Na semana seguinte ao meu aniversário de 11 anos, papai saiu para comprar cigarros. Era comum. Digo, era comum que os fumantes buscassem nas esquinas uma loja de conveniências para saciar os seus vícios. Eu nunca compreendi o real sentido pelo qual as pessoas estavam sempre correndo atrás de qualquer porcaria barata capaz de contaminar seus corpos e, muitas vezes, suas vidas inteiras. A questão é que eu até poderia ter buscado entender (eu juro que sim), se após quinze ou vinte minutos ele voltasse com um masso já aberto em uma das mãos e um isqueiro descartável na outra. Mas ele não voltou. Naquele dia eu dormi estranha. Pela primeira vez senti uma coisa que ouvira certa vez em um filme e que, na hora, não havia entendido. Era aquilo que chamavam de “sentir o coração bater forte". Eu não sabia que era possível sentir o coração bater. Em 11 anos de vida, eu podia jurar que o coração batia bem quietinho pra gente se esquecer da sua existência silenciosa. Mas na noite em que papai não voltou, eu senti bater tão alto que não pude dormir. Mamãe ficou em silêncio por dias e eu não ousei questionar. Eu sabia. E ela, com seu coração que também batia forte, só me olhava com seu olhar de conforto. Ele não voltaria e eu teria que fingir que a vida era a mesma. Levou muitos anos para que esvaziássemos as gavetas dele. Por meses fiquei sentada ao lado do telefone esperando que ele ligasse dizendo “filha, o meu carro quebrou, está tudo bem, venham me buscar no fim da estrada”. Quantas vezes atendi aos números desconhecidos das agências bancárias e planos de saúde com um sorriso no rosto até ouvir seus bons dias e boas tardes gélidos e anônimos. O coração batia forte de dor. E eu desligava. Algumas vezes mamãe trocou comigo algumas palavras sobre o assunto. Na última conversa, ela me explicou algo sobre a vida. “As pessoas, muitas vezes, esquecem o quão valioso é o amor e por isso fogem dele. Saem, compram cigarros, compram bebidas, compram outras pessoas. Aqueles que valorizam o amor, saem, demoram quinze minutos e logo voltam correndo para suas casas abraçar seus filhos. Os que demoram uma hora vivem a vida de aventureiros que sempre sonharam por, no máximo, 60 minutos. Até que se lembram onde está o seu verdadeiro amor e voltam desesperados para casa. Mas, aqueles que não voltam, se perdem no mundo feito loucos desvairados. Vão parar em qualquer canto e aceitam qualquer cama porque se esquecem do lugar quente e confortável ao qual seus corações pertencem” Eu calei. “Ora, será que o coração dele nunca havia batido forte o bastante para lembrá-lo que ainda bombeava sangue e pertencia a algum lugar?” Por muitos anos, no intervalo entre deitar e conseguir dormir, essa dúvida ecoou na minha mente de criança rejeitada. Será que os corações se esquecem fácil uns dos outros quando a gente cresce e começa a fumar? Nunca entendi seus motivos, nem mesmo depois de tornar-me adulta. Sei que nunca entenderei. De vez em quando ainda sonho com os faróis e o barulho do motor na garagem. Muitas vezes ainda questiono quais foram as lacunas que papai tentou preencher com seus vícios e desamores, enquanto ali, em nossa casinha, houve sempre muita ternura e terra fértil para preenchê-lo. Muita gente me diz que eu nunca procurei entender o real motivo de sua busca implacável pelos vícios e suas várias formas de tentar matar um coração. Mas e ele que nunca entendeu o real sentido pelo qual um coração pode viver? É triste como alguns detalhes marcam tão profundamente nossas vidas que, mesmo depois de adultos, as cicatrizes voltam a latejar quando nos lembramos deles. Ainda me dói quando lembro que certa vez, há muitos anos, me perguntaram na escola o que era o tal do amor. Eu respondi que amor é querer voltar para casa. E, naquele momento, senti meu coração bater quase tão forte como no dia em que papai não voltou