Enquanto voltava para casa depois de ter percorrido a vila brincando de carteiro, Tsukihi não conseguia entender o que acontecia a sua volta. Via que estava andando e sabia onde estava, mas não se sentia em lugar algum. Ainda tremia e continuou tremendo mesmo depois de deixar a última carta na caixa de correio correta. Voltou para casa e se sentou na frente da televisão desligada, com as mãos entre os joelhos e olhando para um grande vazio à sua frente. Na sua mente, só o que tinha acontecido na última hora, naquele amanhecer que quebrou seu espírito. E assim ela ficou, até que alguém a tirasse dali, olhando para suas mãos que ainda não tinham parado de tremer.
Depois de ter ficado algum tempo com Anthony que, exausto de seu trabalho, não tardou a adormecer. Ela, ao seu lado, também o fez, mas sua insônia era um dos sintomas que nunca tinha melhorado muito e é claro que para ir à festa, ela não tinha tomado seus remédios. Acordou poucas horas depois e, ao olhar no relógio, constatara que dormira quase três horas. Revirou na cama, abraçando e fazendo Anthony a abraçar, mas depois de uns quarenta minutos e com a ameaça do amanhecer na cortina, desistiu. Apenas deu um jeito de convencer um mestiço sonolento a soltá-la e lhe deu um beijinho. Calçou os seus chinelos, saindo de onde morava para apreciar o silêncio daquele lugar. Ao pegar as chaves, notou um pequeno bolinho de correspondências fora do lugar, coisa que não era comum nem da parte dela e menos ainda da parte do homem com quem morava. Passou envelope a envelope, constatando que seu companheiro provavelmente tinha planos de entregar as correspondências ao vizinho, já que estavam erroneamente ali.
Por tanto tempo, a japonesa tinha odiado a Coreia do Sul com todas as suas forças. Sentia falta de Kobe, mas agora algo a afastava de lá bem como de outros lugares. Seu lar não parecia ser uma cidade, mas sim uma pessoa. Então todos os lugares a deixavam inquieta, mas agora ela sabia apreciar a beleza do local, especialmente quando estava sozinha e aproveitava de uma calma incomum. O sol já dava as caras por completo e mesmo que fosse verão, algo parecia frio. Foi bater à porta de Daeun, receosa por incomodá-lo tão cedo, mas via a luz acesa em um dos cômodos. Mal encostara os nós dos dedos na porta e a mesma se demonstrou destrancada. Sua ansiedade disparou, seu estômago apertou... Algo estava errado. E por mais que ela inspirasse fundo e dissesse que aquilo era só sua doença, algo parecia realmente errado. Ela chamou pelo rapaz e pediu licença, entrando mesmo sem resposta. Se tem algo que Tsukihi sempre foi é curiosa.
E de repente, ao seguir para o único cômodo iluminado da casa vazia, ela entendeu porque nem sempre ser curiosa era bom.
O que ela tinha ido fazer ali? Por que aquilo estava acontecendo? Por que ela tremia tanto e seu coração parecia que não existia mais ao mesmo tempo que doía? Por segundos que pareceram demorar uma eternidade, Tsukihi viu Daeun desmaiado no chão e sabia o que tinha acontecido. Ela sabia exatamente o que tinha acontecido e nem precisava olhar os potes de remédio. Ela tinha medo de tocá-lo, embora soubesse o que fazer, porque sabia que o que levava alguém aquilo também era razão para uma fragilidade inacreditável e ela era assim e ele também. Estava incerta sobre o que ia acontecer se ela o tocasse e descobrisse que aquilo não era um pesadelo, que era real. Tinha começado a chorar não sabia nem quando e se ajoelhou, se forçando a agir; virou o rapaz de lado para evitar que ele se afogasse em vômito, caso vomitasse e nem sabia se ele estava vivo. — Daeun... — Falou tão baixo que poderia muito bem ter se imaginado falando quando nada fez.
Procurou o seu telefone no bolso do pijama – a verdade era que ela nunca saía de casa sem ele, por conta de sua paranoia, nem mesmo para ir à casa do vizinho – e discou o número da emergência e tentou se concentrar ao máximo para ser clara e não se desesperar, passando as informações mais concisas do mundo e diretas do mundo. Endereço, seu nome. Suicídio.
Era aquilo que tinha acontecido com ela quando foi ela a tomar dois frascos de remédios restritos e os ajudar a descer com uísque barato quase um ano atrás? Tsukihi mal conhecia Daeun, só sabia que ele era bastante tímido e morava logo ao lado e tinha uma irmã. Às vezes ouvia brigas. Chamou por ele de novo, sem ter coragem de encostar e descobrir mais sobre seu estado, mas também não tinha coragem de deixa-lo sozinho, mesmo que ele nem estivesse mais ali. Ainda não tinha parado de chorar, calada, sem emitir um som. Olhou ao redor encontrando o que a impedia de acreditar em acidentes. Cartas dobradas, os nomes escritos do lado de fora. Pegou-as no impulso, decidindo continuar o que faria e entregar a quem fosse. A da irmã, ela deixou no mesmo lugar onde pegou as outras e enfiou tudo no bolso junto do celular. — Daeun... — Dessa vez ela pousou a mão nele e o sacudiu um pouquinho. Ela não sabia o que dizer além de chama-lo e, assim, informar que alguém estava ali com ele. E isso foi a pior coisa, porque parecia ser tarde demais para dizer algo do tipo.
De repente sentiu alguém tentando lhe levantar e embora tudo parecesse uma súbita algazarra, ela nada ouvia. Tiveram de tirá-la de lá quase à força, pois sem perceber, ela estava segurando a roupa do rapaz com tanta força que os nós dos seus dedos estavam descorados. Explicou o que sabia, exceto as cartas que “roubou” da cena, mas não se lembrava disso. Sabia que tinha feito, mas não sabia de mais nada. Só saiu pela vila depois, entregando as cartas que não eram suas, como tinha planejado ao sair de casa.
Aquele evento tinha a esgotado porque ela simplesmente não estava exatamente empenhada. A vida da japonesa andava corrida e não só isso como no meio da semana, ela decidira ter uma crise que simplesmente obliterara seu humor. Inspirou fundo e deixou o ar sair sonoramente pela boca e, ainda que não tivesse fechado os olhos, não via nada ao seu redor. Ainda tinha que se acostumar com aquela sensação de muita gente olhando para ela enquanto ela estava sobre um palco, agora mais do que nunca. As câmeras não a assustavam tanto quanto fazia os olhares das pessoas, muito mais afiados e prontos a registrarem deslizes. Em meio aquela preparação que somente aguardava o resultado de ensaios exaustivos durante toda a semana verterem sobre o palco, alguém colocou a mão sobre o ombro tenso da japonesa, que rapidamente se voltou para a direção da mão desconhecida.
Seus olhos arredondados encontraram uma expressão reconfortante de calma no rosto de um colega e, involuntariamente, ela acabou sorrindo, desconcertada por todo o seu nervosismo e ansiedade. Realmente, não conseguia desatar todo o seu estresse da semana do dia do evento em si. Ainda tinham um pouco menos que cinco minutos e ela pediu licença para ir ainda mais para o fundo dos bastidores. Correu atrás de sua bolsa, com os saltos pequenos fazendo baques secos no piso e quando alcançou seus pertences, sentou no banco mais próximo para ter apoio. Com a bolsa no colo, ela vasculhou por todos os bolsos – inconscientemente passando a checar se tudo estava do jeito como ela guardava, sem sinais de que tinham mexido nas suas coisas – e encontrou o que queria: o pequeno frasco de ansiolíticos que tinha seu nome no rótulo. Como parte de seu ritual obsessivo, derrubou todas as pílulas em sua mão e contou todas à medida que ia colocando-as de volta no pote, deixando apenas duas para fora. Essas, Arashi engoliu sem água, sentindo-as entalarem desconfortavelmente em sua garganta.
Guardou a bolsa num local inacessível, praticamente decorando a posição na qual a tinha deixado e voltou para a beira do palco, arranjando uma garrafinha de água no meio do caminho para ajudar os remédios a descerem. Finalmente chegou a hora de se apresentar e ela, mais uma vez, inspirou fundo, como se aquilo ajudasse os remédios a fazerem efeito mais rápido. Que fosse psicossomático, ao menos deu certo e, uma vez no palco, ela iniciou a cena como fizera inúmeras vezes naquele mesmo auditório vazio.
Sábado de manhã, a mãe de Aika lhe ligou avisando que a buscaria na escola. Pediu que a filha pegasse o que precisava para passar o fim de semana fora e não eram nem sete horas da manhã quando a dançarina entrou no carro de sua mãe com uma mochila com seus pertences. O sono e o abatimento reinavam dentro do ambiente claustrofóbico e silencioso; Aika preferiu cochilar abraçada à mochila e com a cabeça encostada no vidro do carro até chegar ao destino planejado por sua mãe.
Yuriko a acordou tocando-lhe no ombro e primeiramente, a garota se assustou, depois focou o olhar em sua mãe, depois fora do carro. — Por que estamos no aeroporto? — Sua mãe não respondeu. Os olhos da cantora viram sua mãe vasculhar a bolsa e lhe entregar o que ela precisava para viajar para fora do país e uma passagem. Uma passagem para Tóquio. — O que é isso? — Não entendia nada, mas tremeu na hora de pegar a passagem e segurou-a com força o suficiente para amassá-la.
“Seu pai vai te esperar lá. Você vai passar o fim de semana em Meguro, seu voo de volta é na segunda, você deve chegar na hora do almoço. Eu vou te levar de volta à escola.”
Aquilo era um pedido de desculpas da sua mãe? Aquilo era para significar alguma coisa? No momento, Aika estava com medo de sair do carro e morrer por qualquer coisa, atropelada, que o avião caísse, que um raio a atingisse na cabeça, que qualquer coisa lhe acontecesse antes de chegar ao Japão. — Eu... Mãe... — Não sabia por onde começar. Olhou para a passagem, para o horário ali marcado e para o relógio. Agradeceu e saiu do carro depois de colocar óculos escuros e uma máscara médica, fez todos os procedimentos necessários. Embarcou. Pousou depois de algumas horas de ansiedade.
Encontrou seu pai no aeroporto e ali, não precisava andar de óculos e máscara. Até poderia ser reconhecida, mas não era perigoso como era na Coreia. Quando foi indagada sobre onde ela queria ir primeiro, Aika não pensou duas vezes.
— Pra casa.
Rumaram para Meguro-ku, para o apartamento pequeno, abarrotado de livros, cheio de papéis e provas que seu pai ainda tinha que corrigir. Seu pai destrancou a porta e entrou saudando como sempre. Aika tirou os sapatos, entrou e parecia perdida; tinha precisado daquele exemplo. Repetiu as palavras quase como se não soubesse japonês.
— Tadaima.
“Okaeri”.
Sem saber o que sentir, Aika rompeu em prantos, se agachando para esconder o rosto naquele estado. Estava em casa, não acreditava que estava em casa, não depois de tantos anos.
Logo na terça à tarde, quando a mãe de Aika foi notificada da suspensão da filha, esta última recebeu a ordem de que passaria aquele dia em sua casa, fora da escola. Provavelmente ouviria um sermão do tamanho do universo, mas honestamente, não poderia ligar menos. Tudo o que queria era poder ficar sozinha e ninguém no mundo fazia com que Aika se sentisse solitária tão bem quanto sua mãe. Após ouvir o seu relato da madrugada anterior saindo da boca da diretoria da escola, juntamente com sua punição – suspensão, serviço comunitário na escola, veto da participação no clube de natação e restrição de saída, tudo pelo período de uma semana – e com algum conselho qualquer sobre ela manter sua imagem impecável, além da bronca de seu manager que ficou responsável por discutir com a escola os detalhes do abafamento daquele caso, a adolescente pegou sua bolsa com o que precisava para dormir fora e não se preocupou com roupas, uma vez que em sua casa, ela tinha um guarda-roupa abarrotado delas e saiu da escola no carro da mãe.
Nenhuma palavra foi dita e olhares praticamente não foram trocados. Aika amava sua mãe, mas também a odiava. Yuriko e ela eram tão parecidas que isso chegava a doer na mais nova. Inabaláveis, altivas, ciumentas, controladoras, egoístas e más. Eram extremamente cruéis quando queriam ou quando eram feridas. Falavam e faziam coisas horríveis e quase não eram capazes de sentir remorso se essa fosse sua decisão. Contudo, nada naquela história enorme que culminou em uma briga digna de suspensão tinha sido planejado. As coisas simplesmente foram acontecendo, se amontoando, anunciando que eram extremamente voláteis e que a qualquer momento explodiriam e, mesmo vendo os sinais, a garota decidiu continuar, porque quase não se lembrava mais como era se sentir bem ao lado de uma pessoa.
As palavras que ouvira na noite anterior ainda doíam, o fato de não ter conseguido se defender sozinha a fazia se sentir exposta e vulnerável. Isso esmagava o espírito de Aika de tal forma que, desde que fora levada à diretoria em plena madrugada, não conseguiu chorar mais. Não estava vazia por dentro, porém tinha erguido muralhas tão enormes e rígidas que não parecia possível descobrir o que se passava dentro da garota, que apesar de tudo, tinha o olhar melancólico.
Durante o lanche da tarde com sua mãe, o sermão foi dado como sempre vinha. “Você já é quase adulta. Te ensinei a ser independente e resolver as coisas sozinha, não precisava ter de faltar um dia ao trabalho para ter que cuidar de uma moça de dezoito anos. Além de você perder uma semana de aulas, tão perto do fim de período, vai ficar com seu histórico manchado para o resto da vida! Não foi isso que eu te ensinei, Aika.” Nenhuma pergunta sobre como ela se sentia sobre tudo aquilo, apenas a reclamação constante de que ela era um estorvo e não sabia fazer nada por si só. Nem o tom de voz de Yuriko parecia se alterar; baixo, educado e distante. Exatamente como a própria Aika falava com pessoas que não conhecia direito, ou quando queria evitar alguém ou algum assunto. Sua mãe saiu para finalizar seu trabalho, a despeito do que tinha acontecido sem planejamento e, ao chegar à noite, encontrou o jantar pronto sem precisar pedir. O jantar foi em silêncio sepulcral, mais alto do que a televisão os comentários vãos das duas sobre qualquer coisa, ambas preocupadas em manter entre elas a ideia de que eram uma família funcional.
Quando terminava de guardar toda a louça, a conversa real recomeçou, agora com tom de desapontamento. “É por isso que eu não confio em você. Por isso não a deixo voltar para o Japão; se debaixo do meu nariz você não se controla e faz esse tipo de coisa.” Aika sorria por dentro ter arrancado de sua mãe algo que não era o tratamento sem vida de sempre. “Achei que você teria aprendido a sua lição depois de ser expulsa da Empreus por ficar saindo com um número indizível de garotos. Mas mesmo assim, eu sou chamada ao seu colégio para descobrir que você fica invadindo o dormitório dos meninos em plena madrugada e está envolvida em uma briga com dois deles. Parece que você não faz ideia da impressão que você passa com essas coisas. Deveria saber cuidar não só da sua imagem como idol, como também da sua imagem como mulher.” E dessa vez, Aika riu, sem esconder como ela considerava aquilo engraçado.
— Eu faço tudo o que você quer. Eu tiro notas ótimas em todas as matérias da escola. Eu vim para a Coreia quando você decidiu me afastar do meu pai e eu parei de reclamar disso quando você estipulou. Eu entrei em empresas, me submeti a treinamentos desumanos de dança, canto, comportamento, a tratamentos estéticos e dietas surreais para ser mais bonita porque você enfiou na sua cabeça, e na minha, que eu tinha que ser idol. Eu debutei, meu grupo quase caiu aos pedaços, eu me tornei líder dele, eu aprendi a tocar violão em três meses para dar dinheiro para uma empresa e me esforcei pra caramba pra por meu grupo no topo de novo, e eu consegui isso, tudo porque você me fez perseguir essa carreira de idol. — Aika nunca quis aquilo. Achava a ideia incrível, mas era algo para os livros bobos para adolescentes que ela nem gostava tanto assim, mas lia pelo entretenimento. Era, sim, grata por tudo o que tinha atualmente, por tudo que tinha alcançado e trabalhado duro para conseguir. Mas se envolver com música jamais tinha sido seu sonho.
— Você me expõe como a estátua da perfeição, me ostenta aos seus amigos, me ostenta ao meu pai, que você persegue e investiga e tudo para garantir que ele não vai conseguir chegar perto de mim antes de você ligar para a polícia inventando alguma história maluca sobre ele querer me roubar de você. Eu não sou uma coisa que pode ser roubada. Você, a Koex, a escola, as pessoas na internet ou até na vida real... Ninguém deixa eu fazer o que eu quero. Agora, além de colocar a culpa em mim dizendo que você não confia em para se sentir melhor porque você é uma obsessiva incontrolável sobre a vida de todo mundo que te cerca, você também vai me chamar de vadia, okaa-san? — Sabia muito bem o que aquilo parecia para sua “imagem de mulher” e não se importava. Se acreditasse em alguma religião, estaria quase pedindo para que qualquer notícia sensacionalista sobre ela envolvida num maldito triângulo amoroso surgisse e acabasse com sua carreira. Quase. Podia não ser o seu sonho, mas acabou com amigas que desejavam aquilo e tinha de protegê-las. Talvez fosse ali onde Yuriko e Aika deixavam de ser tão similares: a primeira destruía enquanto a segunda fazia o possível para proteger. E era assim, exceto quando decidia ser má e sabia que, uma vez que decidisse isso, seria capaz de ignorar qualquer remorso. — Eu acho que eu ouvi isso vezes o suficiente na noite anterior. E eu não me importo.
Mais uma vez, Aika se sentia ferida. E dessa vez não era por uma simples palavra, mas por tudo aquilo. Por toda sua semelhança com sua mãe – que só viria a aumentar com o resto de seu discurso – e por toda sua relação com ela, e por toda sua vida naquele país e por tudo que ela vinha passando desde o divórcio de seus pais. — Se você consegue chegar no ponto de me colocar a culpa em mim por me usar, por usar a minha falta de independência perante a lei contra o meu pai pelo puro prazer de mostrar a ele que você tem o controle e pode feri-lo mesmo em outro país, se você consegue insinuar que eu sou vadia sem nem saber porque ou com quem eu estava brigando ontem, acho que já passou da hora de você parar de fingir que é uma mãe preocupada comigo. Você está preocupada com o que estão pensando de você por sua filha ter sido flagrada num quarto com dois garotos em plena madrugada, porque estão todos pensando como você me criou. E a melhor parte é que eu não vejo meu pai desde os treze anos de idade por sua causa, então você não pode nem achar um meio de falar que foi ele quem me ensinou essas coisas e jogar a culpa nele.
Aika largou tudo e foi para o seu quarto. Se fosse possível, sentiria remorso por não estar sentindo remorso. Antes de bater a porta, voltou o olhar para sua mãe e, honestamente, sequer sabia se estava com raiva ou não. Se sentia exausta. Mas nem isso tirou a seriedade de suas palavras ou a forma como ela ditava como seria a relação das duas daquele momento em diante. — Se você me tirar da escola, eu vou fazer pior. Vou fazer você ter de depender do papai para conseguir me controlar e ter de pedir ajuda para ele se você tentar qualquer coisa para tirar a pouquíssima liberdade que eu tenho. Eu juro. Porque eu estou cansada. Eu sou uma pessoa e eu preciso ter o mínimo de autonomia sobre a minha própria vida. Então, já que você não me conhece e não faz questão alguma de me conhecer, não vem bancar a preocupada agora. Era tarde demais uns anos atrás. Hoje já é irremediável. É melhor que você não me conheça e não saiba da minha vida, vai te poupar muitas decepções e você vai poder continuar se gabando de ser minha mãe à distância. — Finalmente, ela entrou no quarto, para se jogar na cama e imaginar se sua mãe choraria ou não após aquela declaração de guerra. Virou de bruços para o travesseiro e começou ela mesma a derramar lágrimas. Tinha certeza de que Yuriko não choraria por um segundo sequer e não era por ser dura feito uma pedra, mas era porque simplesmente, calculista como sempre tinha sido, aquilo devia ser um resultado esperado. E ela provavelmente já tinha um plano para lidar com a rebeldia de Aika, ao menos até que esta completasse a maioridade.
Já tinha ouvido seus erros recitados por vozes demais. Já tinha revivido todos eles pelo menos um milhar de vezes em sua mente. Desistiu daquele dia, de uma vez por todas.
Seu estômago revirava e o pouco que ela tinha comido durante o dia já tinha sido colocado para fora, mas Aika ainda queria vomitar. Pediu para que táxi a buscasse e saiu às escondidas do hotel. Durante todo o caminho, tinha ficado abraçada com sua mochila como se ela fosse alguém e quando desceu perto da escola, não a colocou nas costas, mas sim na frente e rumou até o dormitório ainda abraçada com o objeto. Entrou em seu quarto depois de se perder sobre onde estavam suas chaves e, uma vez dentro, tirou a roupa e largou tudo no chão, vestindo apenas uma camiseta qualquer e jogou o resto no cesto para a lavanderia. Dispensou todos os rituais diários que fazia para cuidar da pele e se enfiou sob o cobertor, abraçando o travesseiro que conseguia ser maior que ela com os braços e as pernas.
Existia muita coisa errada em sua cabeça naquele momento. Não sabia dizer em que ponto sua irritação e mau humor na festa se misturaram com álcool e com os muitos momentos divertidos que ela passou e o resultado foi ela ter vontade de chorar por nenhum motivo específico. Foi uma necessidade fugir e, se não tivessem insistido, não teria existido atrito nenhum. Aquilo fazia sua vontade de chorar ser ainda maior, mas ela apenas escondeu o rosto no travesseiro e o apertou entre os membros.
Seu celular tocou e Aika atendeu sem olhar no visor. — Hai? — Quando ouviu a voz de seu pai, não conseguiu segurar nada e começou a chorar como não fazia há anos. Quase não fazia nenhum som que não fossem seus soluços, mas continuou com o celular no ouvido.
— Gomen ne... — Disse quando finalmente conseguiu se acalmar, com a voz fraca e ainda embargada de choro e álcool. Escutou o que seu pai tinha a dizer, sobre ver as notícias, sobre não conseguir chegar a um acordo com sua mãe de jeito nenhum, sobre como ele estava voltando a dar aulas na Universidade de Tóquio para conseguir pagar uma equipe de advogados melhor e resolver aquele impasse. Mas Aika apenas escutou, concordou aqui e ali, mas não dividiu o seu lado, não havia nada que seu pai não soubesse. Sua mãe fazia de tudo para impedir que ela voltasse ao Japão e ameaçava denunciar seu pai a autoridades como perseguidor se ele viesse atrás delas. Era controladora e praticamente investigava frequentemente a vida do ex-marido no Japão para garantir que sempre estaria ciente de tentativas dele de se aproximar de novo. Ele também sabia como era estressante as outras coisas pelas quais a filha passava e lhe pediu para falar alguma coisa boa.
— Eu arranjei um namorado... — Ela riu fraquinho. Seu pai brincou do outro lado da linha. — É, de novo, oyaji. Até parece que eu tive muitos namorados na vida. — Aos poucos a voz dela melhorava, embora estivesse muito longe de ser o tom cheio de compostura que lhe era habitual. Ela sentia muita falta de seu pai e achava completamente injusto que sua mãe movia montanhas para afastá-lo de si e que há anos ela não via-o. Inspirou bem fundo, continuando a conversa em um tom mais descontraído. — Não, esses não são meus namorados, são meus husbandos e minhas waifus, é totalmente diferente. E não, ele não é japonês como o último. — Riu de novo, ainda fraquinho. — Tenho que aproveitar enquanto você não tenta espantar os garotos de mim.
Continuaram a conversar por mais alguns poucos minutos, com Aika se acalmando por fim. Esquecendo-se dos pontos miseráveis de sua vida, escondendo-os de novo, mas com calma. Teria uma noite inteira para dormir e se recuperar. — Oyasumi, otou-san... — Desligou o telefone e o enfiou embaixo do travesseiro, fechando os olhos e encolhendo-se para dormir, ainda agarrada ao travesseiro.
Aika pegou o celular em cima de sua barriga e olhou para o relógio, constatando que já fazia cinquenta e seis minutos que ela se encontrava na mesma posição: pés e costas apoiados no colchão, o braço esquerdo sob a própria nuca e o olhar fixo no teto. Era assim que ela tinha ficado durante quase uma hora, com a mente tão cheia de coisas que parecia que ela não pensava em nada, porque era difícil processar.
Tudo parecia ruir à sua volta e ela questionava sua competência em tudo: era boa o suficiente para ser líder de seu grupo?, era estudiosa o suficiente para manter as notas no boletim?, era sensato ficar com os garotos que ela andava ficando?, os motivos pelos quais ela ansiava desesperadamente por distrações de qualquer tipo, que resultados em atos inconsequentes da parte dela, esses motivos eram válidos?, ela era uma boa amiga?... Todos esses questionamentos vinham de uma vez, em várias vozes que eram todas dela mesma.
Suspirou e olhou novamente a tela do celular. Uma hora e cinco minutos em que ela estava naquilo. Abriu a agenda do celular, passando por todos os contatos: não existia ninguém com quem ela pudesse compartilhar aquilo. Mesmo as pessoas que ela achava que eram próximas, ela não se abria nesse nível para ninguém. Ficou algum tempo olhando o nome de sua mãe na agenda... E nem ela era uma opção. Tinha de ser a filha perfeita e sua mãe tinha outros problemas para lidar, muitos outros, não tinha de lidar com crises de alguém que nem metade da sua idade tinha. Ela estava no Japão, acertando detalhes com seu ex-marido, isto é, o pai de Aika, que por sua vez não fazia a menor ideia sobre o que se tratavam esses assuntos, mas deveria ser algo sério, considerando que sua mãe odiava seu pai e a separação dos dois foi turbulenta o suficiente para que ela se mudasse de país numa empreitada maluca com a filha. Sentia falta do pai. Sentia falta da mãe. Sentia falta do Japão. Sentia falta de ser uma pessoa comum. Sentia que tinha desistido de coisas por algo que ela nem queria, mas nunca teve essas coisas e nem sabia o que elas eram, mas sentia falta delas.
A japonesa precisou fechar os olhos e inspirar bem fundo quando sentiu os olhos marejarem no meio de tanta inquietude, de tanta coisa errada que aconteceu ao mesmo tempo, tantas pontes sendo queimadas ao mesmo tempo. Não posso ceder, não posso quebrar. Não. Posso. Quebrar. Mentalizou, sozinha, no quarto que parecia vazio, tamanho o silêncio. Não fraquejou, sua expressão mal de alterou. Sempre a mesma. Aika nunca reclamou para ninguém honestamente. Claro que já tinha reclamado com meio mundo de pessoa, mas não o tipo de coisa que as pessoas chamam de “desabafo”. Normalmente recorria a alguém que não a julgasse e lhe desse carinho, mas que não falasse do assunto. Naquele ponto de sua vida, quando ela sempre levou tudo daquela forma, ela não sabia nem se algum dia conseguiria simplesmente falar das coisas abertamente.
Tudo estava tão quieto que parecia que qualquer barulho que Aika fizesse sobre o colchão ou até mesmo o ar que respirava faziam com que o universo inteiro parecesse estar comprimido naquele quarto. E ela se sentiu solitária.
Ergueu o celular e acendeu a tela de novo. Uma hora e dezessete minutos...
A japonesa queria poder falar o que houve e que tudo não passava de um grande mal entendido e que isso passaria e que todo mundo ficaria bem, mas na situação atual, ela realmente temia não só pela sua carreira, mas pelas carreiras de todas suas pedras preciosas e amigas. A líder do Crystallis tinha abandonado as meninas sem razão aparente.
Todo aquele estresse estava mexendo com ela dos pés à cabeça: não conseguia comer, não conseguia dormir, não conseguia estudar, não conseguia se concentrar... Estava vivendo em um estado de ansiedade extremo. Se deu conta de que não tinha um melhor amigo a quem contar essas coisas: não podia contar com as meninas do próprio grupo porque não queria deixá-las ainda mais tensas e qualquer outra pessoa estava fora de cogitação por ser um assunto extremamente delicado. Os rumores sobre o sumiço da menina já permeavam a escola e ela sequer poderia refutá-los, pois não tinha ideia do que estava acontecendo. Sooah tinha sumido e ninguém explicava nada para elas e tudo pareceu mil vezes mais sério depois que as reuniões sobre o comeback do grupo foram subitamente canceladas ao longo da primeira semana em que a líder do grupo não deu as caras em lugar algum e, mesmo sem explicação, as outras quatro integrantes do Crystallis tiveram de continuar suas rotinas como se não houvesse nenhuma alteração no mundo.
Na segunda-feira seguinte, houve o anúncio de uma reunião entre o empresário do Crystallis e outros responsáveis da empresa pela banda e chamaram apenas a japonesa. Em qualquer outro momento, ela acharia que tinham descoberto alguma coisa errada que ela fez, mas a sensação de ser algo sobre sua líder era incrivelmente intensa. Fazia seu estômago doer de maneira lancinante. Ela sequer pôde tirar o uniforme antes de ser encaminhada depois do horário escolar para a tal reunião, em uma das salas frias demais por causa do ar condicionado.
Tudo parecia cinza-escuro. Era como se uma tempestade se armasse dentro daquela sala que nem mesmo as luzes pareciam iluminar as pessoas direito. O agente pessoal de Aika também estava lá, pronto a discutir o que tivesse de ser discutido e depois transmitir a situação para os pais da garota, ambos no Japão no momento. A adolescente cumprimentou a todos cordialmente ao entrar e sentou-se calada, apreensiva, nervosa. Roeria as unhas se não fosse tomar bronca de pelo menos três pessoas diferentes naquele lugar.
“Estamos aqui para avisar que ainda esperamos uma resposta por parte de Im Sooah, mas decidimos tomar providências. Nosso plano é trazê-la de volta ao Crystallis e manter a integridade e a estabilidade do grupo.” O quê? Sooah pretendia sair ou coisa assim? A japonesa sequer pretendia ter uma carreira de sucesso, aquele nunca foi o seu sonho, porque ela se sentia tão abalada? Parecia que podia sentir sua pele empalidecer em cada tom sério emitido por aquelas pessoas tão mais velhas que ela.
“Como dissemos, estamos aqui para tomar algumas providências. Como líder, Sooah falhou em lhes dar o exemplo de um comportamento profissional adequado e está longe de estar apta a manter o grupo coeso.” A amiga seria expulsa? Aquilo afetaria os sonhos das outras meninas de se tornarem famosas, de viverem de música? Sua mente explodia em perguntas que ela não estava autorizada a fazer até que os mais velhos terminassem de se pronunciar sobre o assunto.
“Quer ela volte para o grupo ou não depois desse período, Aika, a partir de hoje você segue no Crystallis como a líder do grupo, uma vez que você é a segunda mais velha. Terá por responsabilidade...” A lista dos novos deveres da estrangeira começou a ser citada por tópicos, mas a falta de tempo que ela teve para absorver toda a ambiguidade bruta e pesada de todas aquelas afirmações. Sabia que não adiantaria perguntar ou discutir, tampouco estavam pedindo-lhe para que ela aceitasse o cargo de líder. Estavam o empurrando para ela.
— Tudo bem. — Seu tom era monocórdio e polido e ela somente disse isso porque aparentemente todos terminaram de dizer o que ela tinha de fazer e esperavam algum tipo de reação dela. Mesmo em uma espécie de pânico, ela respondeu educadamente, sem esboçar uma emoção sequer. Ao mesmo tempo que aquilo era ela mesma, entendeu que todos os anos em que ela contou com sua capacidade de parecer altiva sobre todas as coisas sempre fora uma espécie de mecanismo de defesa dela. Onde quer que Sooah estivesse e qualquer que fosse a decisão que ela planejava tomar, Aika sentia raiva dela.
A reunião prosseguiu com a história que deveriam contar quando e se a coreana retornasse ao grupo. Ninguém podia saber a verdade, ninguém podia sonhar que Sooah tinha abandonado seu grupo. Para todos, se ela retornasse, a história a ser contada era que ela voluntariamente cedeu a posição de líder por não se considerar apta. Aika não a considerava adequada para aquilo sabendo dos motivos que a levaram a abandoná-las. Abandono, abandono, abandono. Era só isso que passava pela mente da japonesa em relação à amiga. Se sentia traída. Sentia seu esforço de anos prestes a ser guilhotinado e a corda que segurava a lâmina parecia prestes a se romper e não havia ninguém para segurá-la. Tudo seria atrasado por conta disso e mais ainda se ela não voltasse. Dificilmente as coisas seriam iguais. Nada mais foi dito pela japonesa, despediu-se de todos e tinha consciência de que no dia seguinte, a reunião seria com todas as integrantes restantes e, para aguentar o tranco, elas teriam o restante da semana livre de ensaios. Precisariam apenas se dedicar aos estudos e às atividades individuais que já estavam marcadas e se esforçar, sobretudo, a cumprir tais atividades como se o grupo delas não estivesse à beira de um colapso.