Piscou algumas vezes antes de dar uma olhada no corredor deserto, no sonho vão de não estar falando com ele, mas… Que outro Daniel poderia existir no palácio? Muitos, é claro: não era um nome pra lá de incomum — muito pelo contrário, beirava o ordinário. “You did?” Checou novamente, entreabrindo os lábios antes de morder o interior das bochechas, a mente criativa para desgraças já passando a martelar os piores resultados: os membros do Conselho sequer lhe olhariam de relance antes de fecharem a porta na sua cara e… E… Não. Negou, atordoado, apertando o relógio de bronze entre os dedos à medida em que tentava controlar os nervos. “Que… Tipo de coisas? Eles já começaram a reunião?” Oh, you could cut the tension in his body with a dinner knife. (1) O assistente encarou a morena com muita expectativa, como se ela tivesse as respostas para a pergunta do milênio, mas então, depois de alguns segundos, Daniel negou, despenteando o cabelo alinhado com a ponta dos dedos. “Cacete,” xingou em murmúrio, esperando, por tudo que era mais sagrado, que ela não tivesse escutado: simplesmente deixara escapar, “eu sabia que tinha que ter programado o despertador na noite anterior, mas é claro que eu ia confiar no relógio biológico. Porque isso sempre dá certo.” Bufou em uma risada sem humor, praguejando mais para si mesmo à medida em que massageava a ponte do nariz. Danny podia praticamente sentir o coração pular no pescoço, muito mais preocupado com o dilema interno do que com as palavras da morena, até que— “Ei!” Mais um problema. Nice. Perfeito. Bri-lhan-te, Daniel. “Da última vez que eu chequei, eu tinha que permitir para que isso não seja classificado como furto.” Tentou pescar o objeto das mãos da outra, ciente de que a paciência estava por um fio à medida em que franzia o cenho. Não que tivesse obtido algum êxito, é claro, e a cada palavra dela, mais a confusão se alastrava pela mente desatenta. “… Que?” Franziu o nariz, soltando uma risada nervosa antes de decidir se valia a pena guardar as mãos, ciente de que ela não podia correr com o relógio antes de conseguir alcançá-la. “A paleta do uniforme não complementa bem o meu tom de pele. Ia ser um pesadelo estético.” Deixou escapar em tom de deboche, francamente tentado a segurar o pulso da morena enquanto tomava liberdades demais ao analisar a lapela do terno que usava para trabalhar. As bochechas queimaram ante as implicações, caso alguém os visse tão próximos, e Daniel se permitiu o benefício da dúvida ao pigarrear, assobiando de maneira engasgada para tentar se recompor e fugir daquela situação com um mínimo do orgulho intacto. “Já perdeu o interesse em adivinhar o que eu sou? Ora, se esforce mais um pouco, sim? Não é tão difícil.” Semicerrou os olhos, repuxando os cantos dos lábios em um sorriso pretensioso, especialmente quando compreendeu o motivo de ela ter se afastado. A distância devolveu um pouco do juízo, e Daniel sabia que podia reaver o objeto mais tarde, mas… Pendeu a cabeça para o lado, franzindo o cenho ao tentar analisar todas as pequenas dicas que a dama tinha o dado até então. “You sure ar’all bark, no bite, huh? Y’ain’t a princess yerself.” (2) Afinal, princesas não costumavam se portar daquele jeito. Deduziu, seguindo-a a passos calculados para não diminuir nem aumentar a distância entre os dois. Outro fato curioso sobre Daniel: o Seis tinha um attention span prejudicado, então qualquer coisa podia chamar a sua atenção a ponto de se esquecer das matérias mais urgentes que há pouco estavam fazendo com que arrancasse o próprio cabelo. “É, já sei o que você é.” O tom irritantemente pretensioso que tinha pego por osmose com os Lytkin estava ali, e não combinava exatamente com o Seis, mas Daniel não deixaria que a morena escapasse com o relógio… Não se pudesse fazer algo a respeito.
Qualquer rapaz um pouco mais velho que ela poderia dizer que ela emanava todo aquele espírito de irmã mais nova pentelha. Havia sido uma por tanto tempo, ainda possuía um par de coisas que desejava ter feito com Aspen, mas que acabou não dando tempo. Até parecia mesmo que ela enxergava uma figura de irmão mais velho em quase todos seus amigos homens, mas não acontecia de forma consciente, como a maioria pensava. " Yup. " Encenou sua melhor expressão apreensiva, uma vez que aprendera como o outro estava preocupado sobre o assunto em particular. De acordo com o ditado popular: mente vazia, oficina do diabo, e nem de longe Lee era uma exceção à regra. O que ela ganhava perturbando Aspen Daniel? Nada, além de um lugarzinho reservado no inferno. " Honestamente? Nem queira saber. " Além disso, lhe parecia propício um pouco de drama: poderia ajudá-lo a ser pontual na próxima vez. " Acho que não. Ou eles têm muita... fixação... para desperdiçar o tempo da reunião para falar de você. Tipo um fã clube ao avesso. " Não sabia se dar uma ideia negativa sobre ele a partir das pessoas que ele queria ver (suas identidades ainda eram um mistério para ela) era a direção certa, mas tudo o que pôde extrair de Danny naquela hora era que fazia um bom trabalho. Se ele fosse querido, não estaria tão nervoso. " Nossa, que boca suja. " Riu um pouco, simulando certa censura na voz. Como se ela não dissesse coisa pior. Achava engraçado, porém, como tudo no rapaz implorava para que ela fizesse graça. Não porque tinha graça, literalmente falando, mas porque soava mais como um chamado para que ela implicasse. " Caralho, " Entoou, gesticulando, como se o corrigisse. " se for xingar, vai nessa. Libera muito mais. " Era incapaz de explicar porque estava agindo daquela forma, mas àquela altura, depois do caralho, nada podia ser tão pior. " Está tudo bem! Todo mundo se atrasa vez ou outra na vida. Não adianta se culpar por algo que já foi. Só não cometer mais o mesmo erro e pronto. " Mas que era burrice confiar no relógio biológico, isso era. Exceto que ela não precisava ajudá-lo a se sentir pior do que já estava. Park era simpático, apesar de doido ansioso. Mas, bem, que não era meio doido e meio ansioso? " Que furto o quê, é um empréstimo. " Deu-lhe uma piscadela, certa de que ele não a denunciaria, divertindo-se com a lerdeza dos movimentos do outro quando tentava recuperar o relógio. " Tem certeza? Você até que é bonitinho, as fardas costumam dar um tcham a mais... Mas pode ser que você esteja certo. " Precisou concordar, mesmo que não prestasse atenção nos assuntos pertinentes à matéria de moda. Afora com os seus superiores, Lee era muito calorosa com as pessoas do seu status. Familiares, colegas de trabalho, amigos. Era comum e até prezado, para ela, toques de qualquer gênero. E muitas vezes ela se esquecia de que várias pessoas não apreciavam tal comportamento, especialmente quando elas não a conheciam direito. Só lembrou disso quando finalmente se afastou. " Se for funcionário novo e estiver brincando comigo, te dou uma coça. " Avisou. " Bem, já que está atrasado para a tal reunião, é evidente, como o nariz em seu rosto, que não é um dos Conselheiros. " Além de ele ser novo para o cargo, concluiu em pensamento. " Só posso supor que é um... professor? " Era um último chute sem fé, porque também o considerava jovem demais para tanto. Antes professor do que Conselheiro, em sua cabeça. Em contrapartida, era capaz de notar a diferença de ritmo de Daniel, e isso a acalmou um tanto. Já estava perturbada com a possibilidade de ter sido o motivo que causara um infarto a um professor ou sei lá o quê da Seleção de Sebastian. " Não sabe, não. " Ela cruzou os braços, em resposta, quando Daniel se mostrou tão confiante. Quase deixou o relógio cair no processo, mas havia sido mais rápida e conseguira capturá-lo com a ponta dos dedos. Olhou para o moreno com a boca aberta num perfeito O, meio rindo, sem acreditar que havia pegado aquela. " Foi sem querer, desculpa. " Depois voltou à pose de quem sabia mais.