Garoto de esquerda,
com consciência de classe
e aquele ar de quem sabe
e gosta de mostrar que sabe.
Me impressiona no violão,
à noite, no hostel,
pés descalços,
com o corpo solto e um olhar
que parece horizonte de mar agitado.
Tem medo escondido no fundo dos olhos,
mas ri fácil,
me faz gargalhar de verdade
querendo me impressionar com investimentos.
Se envergonha por errar na calculadora
e eu só ria,
ria mais ainda por gostar ainda mais de você.
Me chama de linda,
ama minha pele como se ela fosse
algo entre relíquia e abrigo.
Diz que quer fazer um casaco dela.
Eu rio:
"Saí pra lá, morre tu primeiro!"
Mas acho fofo,
do jeito esquisito que faz jus ao seu apelido de adolescência.
Você é aventura,
enquanto eu sou carro a 40 km por hora
na estrada Itacaré–Ilhéus.
Você grita, me assusta
mas me puxa pro agora.
Me faz querer voltar.
Quero te ver mais.
Te ouvir mais.
Ficar perto.
Sentir.
Adoro quando você me toca
sem roteiro,
só desejo,
brincando com meus seios
como quem aprende uma linguagem nova
Sem duolingo.
Sem urgência.
Sem penetração.
Só presença.
E eu, que já era à esquerda,
fico mais ainda.
Mais esquerda, mais entregue,
mais querendo descobrir
que revolução é essa
que você começou
só com uma moto,
sem tatuagem,
um cheiro
e um jeito profundo
de me olhar.














