pro teu eu que enlouquece,
pílulas. Zé, tem bastante delas. aquelas coloridas que são menores que minha esperança (baita microscópicas, não é?). tem pra dormir. tem pra ficar alegre. tem pra quando bater a tristeza nota 10. Zé, a depressão me começa ainda de manhã, antes mesmo de dormir. é um daqueles buracos bem grandes no meio da alma que tira toda a infinitude do viver. eu vivo na efemeridade agora, Zé. efêmero sorriso, pôr-do-sol, memória boa, olho aberto. efêmero despertar. olhar pra tu deve até doer. porque não existe mais prazer, Zé. prazer algum.
acontece de ter uns risinhos aqui e acolá e pra lá e pra cá, mas Zé, a danada bate na porta sempre que dá. ela espia com os olhos de quem tem fome sã. que arranca calafrio de vontade louca de me atirar do precipício. de me rasgar inteira e de quebrar os cacos que ainda me seguram. Zé, queria ser bonita que nem tu que é tão bonito que depressão nenhuma deve passar a mão.
Zé, eu me entreguei de peito aberto. você disse que eu tinha que me soltar e dançar conforme a música em toda e qualquer situação. “brinca de viver, abre o coração e salta da sua bolha”, tu dizia com um despertar dos deuses. era de lamber os beiços ver tu animado com a vida. eu me devorava total nessa mania tua de balançar os cachos enquanto me tirava do chão. Zé, eu me entreguei. de coração aberto. ela me agarrou. a depressão, Zé. com as garras pequenas de como quem não quer nada, mas me tirou tudo. no meio da correnteza que eu nem sentia, me perdi, Zé, nesse oceano sem nome. escuro. quando o sol abaixa pra dormir e fica aquele entardecer sonolento sem ânimo e molengo. eu estou presa nesse horário. não acho mais bonito. eu fico na penumbra e vejo a penumbra. Zé, cê vai dizer que na penumbra tem luz mínima o que pode significar esperança. mas, Zé, eu quero matar a esperança sufocada.
a moça dos remédios disse pra eu aguentar. ela parecia meu passado. tu te lembra da Bia, não é? aquela carrega meu amor até hoje e nem sabe, Zé. mas eu a empurrei pra longe como fiz com todo mundo. meu celular não apita e não tenho respeito por mim mesma. a gente fica impulsiva, Zé. parece coragem, mas é um disfarce só.
Zé, ela foi embora. tá em Portugal com o sotaque ainda de quem não mora nesse planeta. tu sabe que ela é a pessoa que eu coloco em papéis caso precisem ligar caso evaporo. tu sabe que eu carrego um remorso danado de ter estragado a vida dela inteira com minha presença estabanada. Zé, ela é amor puro, é irmã de outra vida que é ímã nessa vida. eu sou Sul, ela Norte. de uns dias pra cá, as duas tem sido Sul, e ela tá lá voando em outro canto e jogando fora os cacos meus que a atingiram. fez bem, não fez, Zé?
Zé, eu queria tu aqui fazendo morada no meu ombro. me escutando de madrugada, me beijando o nariz, errando a bochecha de cinco em cinco minutos, oferecendo a camisa pra eu entrar. Zé, eu quero tu com força sendo real na minha vida. não aguento o papel.
Zé, tão batendo na porta. eu abro sozinha, Zé.
cheiro no canto da bochecha, vem. me assiste não dormir de olhos fechados. espanta, Zé! espanta pra fora da nossa cama a danada, Zé. por favor. por amor.