África Brasil, Jorge Ben - CRÍTICA
“África Brasil” é o nome perfeito para definir o que é o álbum de Jorge Ben Jor. O instrumental de todas as músicas do álbum nos remete, ao mesmo tempo, uma brasilidade e uma africanidade, pois Ben Jor utilizou de instrumentos que foram desenvolvidos pela matriz africana brasileira para compor a musicalidade de seu trabalho. Além disso, a guitarra elétrica presente em algumas faixas do álbum remete à música negra estadunidense que, acredito eu, foi utilizada pelo cantor com a intenção de um reconhecimento internacional, que de fato houve. Apesar de belas composições as quais decorrerei em breve, o ponto alto do álbum é essa deliciosa mistura de gêneros que resultou em ritmos dançantes, envolventes e extremamente afro-brasileiros.
É importante lembrar que na época de lançamento do álbum, anos 70, o Brasil vivia a triste e censurável época da Ditadura Militar. Sendo assim, não é esperado que haja músicas com explícitas críticas sociais, ao contrário do álbum Sobrevivendo no Inferno, dos Racionais MC’s, em que farei a crítica no próximo post. Ao invés disso, Jorge Ben Jor mostra sua identidade negra através de muitas referências à cultura e história africana-brasileira. Em “África Brasil (Zumbi)”, o cantor faz uma grande homenagem ao Zumbi dos Palmares, o líder quilombola brasileiro. Em “Cavaleiro Do Cavalo Imaculado”, chama São Jorge de “príncipe de toda a África”. Em “Xica da Silva”, fala sobre a histórica Chica da Silva, nascida da união de uma escrava com um português, que, não alforriada pelo pai, foi vendida como escrava para o médico João Fernandes que, ao se apaixonarem, alforriou Chica da Silva, fazendo ela viver como uma senhora rica e importante daqueles tempos. Essa música pode ser vista, também, como uma forma de falar sobre mulheres negras ricas que, mesmo tendo dinheiro, ainda passam pelo racismo. Também identifiquei uma crítica na música “O Plebeu”, em que conta a história de um casal que seria feliz se ele, o homem deste casal, não fosse pobre. Numa suave e romântica melodia, é mostrado que a desigualdade social interfere nas relações pessoais.
Em seu álbum é perceptível o gosto que Jorge Ben Jor possui pelo futebol, esporte extremamente afro-brasileiro. Em “Camisa 10 Da Gávea” homenageia Zico, memorável jogador brasileiro do Flamengo. Em “Ponta de Lança Africano” é contada a história de um jogador de futebol africano chamado Umbabarauma. E na música “Meus Filhos, Meu Tesouro”, entrando no foco deste blog, o menino Arthur Miró quer ser jogador de futebol. Se no atual Brasil, mesmo com cotas e afins, as oportunidades de futuro para um garoto negro e pobre já são escassas, nos anos 70 a situação era mais agravante. A visão de senso comum era que esse garoto só possuiria dois destinos: ou se tornaria jogar de futebol, ou bandido. Sendo assim, era muito comum (e ainda é) que o sonho de garotos negros de periferia fosse esse, inclusive era o sonho de Jorge Ben Jor em sua infância.
A música que mais chamou minha atenção foi “A História de Jorge”, me trazendo a sensação de uma criança esperançosa, onde qualquer sonho pode se tornar realidade. Mas minha recomendação é de todo o álbum África Brasil, que apresenta uma afro-brasilidade alegre, colorida, cultural e dançante.










