no way back .♚. [POV]
[tw: aborto]
Um suor frio insistia em surgir na testa da morena, que batia os pés incessantemente sobre o assoalho do consultório sem ao menos se dar conta de que o fazia, apenas encarando aquela porta que teimava em não ser aberta. Chorara por tantas noites consecutivas em apreensão por aquele dia, que agora que o momento finalmente chegara, nenhuma lágrima sequer surgia em seus olhos cansados. Um nó permanecia em sua garganta, contudo ela permanecia forte, impassível. Havia, mais uma vez, chagado ao nível mais baixo da montanha-russa que era sua vida. O término desastroso de seu relacionamento com Braiden, era apenas mais uma consequência de seus atos levados pelo seu desejo de vingança. Sem mais poder sentir o gosto de seus lábios e o toque de sua pele, novamente descontava todos seus sentimentos da bebida e nas drogas. Se aquele médico não fosse capaz de dar um fim àquilo, ela provavelmente acabaria o fazendo por si só graças ao abuso de todas aquelas substâncias. Talvez, se aquele fosse o caso, se sentiria um pouco menos culpada. Não, doeria da mesma maneira, na mesma intensidade.
lately, i've been living in my head the rest of me is dead
Todas as vezes em que se pegara pensando que se tornaria uma assassina no instante em que aquele homem iniciasse seu procedimento, ela se lembrava do mundo no qual vivia, se lembrava do caos que se instaurara há anos naquele planeta, se lembrava da guerra que estava próxima a explodir. Imaginava o tipo de vida que seu filho ou filha levaria em uma cidade na qual ninguém era livre para ser genuíno, para ser sincero consigo mesmo e com os demais, para ser feliz. E se meu filho se apaixonasse por outro rapaz? Dixie escutara histórias aterrorizantes de garotos homossexuais que haviam perdido a vida dentro dos corredores do manicômio enquanto lutavam pelo seu simples direito de existirem em paz. Que tipo de mãe seria ela ou decidir trazer, conscientemente, seu filho àquele mundo? Que tipo de mãe seria ao decidir trazê-lo a realidade na qual seus pais o conceberam, acidentalmente, como fruto de um relacionamento no qual nunca houvera amor, apenas interesse, mentiras e joguinhos de manipulação? Ele se tornaria a prova viva de um relacionamento que jamais deveria ter existido, e talvez acabasse pagando por isso, pagando por um erro que não cometera. Hecto jamais ficara sabendo de sua condição, apesar disso estava certa que o homem concordaria com sua decisão, ou apenas escolheria que aquilo não era problema seu e não se envolveria naquela nova vida. Finalmente a porta se abrira, e uma voz reconfortante a convidava a adentrar a sala branca de gélida.
make me, believe no more left and right come on take my side i'm fighting for you
Perdera as contas de quantas vezes havia sido egoísta durante toda a sua vida. E sentiu-se mal durante todas elas, mesmo quando sabia que aquela era a melhor opção, que não havia outra saída. Talvez essa sua nova escolha fosse adicionada a essa conta. Apesar disso, estava convencida de que suas motivações para tal também eram altruístas. Talvez se tratasse de uma razão egoísta para agir de modo altruísta, ou vice-versa. Mas a verdade era que não havia escolha correta, não havia como se recuperar de tudo aquilo e muito menos se sentir bem com o caminho que percorreria no futuro. Não havia saída, não havia como escapar. Sairia daquele consultório uma mulher completamente transformada. Uma mulher quebrada. O fundo do poço era seu destino certo, mas pelo menos por enquanto precisaria manter-se forte, por apenas mais alguns torturantes minutos. Deitada naquela maca, a garota segurava firmemente em sua mão, a chave que Haynes havia jogado na lixeira de seu escritório no dia em que toda a verdade viera à tona. Era como se segurasse no símbolo da vida que poderia ter tido, caso não tivesse agido de maneira tão estúpida.Segurava tão forte, que sentia pequenos cortes se formando em sua mão. Aquela era seu singelo modo de se castigar por ser assim.
pleased to meet you take my hand there is no way back from here pleased to meet you say your prayers there is no way back from here
O caminho até sua casa fora igualmente torturante. Tudo ao seu redor parecia lhe lembrar do que acabara de acontecer. Permaneça em repouso, disse o doutor. Poderia passar o restante de seus dias deitada em sua cama solitária, e mesmo assim seria incapaz de repousar. Sua mente trabalhava fervorosamente, repassando um filme de sua vida incessantemente. Chegara a conclusão de que perdera completamente o rumo no instante em que Marfik fora tirado de si. E talvez isso se desse ao fato de que era incapaz de tomar suas próprias decisões, de viver para si mesma. E, enquanto machucava apenas a si, não via grande problema em sua incapacidade. Mas, jamais, seria capaz de lidar com a responsabilidade de machucar pessoas no caminho. Dentro daquele carro, Dixie decidira que não estava em condições de lutar por ninguém. Era um fracasso completo, e não arriscaria levar seu grupo consigo, não arriscaria arruinar a vida de mais ninguém. Era uma mulher quebrada, um pedaço de si fora retirado naquela tarde e não seria responsável por mais ninguém, não enquanto não fosse capaz de se recuperar. Antes de lutar a guerra pela liberdade de Gallica, era necessário vencer a guerra dentro de sua própria mente.










