦 𝓯𝐚𝐬𝐞 𝓽𝐞𝐬𝐭𝐞 ୭ Os boatos conspiratórios sobre a fantasma do cemitério ou já te estressaram, ou atiçam sua curiosidade. Seja qual for a sua motivação, você decide que vai desmascarar a verdade de uma vez por todas, custe o que custar. A questão é que a fantasma do cemitério não quer ser descoberta: eis um impasse.
𝓠𝐮𝐚𝐫𝐭𝐨 𝐝𝐚 𝓑𝐚𝐫𝐛𝐢𝐞 (female) ୭ Você e Powder já conhecem de cor o ritual — uma é o esquadrão da moda da outra. Sempre que um evento está para acontecer, vocês se juntam, ligam música e se arrumam juntas. Você é a cobaia predileta de Powder para experimentar ideias de maquiagens e combinações de roupas, e Powder costuma confiar nos seus conselhos de moda. Às vezes, ela nem precisa de um dia importante como desculpa para ir se arrumar com você (ou fazer você de boneca viva para experimentos de estilo). Se o dia não está bom, Powder sabe que enfiar a mão em pincéis de maquiagem na sua companhia já vai fazer a diferença.
𝓡𝐞𝐬𝐭𝐚𝐮𝐫𝐚𝐧𝐭𝐞 𝐚𝐳𝐮𝐥 ୭ Você ama a comida de Powder. Preguiçosa como ela é, ela nem chega a cozinhar muito. Das duas, uma: ela está morrendo de fome e não achou ninguém para cozinhar para ela, ou ela está cozinhando para fazer um mimo para alguém (costumam ser as crianças de quem ela cuida como babá, mas vez ou outra ela decide lembrar aos amigos e família que ela, de fato, os ama), mas você reconhece o cheiro de longe e sempre aparece para pedir um pedaço. Powder ainda não sabe muito bem o que pensar disto.
𝓖𝐮𝐚𝐫𝐝𝐚-𝐜𝐨𝐬𝐭𝐚𝐬 (aviso de gatilho ⸻ relacionamento abusivo) ୭ Powder teve um só namoro na vida, em sua adolescência. Foi a pior fase de sua vida — quando a menina começou a se afastar da família, dos amigos, a sumir sem avisar, e a parar de dar ouvidos a qualquer um que não fosse o rapaz. Você não se acanhou com as palavras venenosas que ela despejava, buscando afastar ainda mais a sua presença e a de qualquer um, firme em sua decisão de voltar a ver a Powder de antes e de não a abandonar em um momento como aquele. Quando o relacionamento acabou, você enfim suspirou de alívio ao vê-la voltando a usar as suas cores favoritas, a conviver com as pessoas que amava, e a recuperar o peso que perdera. Até hoje, se você vê o ex-namorado de Powder na rua, olhando para o Foundry Pub como se quisesse falar com ela, você só falta puxar uma faca e resolver o assunto de uma vez por todas, mesmo que Powder diga que ela já sabe se defender muito bem sozinha.
𝓛𝐢𝐧𝐡𝐚 𝐝𝐨𝐬 𝓟𝐞𝐢𝐱𝐞𝐬 ୭ Você é o depósito oficial de Powder de curiosidades de tubarões. Motivo? Você demonstrou interesse genuíno em ouvi-la certo dia, e quis ouvir uma segunda, terceira vez… e ela nunca mais parou. Se você ainda gosta ou não de ouvi-la, não é problema dela, mas você já aceitou que a Noite do Documentário (uma espécie de festa do pijama de Powder onde vocês só assistem documentários de tubarões) faz parte da sua rotina, bem como os despejos aleatórios de notícias envolvendo tubarões e pesquisas que você, sinceramente, não faz ideia de onde ela encontra.
ଓ⠀؛⠀RELACIONAMENTOS.
𝓐𝒎𝒚 𝓢𝒂𝒏𝒕𝒊𝒂𝒈𝒐, escrita por Zenith ⸻ A ser escrito.
𝓐𝒏𝒏𝒂𝒃𝒆𝒕𝒉 𝓒𝒉𝒂𝒔𝒆, escrita por Bexie ⸻ A ser escrito.
𝓑𝒆𝒍𝒍𝒚 𝓒𝒐𝒏𝒌𝒍𝒊𝒏, escrita por Bu ⸻ A ser escrito.
𝓓𝒊𝒄𝒌 𝓖𝒓𝒂𝒚𝒔𝒐𝒏, escrito por Mauve ⸻ A ser escrito.
𝓔𝒌𝒌𝒐 𝓣𝒊𝒎𝒆𝒕𝒊𝒏𝒌𝒆𝒓𝒆𝒓, escrito por Adora ⸻ A ser escrito.
𝓔𝒗𝒂𝒏 𝓑𝒖𝒄𝒌𝒍𝒆𝒚, escrito por Bu ⸻ A ser escrito.
𝓔𝒗𝒆𝒍𝒚𝒏𝒏 𝓐𝒏𝒄𝒉𝒐𝒓𝒆𝒏𝒂, escrita por Nox ⸻ A ser escrito.
𝑮𝒘𝒆𝒏 𝓢𝒕𝒂𝒄𝒚, escrita por Zenith ⸻ A ser escrito.
𝓗𝒂𝒍𝒆𝒚 𝓗𝒂𝒓𝒈𝒓𝒂𝒗𝒆, escrita por Bexie ⸻ A ser escrito.
𝓘𝒔𝒂𝒃𝒆𝒍𝒍𝒆 𝓣𝒊𝒏𝒌𝒍𝒆𝒓, escrita por Bexie ⸻ A ser escrito.
𝓚𝒂𝒕𝒂𝒓𝒂 𝓢𝒐𝒖𝒕𝒉𝒘𝒂𝒕𝒆𝒓, escrita por Adora ⸻ A ser escrito.