O desenho infantil e sua poética
- relaciona-se com o mundo através do corpo e com ele demonstra suas percepções, sensações e emoções;
- Nessa época a imitação é um importante mecanismo da aprendizagem. Assim como imita gestos (aprendendo movimentos) e sons (aprendendo os rudimentos da fala) a criança imita a ação do adulto de riscar o papel.
- Bebês podem imitar a ação dos adultos e riscar a partir dos 6 meses, mas é por volta dos dois anos que a criança começa a desenhar pelo prazer de deixar marcas.
- Nessa etapa, ao desenhar, a criança faz um traço, observa-o e segue produzindo outros traços na busca de ficar satisfeita.
- O preenchimento do suporte com inúmeros traços levou a psicóloga, pesquisadora e professora de creche Rhoda Kellogg, chamar este processo de relação mão-olho. Nesta fase, quanto mais oportunidades de desenhar forem dadas à criança, mais extensa será sua pesquisa gráfica para que desenvolva esse controle, faça descobertas e registros com sua maneira de desenhar.
- A doutora em psicologia e educação e formadora, Denise Nalini, defende que na Educação Infantil a criança deve desenhar todos os dias.
- A frequência do desenhar permite à criança memorizar sua forma de criar e, na medida em que vai ganhando controle motor, produz as mesmas formas de maneira mais limpa e controlada. Com a memorização as formas passam a fazer parte do repertório da criança e possibilitam inúmeras experiências por combinações, sobreposições, agrupamento ou repetição, surgindo um grafismo.
- Aos poucos, sobrepondo as marcas, as formas começam a aparecer e novas ocupações do papel (suporte) são descobertas. Algumas crianças ocupam todo o espaço, outras desenham mais próximo à borda. Surgem algumas formas irregulares, livres, e outras um pouco mais definidas, sugerindo quadrado, triângulo, círculo, cruz e o xis.
- No processo do grafismo infantil nasce a organização concêntrica. O desenho tem o centro marcado e apresenta certa simetria. Esta etapa, para Kellogg, é a chave visual que leva a criança ao trabalho figurativo. Nascem, então, os formatos de sóis.
- Neste caminhar, com a exploração do próprio desenho – desenhando, desenhando e desenhando gostoso! – as crianças fazem suas conquistas gráficas. É uma fase importante em que aprendem a desenhar a cada novo desenho que realizam (não com modelos prontos!). Não direcionar e deixar a pesquisa livre são estímulos para a criança não se tolher e nem se bloquear em seu fazer artístico.
- Os professores devem proporcionar oportunidades para as crianças experimentarem diferentes formas de desenhar. Elas precisam explorar a pressão com que marcam o suporte, diferentes planos e materiais para descobrir suas qualidades: liso e o áspero, grande e pequeno,seco e molhado,quente e frio, macio e duro, rígido e molhe, reto e curvo, fino e grosso, etc..Também explorar diversas possibilidades de riscar, marcar, modelar e pintar sobre superfícies variadas: azulejo, chão, madeira, papel, papelão, plástico, parede, tecido, areia, terra, lousa, etc.
- É uma prática comum do adulto perguntar para a criança o que ela desenhou. A criança pequena que não pensou numa narrativa durante a execução do desenho, acaba por criar um significado de momento para corresponder à expectativa do adulto. Desse modo, ao ser cobrada sobre uma explicação, ela passa a entender que somente formas figurativas às quais se pode atribuir um nome são compreendidas e valorizadas pelo adulto. Nesta fase do desenvolvimento a criança ainda não é capaz de executar o que está sendo solicitado e passa, antecipadamente, a buscar soluções esquemáticas e figurativas para a sua produção. Outra prática comum dos professores é escrever os significados dos desenhos na própria produção, interferindo na sua estética. Quando a criança faz uma narrativa sobre sua produção é mais respeittoso fazer anotações no verso do desenho.
Crianças a partir de 3 anos:
- Uma mudança grande ocorre a partir dos três anos. Surge a figura humana e o desenho como um todo passa a ser mais figurativo. Nessa fase a criança está vivenciando a fase do faz-de-conta e ampliando o uso das palavras e das narrativas. Assim, tudo passa a ter nome e, com o desenvolvimento da linguagem, também significados. É uma delicia ouvir as descrições e narrativas criativas dos pequenos nesta fase!
- Os agrupamentos e sóis concêntricos da fase anterior começam a dar elementos para a figuração. Os raios do sol se transformam em pernas e braços, que saem diretamente da cabeça. A criança, sem abandonar de todo as garatujas, começa a elaborar novos símbolos como uma espécie de vocabulário visual, construído a partir da extensa pesquisa gráfica. É como se buscasse resolver desafios: como meu corpo pode fazer essa marca? Que desenho bacana o do meu colega! Vou tentar copiar seus gestos!
- Os estudos de Kellog indicam que uma mancha surge para ser o tronco que sustenta a cabeça, e raios fazem os membros. Depois é a vez dos animais. A criança joga os membros para baixo e cria seus bichinhos. Da mesma maneira surgem árvores, flores e vegetais. Combinando as formas já aprendidas surgem as casas e meios de transporte. Nesta fase, ela não está preocupada em fazer desenhos parecidos com os seres e objetos do mundo real.