Sobre você.
É sobre você sentado na grama quase verde em uma tarde qualquer, não “qualquer” por não ter importância, mas sim por eu não lembrar exatamente qual. Você estava lá, com as mãos sobre os joelhos, um cigarro entre os dedos. Batendo os pés, como sempre fazia quando ficava ansioso, quando ficava ansioso esperando eu chegar. Sempre que podia me aproximava por entre as árvores, só pra poder te admirar antes que me visse, gostava daquela empolgação. O abraço era sempre o mesmo, alongado (por conta da nossa diferença de altura) e apertado. Sempre sentávamos de frente um pro outro, e você sempre inclinava a cabeça pro lado com um sorrisinho tímido no rosto. Era sempre da mesma forma, sempre e sempre. Teu olhar parecia se aprofundar pra dentro de mim, como se olhasse pra minha alma e a acolhesse. Tínhamos essa ligação, esse ritual de troca antes de qualquer conversa. Eu sempre acariciava tua barba antes do primeiro diálogo e dizia que ela tinha crescido, até quando não tinha, porque sabia que tu gostava de saber. Você sempre sorria, por fora pelo menos, ou pra mim, você sempre sorria. Até quando eu chorava nos teus braços, você sorria. E essa era minha certeza de que tudo sempre ficaria bem, porque eu tinha teu sorriso ali, bem na minha frente. Você me conhecia tão bem, na maioria das vezes eu nunca precisei falar e você sabia exatamente como organizar a bagunça dentro de mim. Eu gostava de te olhar, e olhava, o tempo todo, até tu me pedir pra parar porque estava sem jeito. Hoje penso que talvez não tenha olhado o suficiente, mas valeu a pena cada segundo. Era engraçado como você soltava a fumaça do cigarro em direção ao céu, como se esperasse que ela se transformasse em alguma coisa. Detalhes… esses que tenho tentado descrever pra que não se percam em alguma parte da minha memória. Detalhes que te faziam único. Hoje joguei a fumaça pro céu como você fazia, espero que possa ver aí de cima, porque tenho certeza que a transformei em saudade.
O mundo está tão frio agora que você foi embora!














