Elogio à tristeza
Este horário é o pior. É a nata.
Eu nem sei que horas golpeia a madrugada agora, mas sei que é aquele horário pior, ruim. Péssimo. Em que os tristes fazem um elogio à tristeza. À nata. A tristeza é mesmo uma bosta, então pelo menos que seja uma bosta bonita. Eu não tenho tanta certeza da diferença empírica entre tédio, tristeza e cansaço. Das poucas coisas de que tenho certeza da vida, nesse embalo, tenho certeza de que essas três coisas - tédio, tristeza e cansaço - são filhas da mesma agonia. Arrisco dizer que foram abandonadas, logo recém-nascidas, no orfanato da lama de não ser quem se quis. Anônimas, indigentes. Esse horário é uma desgraça porque todas as bengalas da felicidade se vão, se dormem. Elas se apagam e acolhem todas as coisas sarnentas que não se vão, que não se dormem. Do avesso dessa camisa de força, meu homem dorme (numa camisa de vênus), meu gato some, minha gata enfelina, o Woody Allen me irrita, minha comida resseca, minha corrida caminha. Meu chá acaba, meu café ataca e meu coração adoece. Meu homem dorme. A música me irrita. Meu homem dorme e, nesse momento, é como se ele não existisse. As coisas não existem quando elas dormem. É nessa loucura que eu acordo, como se largasse a fantasia do dia e tivesse de me vestir de mim, desnuda, de noite. Eu queria pedir perdão, nessas horas, a todo mundo que me faz feliz, por atrever-me sentir assim, nessas horas. Pela felicidade durar apenas o exato momento em que ela dura. Por não mais saber dos jantares em família, quando tudo faz sentido na insistente leveza de ser feliz. Pelas pessoas, que perderam o sentido e a insistente leveza de ser feliz. Eu queria pedir perdão por reconhecer as almas perturbadas, inquietas e tristes. Por chorar descontroladamente todas as almas perturbadas, inquietas e tristes, simplesmente por entendê-las. Eu queria entendê-las. Eu queria pedir perdão pela falta de sono, de pano pra manga. Pedir perdão pela desesperança, por ter sonhado todos aqueles sonhos sonhadores cedo demais. Queria pedir perdão a minha mãe, que ama ser feliz. Pedir perdão ao meu passado, tão tolo e sorridente, sabido das persistências da vida. Perdão à cama que eu deito, como se já não me fosse suficiente. Queria pedir perdão aos vazios mais esvaziados que o meu. Perdão ao meu homem, meu bem, a você, por ter sonhado todos aqueles sonhos sonhadores cedo demais, por ter entrado em coma. Queria pedir perdão à felicidade, por não mais conseguir domá-la por tanto tempo. Perdão a mim, que vou acordar desperta amanhã na costumeira bravura de fazer a vida, no fôlego enlouquecido do dia, superando a faceta da noite. Perdão a mim, sim, mais uma vez e quantas necessárias, que criei duas eu e que, neste horário pior, não sei quem manda. Queria pedir perdão à arte.
Perdão a ela, que vivo sorrindo.
Queria me desculpar comigo por ser demais. Sentir muito. Sentir tudo, sentir nada. Sentir como se fosse a última. Perdão por passar a vida dançando, eufórica, e, ainda assim, conseguir sentir demasiado a pena reverberando no fundo da alma, da carne ou do espírito.
S.
28/11/2016.














