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@soumarecheia
Eu não fui feita para ficar, Carlos Não me desce a garganta essa história de pra sempre Quando a eternidade é tempo demais para saber Amar no escuro e não no claro é sempre triste E a luz da palavra transborda ao dizer Eu não fui feita para ficar Eu sou árvore que espalha folhas ao vento E estou em todos os lugares onde o acaso leva Porque não quero me prender ao chão Não quero prender minhas raízes no fundo de um vaso E ser regada diariamente como obrigação Eu não vou morrer se não me cuidar Ou se rasgar com seus espinhos Eu amo o vento que me espalha pelo mundo Amo sentir a terra por entre meus dedos Amo a sua liberdade e quero que se sinta livre Para ir embora quando precisar Pois já é sexta E depois, ninguém sabe Se vale a pena ficar Maré.
Este é um grito de socorro. As minhas veias já nem sentem mais o sangue correr E o ar que eu respiro me sufoca E intoxica pulmões sem força Nem fôlego pra correr e fugir E minhas pernas bambeiam na menor tentativa de passo E eu caio longe do chão, do céu Ou do inferno Eu Caio dentro de mim E me afogo Minha palavra é ácido Que corrói a garganta E eu me sinto insuficiente Porque eu tento, você sabe que eu tento Mas eu me vejo como um peso que só afunda E se perde no mar de veneno que eu mesma criei.
Maré.
eu não vou te dizer que preciso de ajuda ou que sinto sua falta porque eu gritei eu gritei por horas e horas até minha voz se extinguir mas você não me ouviu
eu não vou dizer o que ainda sinto e não é por orgulho, não longe disso foi você quem me pediu foi você quem me calou e dessa vez não foi no calor de um beijo
seus lábios viraram mordaça suas mãos, algemas eu me senti presa por mais que eu ainda tenha todas suas chaves
eu não vou dizer por que seus ouvidos não mais me escutam eu não vou te dizer por que eu sei que vai doer quando eu te ouvir
Maré.
Nunca tive sorte, nem no jogo, nem no amor mas quando você chegou naquela noite escura eu acreditei que meus braços poderiam tocar todas estrelas se você me levantasse e, do alto dos seus ombros eu me vi galáxia mas você me soltou, meu bem você sorriu pra mim e me deixou cair eu atravessei um universo inteiro e me desintegrei me tornei poeira interestelar o amor é um jogo em que se perde eu me perdi em todos os lugares onde você não está e cobri todos os móveis da nossa casa com minhas constelações eu me espalhei pelas ruas, eu marquei o caminho para que você voltasse mas você não veio dizem que quando as estrelas do céu caem elas viram estrelas marinhas depois que você me deixou cair eu virei oceano. Maré.
você bradou com fúria quando eu disse que estava abrindo mão de você
nós nos machucamos demais, p. eu queria que você soubesse que eu tenho medo de nunca amar alguém como eu te amei. como eu talvez ainda ame. não me atrevo a dizer que te amo por que a verdade nua e crua é que eu não sei quem você é de verdade, mas sei que sinto falta.
de como nós passávamos horas deitados nos encarando nos admirando nos gravando em nossos corações.
de como nós dormíamos entrelaçados depois de fazer amor
de como sua risada era música pros meus ouvidos
de como você gostava até das coisas que eu detestava sobre mim mesma
eu precisei ir e choro toda vez que realmente paro pra pensar sobre você por que eu tenho a sensação que eu fiquei empacada em quem você foi pra mim e tu seguiu livre. eu não te marquei. eu fui uma frase pra ti enquanto pra mim você foi um livro inteiro. e eu ainda não consegui terminar de te ler. as palavras estão espaçadas e eu me encontro presa no espaço entre elas. talvez eu não queira te superar porque isso quer dizer que nem a tristeza por não te ter eu sentirei mais e é como se você tivesse morrido para mim.
você ainda vive em mim, p.
por mais que você não mereça e por mais que nós tenhamos nos destruído
apesar de toda morte que tu causou
você ainda vive
aqui
em mim.
você vai me pegar pela mão e me levar pros lugares onde seu coração se aquece e nós vamos correr só por que gostamos de sentir o vento que bate, não temos pressa nenhuma você vai dizer que o amor não dói e dessa vez, só dessa vez, eu vou acreditar por que você trouxe a calma de domingo à uma quarta feira cinza e enfeitou a semana com suas cores você vai dizer que o laranja que tinge o céu quando o sol se põe te faz lembrar de mim e nós vamos escurecer o dia ao fechar dos nossos olhos em um emaranhado de beijo e sonho {eu tenho todo o tempo do mundo pra perder e dissolver em poesia} Maré.
Me banho em impotência. Minha existência, oceano passivo que me rodeia, finaliza-se em ondas que me afogam e me remoem; eu, que há pouco me julgava pedra, descubro-me areia. Construo-me e desconstroem-me. Moldo-me e desmoldam-me. Tetris bucólico em que não me encaixo e não me encaixam. Não tento me encaixar, não sentem minha falta.
Teu céu é tão bonito e cheio de estrelas e eu sou um dia nublado. O azul sempre foi minha cor preferida e eu amo a maneira como o seu azul se une ao meu vermelho e nosso dia desperta. Mas o cinza é triste. A neblina turva embaça minha visão e eu sinto cheiro de chuva. Aqui dentro já chove por meses e essas nuvens não vão embora. Eu sei que você tenta, mas tudo a minha volta é cinza. A indiferença é mais triste que a tristeza em si. Já não sinto nada, nem dor, nem cor, nem raiva e, por favor, não tenta me ajudar dizendo que a culpa é sua. Eu sinto minha pressão baixa pulsar lentamente para alimentar um coração que já não bate nem apanha. Eu estou bem enquanto seu calor me aquece, mas eu anoiteço, o meu cinza escurece e você sabe o quanto eu odeio ficar sozinha. Essa noite eu tive um pesadelo e te procurei em vão, olhos fechados tateando no escuro. Eu senti medo de não sentir mais nada além do medo. Meu corpo me pesa e eu queria deixar um pouco de mim em cada esquina, em cada copo, em cada trago. O que eu te peço é que me abrace quando eu te pedir pra ficar longe. Que entenda que essa fase ruim vai passar e que eu vou voltar a enxergar suas cores. Me aceita e me leva pra sua casa mesmo com os defeitos, eu não te peço muito em troca. E um dia eu vou ficar bem e explodir em vermelhos que colorem o céu no entardecer. Meu calor vai fazer chover uma última vez. Nossas cores vão colorir o cinza. Pôr do sol.
E nenhum azul neste mundo e capaz de superar o infinito dos teus olhos castanhos