Minha irmã amanheceu ouvindo Chico cantar “Samba de Orly”. Passei café dizendo o que lembro não sei porque. A canção foi registrada em nome de Chico Buarque, Vinícius de Moraes e Toquinho, mas o poetinha não compôs letra ou música. É que ao ouvir pela primeira vez, pés pro ar, whisky na mão, olhos no céu, ele achou que um verso carecia de outra força. Assim, “pela duração/dessa temporada” virou “pela omissão/um tanto forçada”. A censura cortou, um Chico de olhos baixos e coração nas mãos deu a notícia a Vinicius. Que aceitou só pra não adiar a gravação do disco. Mas exigiu que a parceria fosse mantida. Porque os meganhas não podiam ganhar tudo. Taí uma verdade. Vez em quando, com hoje, cantarolo a versão original e acho graça. Pisco pro Vinicius que aqui em casa mora entre Neruda e Wendy Guerra, pertinho do Galeano e com vista pro jardim de Isabel Allende. Aumento o volume da vitrolinha. Desejo que alguém sente na mesa da cozinha, abra um livro de poesia e leia baixinho enquanto outro alguém cozinha. Na minha casa e na tua. Que haja vinho. Tábua com pão feito hoje do lado de uma cumbuquinha com azeite, flor de sal e alecrim. Uma conversa sobre galáxias, tipos de beijo, os livros do Alejandro Zambra, aquela saudade com nome e endereço, o bebedor do museu que geme ao ser tocado. Tomara também que em determinado momento algo provoque gargalhadas. Pois é sabido que em tempos de medo coletivo, cada gargalhada é uma estrela acesa em um coração nocauteado. No mais, que a internet seja estável e que ninguém queira desligar a conversa. Porque “qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.” Então, camarada. Respeita a vida. Fica em casa. Afaga tua gente. “E se puder me manda uma notícia boa”.










