1 - O Edificio Eden
Tudo havia acabado e os dois primos estavam de volta à sensatez. Comiam yakisoba em uma praça de alimentação de um shopping enquanto discutiam sobre o que havia acontecido de fato. Expunham teorias.
- Não creio nesse tipo de explicação, Pedro... – disse um deles tentando pegar o macarrão com os pauzinhos -... É certo que tudo o que aconteceu foi muito estranho, mas é surreal demais essa possibilidade que você diz aí...
- Mas entenda... Você viu o que eu vi! Mais de uma vez! Eu também não acreditaria se me contasse pouco antes de tudo o que rolou.
- Eu ainda acho que era o ar-condicionado.
- Que mané ar-condicionado, Pablo! Se o taxista queria te abusar sexualmente, teria...
- Nos abusar sexualmente! Não tire o seu da reta!
- Sim. Certo... Se o taxista queria nos abusar sexualmente, teria nos levado para qualquer lugar onde pudesse fazer isso. E existiriam maneiras mais práticas e menos viajadas de cometer um delito como este do que acionando um mecanismo sonífero no ar-condicionado do carro.
- Ok, esqueçamos o ar-condicionado. Estou convencido de quão ridícula é esta teoria. – Pablo largou os pauzinhos e alcançou o macarrão com o garfo mesmo, enfiando um bom bocado na boca. – Você não vai comer? Essa porcaria é cheia de sódio mas tá muito boa!
- Não consigo comer depois da história da placenta...
Pedro continuou enquanto Pablo mastigava:
- Vamos fazer assim: recapitulamos o acontecido mais uma vez... só que um de cada vez, sem interferir na explicação do outro, sacou?... e aí vemos se nossas lembranças conferem e se realmente vivemos a mesma bizarrice...
- E depois vemos o que faz sentido nas duas versões? – disse Pablo de boca cheia.
- Sim, isso!
- Certo... – mais um bocado de macarrão -... Quem começa?
- Eu começo! Bem...
- Estou ouvindo... – um gole de coca.
“Saímos de casa hoje, umas dez da manhã e fomos até a parada de ônibus da Bernardo Vieira. Uns dez ônibus passaram e nenhum motorista sabia onde diabo ficava o tal Edifício Éden, ou pelo menos não demonstravam interesse em dar nenhuma informação útil, presos em tamanha ignorância e grosseria.”
- É de se compreender, eles têm umas das piores profissões do mundo.
- Combinamos que não iríamos interromper o relato um do outro...
- Sim, foi mal. Continue, por favor.
- Então...
“Esperamos por uma meia hora por algum ônibus que pudesse nos levar ao Edifício Éden, sem sucesso. Atravessamos a rua e encontramos um ponto de taxis, mas nenhum dos taxistas sabia sobre o prédio, de modo que ficamos desiludidos e cogitamos voltar pra casa e desistir de nos encontrarmos com a Luana. Até que veio esse taxista, meio barrigudo e narigudo e chegou bem perto e perguntou baixinho:
‘O que vocês querem no Edifício Éden?’.
Eu tratei de explicar toda a história, sobre como eu havia voltado tarde pra casa no dia anterior e fiquei com medo de levar o carregador do meu celular na mochila, crendo que podia ser assaltado e se perdesse o carregador do celular, nenhum sentido haveria em ter um celular... Por isso deixei o carregador com a Luana e fiquei de pegar com ela outro dia... Mas o danado do celular inventou de descarregar na mesma noite, depois que eu cheguei em casa, e eu teria que me encontrar com ela para pegar o carregador de volta, o quanto antes.
Sendo assim, saí de casa no outro dia de manhã com intenção de passar na casa da Luana e pegar meu carregador de volta. E ela mora no Edifício Éden, por isso precisávamos ir pra lá. Daí, ele perguntou em seguida:
‘Por que esse outro moleque vai com você, então?’.
Aí expliquei que você tava de férias em Natal e vai embora amanhã, e como não tínhamos saído de casa pra nada até então, o chamei para me fazer companhia.
Ele disse alguma coisa em seguida que veio acompanhado de um sorriso banguelo e uma indicação de mão, afirmando que podíamos entrar no carro que ele nos levaria.”
- Foi nesse momento que eu achei que poderíamos ser estuprados!
- Eu não vou pedir para você parar de me interromper de novo, é sério!
- Tá bem, tá bem... vá falando que eu vou pedir alguma sobremesa.
“Sentamos no banco de trás. O táxi foi levando a gente e aos poucos foi surgindo aquela sensação que você disse que compartilhou comigo. Um sono incomum, como se estivéssemos há dias sem dormir. E, do nada, olhei pro meu lado e você já estava dormindo. Dormindo mesmo, grunhindo e babando e tal. A essa altura eu ainda acompanhava a paisagem pela janela, tomando cuidado para decorar o caminho. Apesar de não temer que o taxista nos fizesse mal, como você temia, sempre tomo esse tipo de precaução quando estou num taxi.
Mas se aproximava do meio dia e o sol, já estava a pino. Você sabe que eu tenho essa sensibilidade idiota nos olhos e, por isso, já não conseguia enxergar nada sem os óculos escuros que havia esquecido sobre a mesa antes de sairmos. Também culpo o sol pela tontura e o enjôo que me tomaram logo em seguida. O calor era tanto que pedi para o taxista fechar as janelas e ligar o ar-condicionado. Ele assim o fez, mas parei de prestar atenção no caminho, pois já me sentia muito mal.
Lembro que já estava quase adormecendo quando percebi que estávamos numa estrada rodeada por dunas de areia muito branca. Tudo era claro demais para que eu compreendesse qualquer coisa que avistasse, mas como quem vê uma miragem mirei a primeira coisa inacreditável do dia, no meio daquele deserto todo.
Era uma minhoca.
Uma minhoca muito grande. Gigante, para ser mais específico. E ela entrava e saía da areia, com a facilidade de uma baleia mergulhando e se exibindo no mar. E eu posso crer que ela abriu uma boca recheada de dentes afiados antes de um de seus mergulhos.
E aí, eu dormi.”
- Puta que pariu! Essa foi a nossa desgraça, os dois terem dormido ao mesmo tempo.
“Não sei por quanto tempo dormimos, mas acordei com o taxista nos chamando.
‘Ei boys, chegamos! Acordem aí... ’, ele ficou repetindo.
Saímos do taxi e eu já tava puxando a carteira quando o cara disse que não precisava pagar... ele falou alguma coisa que eu não lembro direito...”
- Ele falou: “Me paguem aprendendo alguma coisa... espero que aprendam com tudo isso”. E depois foi embora. – interrompeu Pablo.
- É... – disse Pedro pensativo – foi isso mesmo... enfim...
“Eu lembro que o táxi deixou a gente bem na frente do muro do prédio. Era realmente uma imagem muito estranha aquela. Vou tentar descrever o que vi com o máximo de detalhes.
Atrás de nós, havia a estrada e do outro lado dela um deserto infinito de areia branca. Olhando pra esquerda víamos a continuação reta da estrada que sumia no horizonte, na direção que o taxi havia seguido. Para a direita, a mesma estrada infinita, na direção de onde tínhamos vindo.
À nossa frente erguia-se um muro de pedra comprido que seguia acompanhando a beira da estrada até onde a vista alcançava. Era um muro de pedra tosca, nada do que estou acostumado a ver em arquiteturas modernas. No muro havia quatro portais, que levavam ao lado de dentro do condomínio. Os portais lembravam entradas de cavernas naturais, tal eram suas irregularidades. E atrás deles havia uma mata densa, quase uma floresta amazônica que se pendurava sobre a pedra. Era possível ver mato e claridade no fim de cada túnel de pedra. Foi aí que você falou alguma coisa que me fez levantar o olhar para o prédio que ficava no meio de toda aquela arborização.”
- Eu disse que a decoração daquele condomínio não fazia sentido algum.
- Cara, por favor! Pára! Eu tava lembrando de uma coisa bem importante sobre quando a gente entrou e você me interrompeu e agora deu um branco.
- Mas você tá contando a história como se eu não estivesse lá, e eu fui o protagonista da história, praticamente.
- Não, o protagonista da minha história sou eu! Que coisa, porra! Quer ser a estrela da minha vida agora, é? Quer que eu conte a história do seu ponto de vista? Como diabo eu vou fazer isso, cara?
Um garçom se aproximou com um brownie de chocolate e uma bola de sorvete numa taça.
- Olha, minha sobremesa chegou. – disse Pablo – agora eu não vou te atrapalhar mais.
- Se você não terminar de comer antes de eu terminar de falar, né?
Pablo encheu a boca de sorvete e fez um gesto com a mão, pedindo que Pedro continuasse.
“Lembrei o que eu ia dizer: você me fez olhar para o prédio que era feito todo de vidro espelhado, futurista demais e alto demais para aquela paisagem rústica que o cercava. Na verdade, o Edifício Éden é o prédio mais alto que eu já vi em toda minha vida. Não me lembro sequer de avistar o topo.
Em seguida te perguntei por qual entrada nós iríamos e você pensou um pouco e respondeu:
‘A terceira’, você disse.
Eu perguntei o porquê, e você falou:
‘Por que não é a primeira e nem a última, o que seria muito óbvio. E das duas que sobraram, não é a da esquerda que seria a mais lógica’.
Deduzi que você seguiu algum raciocínio de improbabilidade que eu jamais compreenderia, então não questionei. Dei-te umas palmadinhas nas costas, e entramos pelo terceiro túnel.
Foi estranho passar por aquele túnel. Minhas tonturas e enjoos voltavam conforme avançávamos no escuro e eu quase vomitei. Acelerei o passo. Apesar de nunca ter sido claustrofóbico fiquei assustado com aquele peso ao meu redor. Conforme nos aproximávamos da luz no fim, comecei a ouvir vozes alvoroçadas.
Confesso que me assustei com o que vi depois de sair daquele túnel. Não por ser uma visão apavorante, mas simplesmente por não ser nada do que se esperaria num pátio de condomínio: havia uma cachoeira no meio da mata e dezenas de pessoas se banhavam divertidamente nas quedas d’água que se espalhavam ao redor. Estávamos, literalmente, no meio do mato.
Uns vinte metros à frente se encontrava mais um muro de pedra, idêntico ao anterior, com quatro portais, mais floresta por trás e o Edifício Éden ainda do outro lado. Era como se o prédio estivesse se afastando.
Eu realmente não sabia o que fazer naquela situação, até que tive a ideia de me dirigir até a água para perguntar a alguém que se banhava onde ficava a portaria ou o interfone do prédio. Foi nessa hora que você me puxou e chamou minha atenção.
‘O que porra é aquilo?’, você disse com o dedo rijo para muro de pedra da frente, o que ainda não tínhamos passado. Eu olhei para frente e vi o que havia causado seu espanto.”
Pedro permaneceu calado por algum tempo sentado na praça de alimentação, olhando pra coisa alguma no horizonte. Pablo desacelerou o mastigar e franziu o cenho.
- Parou na melhor parte? – perguntou Pablo, despertando o primo do transe.
“Éramos nós dois... Parados em frente ao paredão de pedra... Conversando e olhando pasmos para as quatro entradas...
De início achei que eram dois caras vestidos com roupas idênticas... E com alturas semelhantes... E com os mesmos cortes de cabelo... Mas aí, o que vestia minhas roupas deu uma palmadinha nas costas do outro e ambos seguiram e entraram no terceiro túnel.
‘Tu viu isso?’ eu falei, pasmo.
‘Eu que te mostrei, mano!’ você respondeu.
‘Você viu o rosto deles?’ perguntei, e você respondeu que não, obviamente, pois ficaram de costas o tempo todo. Aí você falou:
‘Cara, vamo logo sair daqui, cara... tô gostando disso não, cara...’
Então eu olhei pra cachoeira e procurei no meio de toda aquela gente que se banhava se havia alguém que parecesse saber de alguma coisa, ou pelo menos onde ficava o interfone. Mas eu chamei algumas pessoas e cheguei até a gritar mas ninguém sequer nos viu... Era como se ninguém pudesse nos ver, ou como se não pudéssemos atrapalhar a diversão deles... Eles estavam realmente concentrados em suas felicidades, esparramando água de cachoeira por todos os lados... Senti que se eu estivesse naquela água realmente não perceberia ninguém que tentasse trazer seus problemas para mim...
Aí desisti de chamar e tentei pensar em alguma outra solução. Foi quando você puxou o celular do bolso e perguntou qual era o número da Luana. E eu fiquei surpreso porque não imaginava que você havia trazido um telefone consigo.
‘É claro que eu trouxe’ você disse. ‘Quem sai sem celular hoje em dia?’
Saber que você estava tinha um telefone teria adiantado muita coisa ainda quando estávamos esperando o ônibus, mas eu ignorei esse fato e tratei de te passar o número dela para ver se aquela situação esquisita terminava de uma vez. Você discou e passou pra mim.
Ela atendeu logo e eu expliquei que estávamos numa mata perto do prédio, que eu estava meio desorientado e perguntei qual era o número do apartamento dela e como faríamos para subir. Expliquei também que você estava comigo.
Ela se surpreendeu e perguntou se era uma mata como uma cachoeira perto. Eu disse que sim e ela perguntou:
“Mas como foi que vocês vieram parar aqui? Isso é impossível!”
Eu respondi que não sabia responder e ela disse que já estava descendo. Te devolvi o telefone e me sentei sobre uma pedra, muito tonto.”
“Achei que tava delirando quando escutei aqueles gritos, mas quando olhei para o seu rosto vi que você também estava procurando a origem da baderna. O barulho vinha de dentro da caverna atrás de nós, a terceira, pela qual havíamos chegado. Eram sons de vozes e pessoas correndo.
Me levantei da pedra e saí de perto com medo de ficar no caminho do que fosse que vinha apressado por ali. Você me seguiu e ficou assustado também.
Três caras de boné saíram de dentro da caverna correndo e gritando. Um deles, o que liderava a corrida, segurava um gato branco. Os caras fugiam de algo. O gato parecia calmo, apesar do alvoroço. Eles passaram correndo e nem nos viram. Cruzaram o mato aos saltos e solavancos e se encaminharam direto para o outro paredão, do lado oposto. Seguiram correndo pelo terceiro túnel e sumiram na escuridão.
Ainda estávamos nos recuperando da cena, quando ouvimos mais sons vindos dos túneis bem atrás de nós. O som vinha do segundo túnel, desta vez.
Dali saiu um homem, de sunga e barbado. Magro feito a morte, e com ódio na cara. Encarou a gente e gritou:
‘Pra onde levaram O Gato?’
Apontamos juntos para o terceiro túnel do paredão oposto. O homem respirou fundo e seguiu correndo, cruzando a mata e desaparecendo pelo mesmo caminho.”
Pablo abocanhou a última garfada do brownie e disse:
- Essa foi a parada mais estranha na minha opinião... E você se lembra bem direitinho da ordem dos túneis e tal... Eu não lembraria dessas informações específicas se fosse contar a história... Eu só lembro que a menina apareceu do nada. Eu achava que ela viria de um dos túneis, contando com o fato de que o prédio estava do outro lado.
- Eu também, mas não foi isso que mais me surpreendeu, e sim a barriga dela.
- É, você não tinha me dito que ela estava grávida.
- Ela não estava grávida no dia anterior, por isso que eu não disse.
- Isso é realmente bizarro.
- Continuando...
“Ela apareceu do nada, saída de trás de um arbusto qualquer, você deu um grito de mulherzinha e ela começou a rir. Eu perguntei de onde ela tinha vindo, mas fomos interrompidos por um novo tumulto que dessa vez começou no meio da galera que tomava banho na cachoeira.
Três caras de boné saíram de dentro da água. Um deles segurava um gato branco. Eles correram e se enfiaram na terceira caverna. Um homem de sunga, magrelo e barbado, veio correndo logo atrás, perseguindo-os e gritando: “Eles pegaram meu gato, eles pegaram meu gato” e entrou no túnel errado.
‘São os mesmos caras! Eles acabaram de passar por aqui...’ eu gritei assustado. Luana riu e você continuou apavorado.
Foi neste instante que eu percebi o padrão da coisa toda.
As coisas se repetiam naquele lugar. Tudo que passava pelo primeiro paredão de pedra ainda ia acontecer atrás do segundo paredão. No entanto, só era possível ver o futuro antes do passado.”
- Como é que é? – Pablo perguntou confuso.
- Entenda: Nós passamos pelo primeiro muro de pedra, e depois, já lá dentro daquele... daquele... lugar, sei lá... Vimos nós mesmos, antes de passar pelo segundo túnel, no mesmo contexto. Ou seja, a situação se repetiu, num lugar diferente, mas do mesmo jeito. Nós pudemos ver o nosso passado.
- Mas éramos nós, ou não éramos nós?
- É claro que não éramos nós, porra! Se a gente tava vendo os caras lá, de outro ponto de vista, como é que éramos nós?
- Éramos nós em outra dimensão, é isso?
- Depende... nós vimos os caras com o gato e o cara de sunga no futuro, e depois vimos a origem da perseguição... ou seja: o passado! Você acha que eram as mesmas pessoas, em uma dimensão diferente?
- Aconteceu tudo lá, naquela mata... o futuro e o passado... então não tinha como ser uma dimensão diferente... mas eram as mesmas pessoas, isso é certeza!
- Mas e quando a Luana entrou em trabalho de parto?
- Sim, verdade... foi diferente.
“Logo depois de eu entender o padrão da coisa, a Luana bravejava alguns palavrões e dizia que a coisa estava difícil até ali no Edifício Éden, as pessoas roubavam até os gatos dos outros e ninguém estava mais seguro em canto nenhum.
Foi quando ela começou a gritar desesperada e dizer que o bebê ia nascer. Eu já estava muito perturbado e além do enjôo e da tontura, estava começando a sentir uma enxaqueca horrível. Mas acabei me esquecendo de todo o surrealismo quando você a levou pra uma grama fofa e disse que eu teria que te ajudar a realizar o parto. Assumi que deveria manter-me são, aquela era uma tarefa importante e não era hora para surtar!
Eu acho que eu meio que apaguei, ou meu cérebro fez questão de esquecer o que aconteceu durante o parto e no que foi que eu ajudei exatamente... Só lembro que você tirou o bebê dela com muita facilidade e que a barriga diminuiu magicamente, como se ela nunca estivesse grávida.
Uma menininha que não parava de chorar... Cheguei a ficar encantado com a beleza daquilo tudo... é diferente ouvir falar sobre um parto e estar num parto... é bonito... até você mandar eu ficar segurando a placenta dela por que não tinha onde colocar.
A Luana colocou a menininha no colo e foi andando para a cachoeira que já não tinha mais nenhum banhista. Lembro que você disse algo sobre a água estar muito gelada, mas ela retrucou dizendo que aquilo nem era água.
Nesse exato momento em que ela ia entrando na água que não era água e você lavava as mãos, eu tive um insight: se eu estava certo sobre como funcionava o tempo naquele lugar, a cena do parto estava para se repetir do outro lado do paredão que ainda não havíamos passado.
Saí correndo para comprovar que os meus cálculos estavam certos e me meti pra dentro do terceiro portal do paredão oposto. Foi muito mais rápido passar por este túnel do que da outra vez, mas me surpreendi com o que encontrei do outro lado. Uma estrada pavimentada com um deserto de dunas por trás. Um taxi parado, com um taxista narigudo no banco do motorista. E você dormindo no banco de trás. Estávamos de volta àquela estrada, mas dessa vez o taxi estava virado para o outro lado, pronto para nos levar de volta.
Não entendi muito bem, estava muito calor e muito claro e eu estava ficando tonto... mas eu entrei no carro sem questionar, sentei do seu lado... acho que ainda tentei te acordar pra te perguntar como você tinha parado ali...”
- A última coisa que eu lembro... – respondeu Pablo - ...é de quando eu tava lavando as mãos naquela água... mas foi estranho pois não era água... era uma fumaça líquida ou água gasosa... e eu fui ficando com muito sono... só lembro que olhara pra tua amiga Luana dando banho na bebê... ela agradeceu... e eu não lembro mais...
- E a última coisa que eu lembro foi o taxista me perguntando: “Aprenderam alguma coisa?”... e aí eu dormi!
Permaneceram num silêncio falso por algum tempo, sempre envoltos pelos sons de pratos e talheres batendo e pessoas conversando na praça de alimentação do shopping.
- E aí? Aprendemos? – disse Pablo.
- Você falou naquela hora sobre dimensões paralelas... eu fiquei pensando nisso...
- Que nós fomos parar numa dimensão paralela? Acho melhor a teoria do taxista estuprador.
- Mas... você discorda de algum ponto da história que eu contei?
- Não, não... foi assim que tudo aconteceu mesmo...
- Então... às vezes quando olhamos uma coisa... um recorte de uma imagem, ou um relato de como ela aconteceu... só temos aquela versão da história, aquele ponto de vista sobre ela...
- Sim!
- Mas pressupõe-se que algo aconteceu de fato, que existe algo que é a verdade e que é diferente de qualquer maneira que alguém tente reproduzi-la, afinal a história contada é só um recorte daquilo...
- Concordo.
- Você consegue acreditar que vivemos tudo isso?
- Não sei, cara... não consigo entender muito bem...
- Mas você concorda que tudo que eu contei aconteceu?
- Acho que...
- Ou seja: neste caso a história contada é exatamente o que aconteceu... talvez seja porque ela só aconteceu depois que eu contei... talvez aquele mundo só exista agora depois que você me ouviu conta-lo e descreve-lo...
- Mas eu tenho a lembrança de ter vivido aquilo antes de você começar a descrever tudo...
- Então você afirma que viveu tudo aquilo?
- Ué... não sei...
- Eu só acho que nós criamos mundos paralelos quando tentamos contar algo para alguém... é como tentar contar um sonho para alguém... é impossível descrever os sentimentos que você tem em sonho, pois as lembranças que você tem quando acorda são regidas pelas possibilidades deste mundo... desta realidade que nos encontramos agora...
Pedro bateu com os palitinhos no prato fazendo um barulho fino e incômodo.
- ...E os sonhos são regidos por leis que são só deles, leis de dimensões paralelas específicas... O tempo funciona diferente para as pessoas e isso depende muito do que você está passando na sua vida... às vezes um gato é tudo que você tem de mais importante, e às vezes você só quer voltar pra casa e acabar logo com as confusões da sua cabeça... cada pessoa é uma dimensão paralela, entende?
- Você quer dizer que a gente sonhou tudo isso?
- Não...
- Que os ônibus são os transportes mais seguros e confiáveis?
- Talvez...
- Certo... que horas são?
- Eita, o shopping vai já fechar. – disse Pedro olhando para o celular que estava devidamente carregado e com a bateria cheia.
- Nossa... o tempo tá passando muito rápido ultimamente. Simbora daqui.











