Kerim tentava achar uma palavra que conseguisse transmitir como ele se sentia, mas nada parecia encaixar devidamente. Pensou em frustração, mas não estava apenas frustrado, estava magoado, irritado, preocupado, impaciente, dentre uma lista extensa de outros sentimentos. De início, tentou lidar bem com o misto de coisas, tentou pensar que não estava sendo compreensivo, que estava sendo egoísta em pensar apenas em como ele se sentia, em todas as vezes que foi a procura de Aurora e deu de cara com o vazio, ou que recebeu como resposta que: não era um bom momento. E quando seria? Kerim sentia-se tóxico por pensar dessa forma, mas o silêncio de Aurora se tornava ainda mais insuportável do que o dos deuses. imerso em seus pensamentos e conflitos, já havia tentando de tudo para simplesmente não pensar nela. Gastou horas nas forjas, tentando tirar do papel alguns de seus projetos, mas tudo saia insatisfatório e com defeitos. Passou no bunker, com a mesma ideia de ocupar-se, mas o calor que sempre lhe foi reconfortante, agora parecia incomodo e fazia a pele pinicar. Tentou até mesmo meditar, mas obviamente falharia nisso, sua mente era inquieta demais para a atividade. O que tinha restado era treinar, colocar um pouco daquilo para fora em alguns alvos, suor e sangue, talvez. Ele só não esperava que fosse encontrar justamente ela na arena, para sua felicidade, ou aumento de angustia. Uma lufada de ar descrente com o próprio azar, rompeu seus lábios. "Claro que estaria aqui.", murmurou quase inaudível, falando consigo mesmo. "Desculpe, não vi que estava ocupado. Pode terminar, eu volto depois.", proferiu finalmente em bom tom, antecedendo o que provavelmente seria a reação dela ao notá-lo, se afastar.
O olhar estava fixo no solo ao lado dele, os dois círculos de grama morta no exato formato dos punhos, exatamente onde tinha atingido o solo incessantemente, como se isso fosse fazer a maldita fenda se reabrir. Hoje, com a mente mais limpa, conseguia perceber o quanto o ato foi impulsivo. Expirou pesado, deixando que todo o ar fosse liberado dos pulmões enquanto o corpo era jogado para trás, repousando sobre a grama, no exato lugar onde costumava ficar a fenda que cruzada o acampamento no meio. Os olhos fecharam, em reação ao céu ainda claro e também para facilitar a concentração. No consciente, as imagens de Aurora no submundo ganhavam forma outra vez, resgatando os flash's que conseguiu captar enquanto mantinha-se aos cuidados dos curandeiros na enfermaria. Foi um alivio ao coração percebê-la com vida, ao mesmo tempo, sentia que uma adaga continuava crava em seu peito a cada flash que destacava o braço machucado, a cada lembrança de que ela estava lá e ele nada poderia fazer para alcançá-la. Se ao menos não tivesse sido impulsivo, se os braços ainda estivessem intactos, se os deuses tivessem aceitado suas oferendas. Se, se, se... tantos e tantos outros circulavam sua mente. Ele respirou profundamente, concentrando, limpando os questionamentos que permeavam a mente.
"Não tem sido fácil, sabia?", proferia as palavras como um sussurro, o tom da voz fraco e macio como um veludo. O rosto virou para o lado e os olhos se abriram vagarosamente, a imagem diante dele era no inicio o campo verde com as árvores do bosque ao fundo, levemente desfocado. Piscou algumas vezes enquanto a mente construía a imagem daquela que seu coração desejava ter por perto, o azul cintilante dos seus olhos, o nariz perfeitamente colocado entre eles, os lábios rosados e tão bem desenhados que poderia perder-se uma vida inteira entre eles. Aurora ganhava forma a sua frente, mesmo que não estivesse de fato ali. "As vezes acho que vou enlouquecer, ou que é isso que os outros pensam quando olham para mim. Que estou por um fio.", em partes, também era o que ele pensava naquele instante, uma parcela do seu consciente tentando segurar com todas as forças o fio da sanidade, tentando apontar-lhe que por mais que ele desejasse, aquela projeção não era real. Os braços estavam postos sobre o abdômen, ainda presos nas malditas tipoias que ele usava desde o primeiro dia. As mãos, no entanto, estavam se recuperando bem, a sensação de movimento tornava aos dedos, revelando que os ossos encontravam novamente sua estrutura, o que era um bom sinal. "Estou tentando, Aurora. Eu juro que estou.", proferiu com a voz tremula, o olhar fixo a imagem que sua mente projetava dela, tão perfeita, mas tão inalcançável.
Não tinha expressões vindas da parte alheia, ela parecia uma imagem congelada, preservada a sua forma para o conforto do filho de Hefesto, ou para o profundo desespero de quem ansiava pelo toque suave dos dígitos em sua face. Piscou algumas vezes, sentindo o marejar dos olhos nublar a imagem da mulher. "Estou tentando demonstrar a força que todos esperam de mim, que todos viam em mim. Mostrar-lhes que estou bem e que não precisam se preocupar tanto assim, mas preciso admitir que estou perdido.", seguia sou profunda confissão, cada palavra dita com dificuldade pela voz embargada que continha o choro iminente. "Acredita que recorri até aos deuses?", compartilhou a lembrança, um riso fraco e sem humor escapando dos lábios, "Consigo até imaginar o que você me responderia agora. Como se eles servissem de alguma coisa, imprestáveis como sempre.", ela diria isso, ou faria algum comentário mascarado, ácido e inteligente, era mais a cara de Aurora. Talvez se não tivesse confrontado Quione, jamais teria recebido uma maldição que fosse, suas palavras sempre tão polidas, até mesmo as ódio, deixavam duvidas para os mais desatentos sobre seus reais sentimentos para com os deuses. Mas não Kerim, ele nunca tivera duvidas daquilo que compartilhavam tão bem e que os aproximou num primeiro momento. "É! Não serviram.", nenhum deles queria se envolver no que acontecia no submundo, o domínio de Hades seguia imaculado como o tratado garantia.
"Mas ei! No final, parece que Hades colocou a mão na consciência.", lembrou-se então do último episodio que foi ao ar, o acordo oferecido por Hades para que os cinco campistas voltassem do submundo parecia no mínimo justo, além de reacender uma fagulha de esperança no peito cansado de Kerim. "Ainda não sabemos quem vai ser a escolha dos nosso amados diretores, mas espero que sejam pessoas competentes.", não via a hora de reencontrá-la, constatar que estava segura, entre eles, no lugar de onde não deveria ter saído. Suspirou mais uma vez, algo que fazia com bastante frequência pelo pesar da conversa, os olhos apertando-se numa linha fina que deixava algumas lágrimas rolarem pela lateral do rosto e caírem na grama ao lado da cabeça. "Também imagino que não vai ficar muito feliz em me ver assim. E eu sinto muito por isso, Aurora. Espero que encontre uma forma de entender o que fiz.", concluiu por fim, tornando a abrir os olhos no desejo de fitar a imagem da mulher, mas no lugar disso, a visão turva percebia um aproximar vagaroso em sua direção, forçando-o a piscar mais uma par de vezes para que as lágrimas abandonassem os olhos e a pessoa ganhasse foco. Era Seth, com um sorriso gentil no rosto e um olhar preocupado que ele bem conhecia. "Os curandeiros estão procurando por você.", foi o que ele proferiu ao abaixar-se ao lado de Kerim, antes de deitar e olhar o céu sobre eles.
O silêncio nunca foi algo desconfortável entre amigos, e se alguém entendia a necessidade de Kerim em abraçar esse silêncio, esse alguém era Seth. Ambos seguiram deitados na grama por mais alguns minutos, talvez meia-hora, até que o outro rompesse o momento para enfatizar outra vez que o Boz deveria retornar a enfermaria. Curativos precisavam ser trocados, poções precisavam ser ministradas. E se ele queria uma recuperação rápida, tinha de atender ao cronograma.
Se fosse sincero, Kerim esperava encontrá-la em meio as atividades do evento, mesmo sabendo que a maioria delas não era bem seu perfil, por também não ser o dele. A similaridade entre os dois, ainda era um tópico que o deixava confortável, e ao mesmo tempo intrigado. Mas sim, esperava encontrá-la em algum momento da noite e conversar sobre a última vez que se falaram, alinhar algumas coisas talvez. Só não imaginava que de tantos lugares e coisas para se fazer, fossem justamente coincidir ao estar na filha da barraquinha para jogar as flechas de Eros. Kerim tinha passado tempo o suficiente de espera, para saber do que realmente se tratava aquele jogo. Diversos outros campistas passaram por ele, alguns constrangidos com a revelação feita pelos alvos, outros brigando com seus pares, por terem visto rostos diferentes do que o esperado. E ele estava tranquilo quanto a isso, pelo menos até que seus olhos fixassem nos fios loiros, já conhecidos por ele. Suas mãos começaram a suar e sua garganta nunca esteve mais seca, péssimo momento para não carregar uma bebida consigo. Suspiro, engolindo o seco andes de deixar mais algumas pessoas passarem a sua frente, para que ficasse perto dela. "Então, já pensou no brinde que vai escolher?", perguntou inicialmente, algo simples para anunciar sua aproximação.
Os dias pareciam se arrastar desde a partida dos escolhidos. O que era torturante por um lado e confortável do outro, pois Kerim sempre pensava que eles finalmente estariam voltando, que a qualquer momento estaria com Aurora novamente. Mas era torturante quando os dias se encerravam e não tinha qualquer sinal de retorno. Parte dele começava a perder as esperanças, talvez se não estivesse naquele estado deplorável, poderia ter sido ele o escolhido para descer. Ou talvez, os deuses fossem realmente sádicos e mesmo saudável, Kerim seria obrigado a ficar naquele ciclo de angustia e impaciência. Passou os últimos sete dias, assim como passou as últimas duas semanas, vagando entre a enfermaria e o chalé de Quione, perdendo as forças ao que a madrugada ficava mais densa e sua energia era drenada para que o corpo se recuperasse. Sempre adormecia na varanda, noite após noite, e aquela não seria tão diferente. Havia passado na enfermaria para trocar os curativos dos braços, as mãos agora estavam livres, os ossos devidamente recuperados, chegava a ser um alívio sentir o movimento dos dedos outra vez. Mas as bandagens seguiam dos punhos até os ombros, pois os músculos ainda estavam em processo de recuperação. Após isso, pulou o jantar, o apetite parecia inexistente ao anoitecer, e seguiu para o chalé de Quione, sentando-se no último degrau de acesso a varanda, com um largo cobertor sobre seus ombros. O frio parecia mais aceitável na presença de Aurora. As pálpebras começavam a pesar algum ponto da noite, mas ele seguia forçando-as abertas. Por tantas noites idealizou o momento em que ela chegaria, a silhueta familiar desfocada ao longe, ganhando forma a cada passo que ficava mais perto. Ele tinha perdido as contas de quantas vezes o inconsciente o tinha enganado assim. Respirou fundo, piscando mais algumas vezes até que, outra vez, a mente começou a enganá-lo. Começou com algo distante, a curvatura do corpo cansado, andando em sua direção. O braço machucado preso a frente do corpo, enquanto o outro pendia cansado ao seu lado. Kerim não relutou, já estava acostumado a delirar com ela. Quando chegou perto o suficiente, no entanto, algo parecia diferente das outras vezes. Os olhos estreitaram-se ao que ele levantou-se, deixando o cobertor escorregar por entre os olhos e cair juntos aos pés. "Aurora? É realmente você?"
o pequeno sorriso apareceu nos lábios de Boz ao ouvir as palavras alheias, como suplica para seus ouvidos. Claro que quando ele desafiou a mais nova naquele pequeno mergulho no lago durante a noite, não foi imaginando que ela pudesse aceitar, nem mesmo ele que tinha algum vinculo com a água considerava realmente fazê-lo em condições tão.. frias, literalmente. "Mas qual seria a graça se não fizesse? Vamos, ainda pensei em algo que fosse familiar para você, ou tem problemas com o frio?", provocou, sem qualquer intenção de soar ácido ou meramente parecido com isso, a prova estava no cutucar que deu na altura das costelas de outrem, instigando ainda mais, "vamos, vai ser só um mergulho. Poderia ser pior, poderia ter dito para pular daquele galho ali.", apontou com o indicador a árvore na direita deles, um galho firme que suportaria a empreitada e que era consideravelmente alto.
existiu um momento em que Kerim não questionaria aquela afirmação, apenas assentiria a verdade inegável daquelas palavras, ele não queria e não tinha motivos para ficar. Ao menos foi isso que pensou no início, que seu regresso apenas firmaria algo que já lhe era bem conhecido: o desejo de partir e deixar tudo para trás. Enganado, ele viveu por isso nas primeiras semanas. Mas agora, precisava admitir que algo tinha mudado, que suas certezas se perderam com o passar dos dias, com os acontecimentos, afetos e tanto mais. Que o discurso que fez para Aurora, dias atrás, sobre não querer laços que durassem, pois eles poderiam se romper, caiu totalmente por terra diversas vezes, e uma delas estava bem ali diante dele. "you're wrong", confessou baixo, como um murmúrio de algo que tinha ainda dificuldade em admitir. "confesso que no início, estaria coberta de razão, Aurora. Mas não estou no início, coisas mudaram, eu mudei.", continuou, o tom de voz era honesto e o olhar mantinha-se firme e fixo nas orbes alheias. "talvez eu tenha mais motivos para ficar, do que para partir. Você só ainda não os conhece.", concluiu, permitindo-se deixar algo em suspenso no ar, algo que ainda não conseguia pronunciar, por ainda não saber como definir ou como se sentir sobre.
👚 - Fix the buttons on my muse's shirt. ( @stcnecoldd )
observava enquanto Aurora se aproximava da cama usando nada além da camisa que Kerim vestia instantes atrás. O sorriso moldava os lábios do semideus num misto de felicidade com luxuria. A puxou por uma das mãos quando estava perto o suficiente, fazendo-a sentar em seu colo. "Você está linda assim, sabia?", comentou, as mãos subindo para os botões da camisa, atacando alguns deles em suas casas lentamente, apreciando a visão que a mulher oferecia. "Estava certo quando disse que ficava melhor em você.", completou com um suspirar que esvaziava os pulmões. O olhar finalmente subiu de encontro as íris azuis que cintilavam ao fitá-lo. "acho que vou ter que me acostumar a dividir o guarda-roupa, uhn?"
o sorriso involuntário moldou os lábios de Kerim assim que ouviu as palavras da mais nova. Não era uma informação nova, longe disso, conseguia ver nas pequenas coisas do dia-a-dia, nas trocas entre eles, o quanto faziam bem um ao outro. Algo que também não estava resumido ao presente, ou a relação que desfrutavam agora, mas ousava dizer que de muito antes. Sempre foi fácil e confortável estar com Aurora, falar abertamente das suas inseguranças e anseios, ser acolhido todas as vezes que o fazia, sem criticas, sem julgamentos, apenas ela o recebendo e aceitando exatamente como ela. Será que ela sabia que também o fazia feliz? "Lembro de ter me dito isso antes.", num momento intimo como aquele que partilhavam agora, abraçados entre os lençóis da semideusa, a cabeça dela repousada em seu peito, seus braços envoltos no corpo dela e uma das mãos enfiada nos fios dourados. "Ainda é perigoso, Aurora?", indagou remetendo ao momento passado e a confissão que veio atrelada aquelas mesmas palavras.