Hyuntae jamais entenderia o prazer que sentia ao fazer longas caminhadas de madrugada, simplesmente não compreendia o motivo, mas nas noites em que sua insônia atacava, dar uma saída geralmente era o que lhe fazia se sentir melhor. O ar gelado açoitava-lhe o rosto, trazendo-lhe uma estranha sensação de liberdade; a mesma que sentia quando caminhava sozinho e sem rumo aos doze anos de idade apenas para evitar encontrar a mãe drogada ou alcoolizada em casa. O loiro havia aprendido muito cedo a tratar as ruas de Seoul como seu território, porque, por vezes, elas eram mais aconchegantes do que sua própria casa. talvez fosse por isso que se sentia tão relaxado em suas ocasionais caminhadas madrugada adentro. Andava sem pressa, com ambas as mãos bem enfiadas no bolso frontal do moletom preto, para evitar que estas ficassem geladas, observando a grande maioria dos estabelecimentos e prédios empresariais fechados sem muito interesse enquanto atravessava as ruas que, apesar de não estarem lotadas com o caótico movimento diurno, ainda possuíam carros. Não tinha um rumo definido, então acabou indo parar numa praça morbidamente vazia, de dia o local certamente devia ficar cheio com todo tipo de gente, mas àquela hora da madrugada estava deserta como um cenário de filme de terror. O Woo já havia passado da fase de preocupar-se com lugares desertos, afinal, como foi mencionado anteriormente, o rapaz aprendera muito cedo a tratar qualquer parte de Seoul como sua própria casa.
Ao avistar o ser humano cambaleante vindo em sua direção, o loiro apenas revirou os olhos, imaginando tratar-se de algum bêbado, então não se deu ao trabalho de modificar sua trajetória, no entanto, conforme se aproximava identificava detalhes na pessoa que indicavam que provavelmente não se tratava de um bêbado. Primeiro, bêbados não cuspiam sangue do nada; e segundo, bêbados não têm a cara de Seo Eunho. Sim, Hyuntae reconhecia perfeitamente aquelas feições, afinal, conhecia-as desde a infância, quando ele e Eunho eram crianças que sabiam sorrir. Agora, além de não serem mais crianças, ambos haviam desaprendido o significado de sorrir esboçando felicidade genuína. Os sorrisos de Eunho? Raros. Os de Hyuntae? Dificilmente esboçavam algo que não puro sarcasmo. Era engraçado, quase irônico, pensar que um dia aqueles dois foram muito próximos, o suficiente para chamarem-se de melhores amigos e, agora, reencontrando-se após anos sem se ver ou saber o que havia acontecido na vida um do outro, haviam tornado-se completos estranhos. Eunho e Hyuntae mudaram por motivos diferentes e desenvolveram personalidades quase opostas por motivos igualmente diferentes. O destino acabou por fazê-los reencontrarem-se na dkl, mas, até aquele dia, nenhum dos dois havia se dado ao trabalho de se aproximar ou ter uma conversa realmente significativa. Acho que não se pode fugir de certas coisas para sempre, Hyuntae pensou quando o mais velho caiu aos seus pés pedindo ajuda.
Agachou-se rapidamente, colocando com cuidado um dos braços de Eunho ao redor de seu ombro. -- Eu não tenho a intenção de ir embora. -- Respondeu com um sorriso de lado que rapidamente sumiu. Bancar o bom samaritano definitivamente não fazia parte das filosofias ou objetivos de vida de Hyuntae, contudo, não conseguia fazer de conta que não se importava. Não com Eunho. Uma parte dele ainda sentia como se aquele garoto ainda fosse seu amigo e, para a infelicidade do loiro, outra parte se identificava imensamente com ele. -- Caso sua cabeça esteja girando demais ‘pra me reconhecer, aqui é o Hyuntae, Woo Hyuntae, eu vou te levar pra minha casa. -- Informou simplesmente. Hyuntae detestava hospitais, além do mais, tinha tudo o que precisava para dar assistência ao outro em seu apartamento.