Nesse dia em particular, o loiro pediu para chegar um pouco mais tarde na cafeteria, disse ao gerente que tinha algumas coisas a resolver e, assim que tivesse se livrado de tudo, retornaria ao trabalho normalmente. O homem não questionou o pedido do rapaz, nem viu problema algum nisso, afinal, teoricamente, era o dia de folga de Hyuntae, além de ser seu aniversário. Contudo, o jovem insistiu e disse que não queria folga alguma, nem que ninguém na cafeteria ficasse sabendo que era seu aniversário, só precisava de algumas horas para ficar sozinho e voltaria às atividades no café como se nada tivesse acontecido.
As flores que Hyuntae comprou na floricultura eram brancas, lírios brancos, para ser preciso. Todo ano ele levava o mesmo buquê para o mesmo local, no mesmo dia e no mesmo horário, como uma espécie de peregrinação (ou seria punição?) meticulosamente programada. Ele seguia pelo conhecido caminho composto de pequenas pedrinhas e folhas secas de cabeça baixa, não precisava olhar para frente, já sabia o trajeto de cor. Considerando que naquele dia estava completando exatos vinte anos de idade, aquela era a décima primeira vez que fazia o mesmo itinerário, subindo uma pequena colina verdejante rumo a uma lápide feita de mármore branco, semelhante a todos os outros túmulos que decoravam aquele cemitério. A lápide que o loiro pretendia visitar, no entanto, era notoriamente diferente das demais em questão de tamanho, qualquer um que chegasse perto o suficiente podia ver que o túmulo havia sido feito para acomodar um cadáver com menos de um metro e meio. Era a sepultura de uma criança.
Geralmente as pessoas costumam ficar felizes no dia de seu nascimento, afinal de contas, essa supostamente é uma data especial, mas não para Hyuntae. Na realidade, Woo Hyuntae odeia seu aniversário. Vinte e cinco de julho não era um dia comemorativo, afinal, responda-me com sinceridade: Você faria alguma festa no dia em que a única pessoa que você realmente amou durante toda sua infância morreu? Acredito que não. Talvez, algum dia, quando a ferida não estivesse tão exposta, fosse possível deixar o fato um pouco de lado para uma boa comemoração, porém, esse não é o caso de Hyuntae. Por longos onze anos, sua ferida havia apenas diminuído de tamanho, mas continuava exposta, como se alguém jogasse sal periodicamente para lembrá-lo que, no fundo, ele merecia sofrer. Não importava quantas vezes ele tentasse costurar o ferimento, os pontos inflamavam e abriam outra vez. O loiro tentava, todavia não se sentia amado, na verdade, não se julgava digno de receber amor algum. Ele era como uma xícara quebrada ou um animal maltratado; qualquer um que se aproximasse demais acabaria se machucando, e a última coisa que Hyuntae precisava era que alguém se machucassem por causa dele. Por ele. O rapaz não se julga merecedor de tamanho amor. Não mais; não depois de tudo que havia acontecido.
Woo Hyori
★ 25 de julho de 1997 ♰ 25 de julho de 2006
Era o que se lia na lápide. Onze anos. Faziam exatos onze anos que Hyuntae não comemorava seu aniversário. Ajoelhou-se diante da sepultura da irmã gêmea, como costumava fazer sempre, substituindo o buquê de lírios murchos pelo novo que acabara de comprar. Lírios eram as flores favoritas dela. Por um tempo, o loiro nada disse, apenas encarou o frio do mármore, pensando se era adequado dizer alguma coisa, ou se devia permanecer em silêncio. -- Annyeong, Hyori. -- Ele disse por fim, sentindo-se ligeiramente estúpido por ter quase certeza de que sua irmã não estava realmente ouvindo aquelas palavras. Ela está morta. Morta. Se mortos não contam histórias, certamente também não as escutam. No entanto, algo o fez continuar falando. -- Já faz um bom tempo que eu deixei a casa em que a gente morava. Você sabe, eu nunca me dei bem com a... SunHee. -- O nome ficou preso na garganta do rapaz, mesmo depois de tanto tempo ele se encontrava incapaz de pronunciar a palavra omma sem que carregasse mágoa ou desprezo, então apenas dizia o nome da progenitora, era mais fácil desligá-la de uma figura materna dessa forma, porque, sinceramente, Woo SunHee nunca foi uma mãe exemplar. Na visão de Hyuntae aquela mulher sequer podia ser considerada uma mãe de verdade, por isso, sempre que perguntavam-no sobre ela, ele respondia que a mulher estava morta. Cuspia mais uma mentira para desviar da dor, como sempre. -- De qualquer forma, eu não pretendo voltar, estou bem do jeito que estou, não quero ter que olhar na cara daquela ajumma alcoólatra e... As coisas estão se ajeitando. Eu acho. -- Respirou fundo, tomando um pouco de fôlego enquanto ponderava se realmente valia a pena continuar aquele diálogo. Se é que a conversa entre uma pessoa e uma lápide podia ser considerado um diálogo. -- Sabe, mesmo depois de tantos anos eu sinto sua falta. No final das contas eu nunca acho que as coisas vão se ajeitar de verdade porque está faltando alguma coisa... Me pergunto... Me pergunto constantemente o que teria sido diferente se você estivesse viva. Talvez eu eu não tivesse tanta raiva da SunHee, talvez nós estivéssemos indo juntos pra faculdade, talvez... eu conseguisse ser feliz de verdade e não através de mentiras. -- Talvez. Eram tantas as possibilidades (ou seriam ilusões?) que se formavam através dessa simples palavra. -- Meu único arrependimento de verdade é não ter sido capaz de fazer nada pra te ajudar. -- Soltou um riso ser humor algum, cruzando as pernas para que pudesse sentar-se de forma mais confortável.
-- Às vezes eu queria poder trocar de lugar com você. -- Hyuntae só sentia a fraqueza e a fragilidade das almas humanas quando lembrava-se disso; quando recordava-se nem ele nem uma equipe inteira de médicos foi capaz de salvar a vida de sua irmã. Era engraçado, talvez até morbidamente triste, constatar que onze anos atrás a felicidade e a vida inteira de Hyuntae giravam em torno de sua irmã e, mesmo agora, onze anos depois, esse fato não havia mudado. Ele não conseguia se desapegar; não queria se desapegar. Era por isso que sua ferida nunca sarava e parte dele tinha consciência disso, contudo, a realidade era que ele tinha medo. Não sabia viver de outra forma, tampouco se achava digno de ter uma vida plena; de seguir em frente. Era injusto que ele estivesse vivo e sua irmã, tão mais inteligente e capaz do que ele, estivesse morta, incapacitada de crescer e constituir uma vida. -- Desculpa. Eu não sou um bom irmão. -- Concluiu. -- Eu não sou uma boa pessoa.
O peito de Hyuntae se enchia com tristeza, saudade, mágoa, arrependimento... No entanto, ele não conseguia chorar. Sequer uma lágrima se formou em seus olhos. Fazia tanto tempo que ele não chorava que achava que suas lágrimas haviam secado, ou talvez ele apenas tivesse desaprendido a chorar. Por fim, o loiro ergueu-se, disposto a por um fim naquela visita. -- Eu ainda estou morando com Kwangseon. -- Informou, decidindo que terminaria aquele monólogo dando a Hyori algumas informações sobre sua vida. -- Acho que vamos ficar assim por um tempo, nós nos damos bem, eu gosto de conversar com ele, é um bom amigo. E eu continuo trabalhando no café da DKL... Inclusive eu vou pra lá depois que terminar aqui. -- Checou rapidamente o relógio, constatando que, se apressasse o passo, chegaria na cafeteria quase no horário de almoço, teria tempo para organizar as coisas antes que Hyerim fizesse uma bagunça com os pedidos dos clientes. Precisava ocupar a mente, esquecer aquela conversa maluca com a sepultura de sua irmã; esquecer que se importava... Esquecer da dor. O resto do dia de trabalho certamente daria conta disso. -- Ah, e... Eu ainda vejo o Woojin todo dia. Eu não sei o que faria se não visse, sinceramente, ele é uma das poucas pessoas com quem eu ainda consigo rir de verdade. Acho que é isso, as coisas não mudaram muito pra mim... Foi... Bom te visitar, mana. -- Dito isso, Hyuntae deu as costas para o túmulo e afastou-se, respirando fundo, a dor e a angústia iam passando e, no lugar delas, vinha o sarcasmo, a máscara de escárnio e lábia que usaria para enfrentar o resto do dia; a máscara que era ao mesmo tempo seu porto seguro e sua maldição.