Cidade de Deus - CRÍTICA
Tão real que é como se estivéssemos assistindo a um documentário. Essa foi a sensação que tive ao assistir Cidade de Deus (2002). Com impecável estrutura narrativa, roteiro, fotografia, direção, movimentos de câmera e montagem da obra, Fernando Meirelles mostra a realidade de pessoas que vivem em regiões periféricas como a Cidade de Deus com chocantes cenas de violência e criminalidade. Através da narração de Buscapé, os personagens são apresentados numa quebra cronológica extremamente bem feita que torna a história envolvente e com diferentes pontos de vista. Não há vilão nem mocinho, apenas a realidade e as consequências da desigualdade social.
A representação da convivência das crianças, em maioria negras, com a violência dos bairros pobres é alarmante. Vemos jovens roubando, traficando, portando armas, fugindo de tiros, protegendo seus irmãos mais velhos criminosos, presenciando a morte de seus pais, sendo violentados e até mesmo mortos injustamente pela polícia. Basicamente é o retrato de crianças que não tiveram o direito de viver uma infância.
O personagem Dadinho é o perfeito reflexo da criança que, assistindo aos mais velhos cometendo crimes, deseja seguir o mesmo passo. Ainda criança, o garoto ia aos locais que seriam roubados junto com o Trio Ternura, grupo que costumava fazer pequenos assaltos na Cidade de Deus nos anos 60, porém era constantemente humilhado por eles. Assim, em uma revolta, ele engana o trio em um assalto a um motel fingindo que a polícia estava chegando, para que os três garotos fugissem, e, então, entra no local e mata todos ali presentes. Com isso, a trajetória criminosa de Dadinho se inicia e, junto a ela, o desejo de se tornar o mais temido comandante de tráfico da Cidade de Deus, o que, através de matanças e tomadas de bocas de fumo, consegue anos depois, quando já é conhecido pelo nome Zé Pequeno.
Em um ambiente como a Cidade de Deus, o traficante torna-se sinônimo de sucesso, porque é ele o mais respeitado, endinheirado e poderoso do local, além de ser a pessoa que, de certa forma, protege a comunidade. As crianças veem no tráfico uma saída para acabar com a vida de humilhação e pobreza que possuem. É isso que acontece com o Caixa Baixa, grupo de crianças que sonham em ser como Zé Pequeno, se espelhando completamente em sua trajetória e almejando chegar onde ele chegou. Inclusive são elas que, ao final do filme, matam Zé Pequeno, utlizando as armas que o próprio deu a elas, com o desejo de tomar seu lugar.
Também são os garotos do Caixa Baixa que vemos assaltando comércios da própria comunidade, mais por diversão e treino do que pela necessidade do dinheiro, mostrando mais uma vez que a criminalidade é vista por essas crianças de uma maneira glamorosa. Por causa desses roubos, Zé Pequeno decide puni-los com um tiro no pé ou na mão. Essa cena é agoniante porque são crianças muito novas passando por uma punição desumana até para um adulto e vivendo uma humilhação, violência e medo surreais, mas que são extremamente reais em nosso país. Além disso, nessa mesma cena, Filé, que deve ter no máximo 12 anos e é convidado para andar com a turma de Zé Pequeno, é obrigado, por Pequeno, a dar um tiro em um dos garotos do Caixa Baixa. É perceptível em seu olhar que ele não gostaria de fazer isso, evidenciando a inocência que há nessas crianças e a falta de oportunidade, porque se Filé enxergasse outro caminho, ele não estaria ali. Mesmo assim, Filé faz o que Pequeno exige por medo e vontade de fazer parte daquele grupo tão admirado por todos os jovens.
No momento do filme em que é explicado como funciona o tráfico, mostrando que se trata de um verdadeiro negócio, em que há fornecedor, linha de montagem e até plano de carreira, as crianças são apresentadas fazendo parte dessa estrutura, “trabalhando” nos menores cargos para que sejam promovidas ao longo do tempo. Mais uma vez a infância delas é deixada de lado.
Apesar de esta crítica ter focado nas crianças, o filme é bem mais rico que isso. Há diversas questões colocadas em pauta ao longo da narrativa e, ao fim, há, por um lado, a sensação de satisfação devido ao fato da obra ser excepcional, e, por outro lado, o sentimento de que nossa sociedade precisa de reparo urgentemente.
Por fim, deixo a frase do filme, dita por uma criança, que mais me marcou e que resume as questões aqui discutidas: “Que criança? Eu fumo, eu cheiro, já matei e já roubei. Sou sujeito homem!”.













