você é você quando está na chuva, quando corre longe, quando soluça a noite, quando sorri sem fonte, quando acorda tarde, quando pega o ônibus, quando segura o espirro, quando roxeia os olhos, quando dança nu. você é Zé, é Maria, é Túlio, é Bruno e Júlia, é Gustavo, é Sarah, Joaquim nem se fala. você é todos os rostos que pararam e que olharam pra minha sombra e dali tiraram o que procuravam e levaram embora porcentagem finita do ser.
Zé, olha pra mim enquanto leio. olha pra mim enquanto toca a flauta, enquanto tateia as cordas, enquanto acende o cigarro. Zé, eu acordei hoje e não me vi. tinha vulto de filme, tinha resquício de luz. bem pouca. Zé, era bem bonito ser luz policromática contigo, mesmo tu não existindo. desculpa, Zé, cê é fruto da minha massa cinzenta quase frontal do meu cérebro.
eu tava em pé na cozinha, quando aconteceu. era uma pontada de faca sem gume. foi um desespero sem motivo. dava pra sentir o fluxo correndo nas veias azuis quase sem cor. medo. tu sabe o que é, né? cê disse que sente quando estou longe. Zé, você me conta cada mentira com pé e cabeça. esse medo era daqueles que quando passa arranca o oxigênio de cada célulazinha, que oxida cada molécula. eu me sentia na ponta dos dedos sob o precipício mais alto do céu. eu queria pular, mas tinha o medo que zombava e me empurrava enquanto eu me segurava mesmo com os dentes. porque eu queria pular. mas eu não queria morrer. eu queria morrer, sem pular.
teve o outro dia que teve mais choro. porque eu dei voz ao medo. Zé, acredita que ele ficou menor? ficou pequenininho. mas, Zé, ele não vai embora não. porque mesmo minha mãe dizendo que vai ficar tudo bem, eu tenho medo de quando ela souber que estava mentindo. que tá enganada no mais superlativo possível, Zé.
Zé, tem dias que a gente pensa que tá bem, né? tem dias que o sol tá azul, e não tem mais gilete afiada que arranha pulso, não tem mais o medo assobiando. só que aí, Zé, cê acorda e vê que tá bem lá mesmo escondido talvez atrás de um dos pulmões. com a lança pronta pra perfurar. ainda não senti a pontada de novo. estou esperando pela dor que vem mais forte só por estar esperando.
cada vez mais, Zé, tenho vontade de desistir. mas eu não sinto ela vindo. Zé, será que ela vem sem avisar? será que ela é uma daquelas tias cremosas de suor que tocam a campainha e leva toda a calmaria embora? ficam à tarde toda, cê já viu, Zé? você tem família, Zé? como que tu acorda todo dia?
Zé, escuta benqui, não me socorre. me leva.
Zé, ainda tá de tarde do meu lado. quero ver o teu.