“Se tem algo que me deixa irritado, é observar algumas garotas pela rua e ver o quanto são fúteis. Muitas delas gastam o tempo e dinheiro, indo a salões de beleza caríssimos e se enchendo de maquiagem. Ou vão ao shopping e voltam cheias de sacolas em mãos.
Eu sou um cara comum, estudo, e trabalho numa loja de livros e cd’s. Adoro estar envolto de coisas simples e de pessoas interessantes. Por mais que seja uma coisa rara de ver nos dias de hoje. Enquanto estou no balcão, vendendo cd’s para centenas de pessoas, observo os seus gostos musicais e confesso que muitas vezes sinto vontade de rir. São poucas as pessoas que compram cd’s de bandas de qualidade e que tenham um gosto parecido com o meu.
Recebo também muitas cantadas de garotinhas estúpidas que não aguentam ver um cara. Garotas que vão ao meu local de trabalho, apenas para comprar uma revista de bandinhas da moda, ou de livros que não tem nenhum tipo de conteúdo. Não me chamam atenção.
Entretanto, hoje eu vi uma garota um tanto diferente entrar na loja. Não usava salto alto ou sapatilhas. Estava calçada com um all star branco, todo manchado de lama – supostamente. Calça preta, com alguns borrões brancos e uma camisa branca maior que ela, escrita “Foda-se” bem grande e com letras divertidas. Seu cabelo estava em um coque desarranjado e alguns fios castanhos claros saltavam sobre o seu rosto oval. Olhos claros, esverdeados e usava um óculos de lentes grandes.
Bastante original, pensei.
Concentrei-me na cliente que estava diante de mim, e mentalmente, pedi para que a garota comprasse algo e viesse pro meu balcão.
Assim que a moça saiu, eu olhei para o local procurando a tal garota, a vi olhando alguns Cd’s de rock nacional. Sorri, pois finalmente alguém tinha bom gosto.
Ela pôs o código de barras do cd, naquele aparelho que possibilita as pessoas de ouvir uma prévia do cd, e se não me engano era de Legião Urbana.
Ótimo gosto, pensei novamente.
A garota finalmente escolheu o cd e olhou para os caixas disponíveis. E felizmente eu era um deles. Mas ela foi na direção do caixa ao lado, e por sorte um gordão tomou a sua frente fazendo com que ela viesse pro papai aqui.
- É só isso? – eu perguntei fingindo não me importar.
- É sim. – ela se manteve séria, enquanto retirava o dinheiro da carteira – É esse preço mesmo não é?
- Aham, estão de promoção .
- Ótimo – ela me pagou.
- Você tem um bom gosto.
- Hãm? – ela me olhou curiosa.
- É que, geralmente as meninas normais não vem aqui pra comprar rock clássico.
- E quem disse que sou normal? –ela me olhou com seriedade.
Arqueei a sobrancelha e dei um riso contido. Ela era incrível.
- Porque tá rindo?
- Por nada – ensaquei o seu cd e a entreguei – A propósito, meu nome é Caio.
- Hm, prazer – ela deu um sorriso breve – Tchau Caio, e confira o dinheiro.
Eu fiquei surpreso por ela não ter dito o seu nome, e com pressa disse.
- Não vai me dizer seu nome?
- Confere a grana – ela disse enquanto se afastava.
Confuso, olhei pro dinheiro em minhas mãos e encontrei um pedaço de papel em meio a algumas notas. Lá, estava o seu nome e o numero do seu telefone, anotado com o que provavelmente seria um lápis de olho.
“ Rebeca, 3567-8922 (:”
Dei um sorriso olhando para a porta, e de longe a vi acenar com um sorriso nos lábios.
Ela realmente é incrível.”













