“A poesia serve para acabar com a atrocidade, é uma bala na cabeça do horror, é uma pedra atirada contra este cenário de mau gosto, este mundo que acreditamos ser a realidade”.
Flores, Afonso Cruz

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“A poesia serve para acabar com a atrocidade, é uma bala na cabeça do horror, é uma pedra atirada contra este cenário de mau gosto, este mundo que acreditamos ser a realidade”.
Flores, Afonso Cruz
"(...)
- Tem de ser como as flores, pisamo-las e elas voltam a erguer-se.
- Se forem demasiado pisadas, não. Há limites para a dor.
- Mas, ainda assim, voltariam a nascer. Podemos pisar muita coisa, mas não pisamos as raízes. A regra parece-me ser simples de formular: as flores erguem-se depois de terem sido pisadas. Sejam exactamente as mesmas ou uma nova versão.
- E se não se erguerem?
- Se não se erguerem, transformar-se-ão num caminho.
- Porcos.
- O quê?
- Porcos. Para limpar os terrenos, é o melhor. Comem as raízes e não volta a crescer nada.
- Nesse caso, fazem caminhos."
“Sabe porque não somos felizes? — perguntou ele.
— Desespero, solidão, medo?
— Não. Por causa da realidade.”
Flores, Afonso Cruz
“para onde foram esses meses de primavera que faziam a nossa vida florir? Levanto o coração, como se faz a um tapete, para ver se não há nada debaixo dele."
trecho do livro Flores de Afonso Cruz
“Talvez haja uma corda pendurada em todos os pescoços, talvez caminhemos sobre vidros partidos, talvez a nossa alma seja uma lâmpada fundida, talvez o futuro seja uma flor deitada num caixão, talvez as nossas ambições sejam programas de televisão coloridos, talvez nos doam as esperanças, talvez nos deitemos todas as noites como o entrecosto nas montras do talho, talvez nos falte a saliva nas palavras, talvez nos caiam dentes podres para dentro da voz, talvez nos rasguem os ossos como papel, talvez a chuva só exista dentro do nosso corpo, talvez… E, porém, iluminamos o mundo. Existe um caos, uma escuridão, mas o mundo, o mundo só existe quando apontamos uma chama na sua direcção e o incendiamos.”
Afonso Cruz in Flores
#Resenhasmaeliteratura A minha dica de hoje é o livro Vamos comprar um poeta, de Afonso Cruz, da Editora Dublinense. Este é o terceiro livro que leio do @Afonso_Cruz e o primeiro pela @dublinense. Gosto muito da escrita do Afonso e mais uma vez confirmo seu talento. Um livro poético, interessante e muito diferente. Uma leitura rápida, fluida e muito especial. Singela e bonita, daquelas que te deixa feliz por muito tempo após o seu final. O livro é bem curtinho, quase uma fábula. Uma distopia, que chama a atenção para o consumismo, para tudo que é patrocinado. Num tempo que o materialismo têm um peso considerável, é interessante a leitura que te faz pensar sobre valores, sobre o que vale a pena na vida. Num mundo distópico, uma família vai às compras e traz para casa um poeta, que passa a morar embaixo da escada. Numa linguagem simbólica e sutil, o poeta desenha frases, que formam paisagens para a imaginação da menina, que é a sua "dona". Acompanhamos também a mãe desta família, cansada e sobrecarregada e o pai, às voltas com as contas a pagar. O poeta custa pouco e é bem calado, mas quando fala, tem muito a dizer, cala fundo na alma e faz refletir. Nas reviravoltas da vida, afetos não podem ser abandonados, muito menos esquecidos. Achei a capa linda! A diagramação, da @LuisaZardo, é muito bonita e delicada, com bom espaçamento e letras em tamanho confortável para a leitura. Um livro muito gostoso de ler. Encontrei apenas um defeito nele, a leitura acabou muito rápida...uma jóia rara este livro especial. Leia! Vale muito a pena. #dublinense #maeliteratura #afonsocruz (em São Paulo, Brazil) https://www.instagram.com/p/B90Fg56pEDU/?igshid=19af3suc0s6zf
"(...) A realidade pode ser muito dura, mas os sonhos dão boas almofadas. O mundo pode ser de pedra, mas os sonhos são um colchão por cima dele e têm a teimosia e a ousadia de não desistir. Por mais que os afastemos, enxotemos como fazemos às moscas incómodas, os sonhos voltam sempre a assombrar-nos, a pousar-nos na cabeça, a picar-nos. Não é a dureza o mundo que vence, são estes insectos frágeis, sem ossos, sem corpo, a que chamamos sonhos, que acabam por fazer buracos no mundo, por o penetrar e vencer. O da Herdade Nova era alto, era bonito, tinha os ombros largos e as coxas de um atleta de competição, as mãos fortes, os dedos compridos, o peito cheio. E, sobretudo, sabia colocar a voz. Um tom abaixo.
A minha única arma era a teimosia de um sonho."
Afonso Cruz escreve muito bem, mas pensa ainda melhor. Comparo-o muito com Saramago porque consegue criar narrativas aparentemente simples, por vezes meio infantis até, para abordar questões mais filosóficas... Uma escrita limpa e sem artifícios desnecessários 🙂💕