幽玄 // self para
Seu estômago revirava e o pouco que ela tinha comido durante o dia já tinha sido colocado para fora, mas Aika ainda queria vomitar. Pediu para que táxi a buscasse e saiu às escondidas do hotel. Durante todo o caminho, tinha ficado abraçada com sua mochila como se ela fosse alguém e quando desceu perto da escola, não a colocou nas costas, mas sim na frente e rumou até o dormitório ainda abraçada com o objeto. Entrou em seu quarto depois de se perder sobre onde estavam suas chaves e, uma vez dentro, tirou a roupa e largou tudo no chão, vestindo apenas uma camiseta qualquer e jogou o resto no cesto para a lavanderia. Dispensou todos os rituais diários que fazia para cuidar da pele e se enfiou sob o cobertor, abraçando o travesseiro que conseguia ser maior que ela com os braços e as pernas.
Existia muita coisa errada em sua cabeça naquele momento. Não sabia dizer em que ponto sua irritação e mau humor na festa se misturaram com álcool e com os muitos momentos divertidos que ela passou e o resultado foi ela ter vontade de chorar por nenhum motivo específico. Foi uma necessidade fugir e, se não tivessem insistido, não teria existido atrito nenhum. Aquilo fazia sua vontade de chorar ser ainda maior, mas ela apenas escondeu o rosto no travesseiro e o apertou entre os membros.
Seu celular tocou e Aika atendeu sem olhar no visor. — Hai? — Quando ouviu a voz de seu pai, não conseguiu segurar nada e começou a chorar como não fazia há anos. Quase não fazia nenhum som que não fossem seus soluços, mas continuou com o celular no ouvido.
— Gomen ne... — Disse quando finalmente conseguiu se acalmar, com a voz fraca e ainda embargada de choro e álcool. Escutou o que seu pai tinha a dizer, sobre ver as notícias, sobre não conseguir chegar a um acordo com sua mãe de jeito nenhum, sobre como ele estava voltando a dar aulas na Universidade de Tóquio para conseguir pagar uma equipe de advogados melhor e resolver aquele impasse. Mas Aika apenas escutou, concordou aqui e ali, mas não dividiu o seu lado, não havia nada que seu pai não soubesse. Sua mãe fazia de tudo para impedir que ela voltasse ao Japão e ameaçava denunciar seu pai a autoridades como perseguidor se ele viesse atrás delas. Era controladora e praticamente investigava frequentemente a vida do ex-marido no Japão para garantir que sempre estaria ciente de tentativas dele de se aproximar de novo. Ele também sabia como era estressante as outras coisas pelas quais a filha passava e lhe pediu para falar alguma coisa boa.
— Eu arranjei um namorado... — Ela riu fraquinho. Seu pai brincou do outro lado da linha. — É, de novo, oyaji. Até parece que eu tive muitos namorados na vida. — Aos poucos a voz dela melhorava, embora estivesse muito longe de ser o tom cheio de compostura que lhe era habitual. Ela sentia muita falta de seu pai e achava completamente injusto que sua mãe movia montanhas para afastá-lo de si e que há anos ela não via-o. Inspirou bem fundo, continuando a conversa em um tom mais descontraído. — Não, esses não são meus namorados, são meus husbandos e minhas waifus, é totalmente diferente. E não, ele não é japonês como o último. — Riu de novo, ainda fraquinho. — Tenho que aproveitar enquanto você não tenta espantar os garotos de mim.
Continuaram a conversar por mais alguns poucos minutos, com Aika se acalmando por fim. Esquecendo-se dos pontos miseráveis de sua vida, escondendo-os de novo, mas com calma. Teria uma noite inteira para dormir e se recuperar. — Oyasumi, otou-san... — Desligou o telefone e o enfiou embaixo do travesseiro, fechando os olhos e encolhendo-se para dormir, ainda agarrada ao travesseiro.







