A I Y E - Leticia Quintilhano
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A I Y E - Leticia Quintilhano
Você sabia que, no séc. XVI, os primeiros negros que chegavam na Bahia recebiam o nome de Negros da Guiné?
“Negro da Guiné e Gentio da Guiné foram as primeiras designações utilizadas para marcar a origem dos escravos africanos chegados à Bahia no sec. XVI.Mais do que um registro de procedência, estas expressões queriam significar a condição mesma de escravo na linguagem corrente da época. Seu uso se generalizara em Portugal desde o final do século anterior, quando o tráfico de escravos começou a se transformar na mais potente empresa comercial daquele país. A multiplicidade cultural da África passava a ser ignorada pelos portugueses na razão direta em que o caráter de mercadoria se incorporava ao conjunto de sua população.”
FONTE:
OLIVEIRA, Maria Inês Côrtes de. “Quem eram os Negros da Guiné: a origem dos africanos na Bahia”. In: Afro-Ásia, n. 19/20, 1997.
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Africa Brasil, an album by Jorge Ben Jor on Spotify
Crítica: África Brasil, Jorge Ben (1976)
O álbum de Jorge Ben é um clássico e contém músicas que por mais que não se conheça tanto da obra do artista, já se foi ouvida pelo menos uma vez pela grande maioria dos brasileiros. Como é o caso de “Ponta de Lança Africano” e “Taj Mahal”.
Com muito ritmo, as músicas são muito contagiantes e tem a presença de instrumentos e de procedimentos rítmicos usualmente presentes nas músicas de matriz africana desenvolvidas no Brasil. Com isso, podemos identificar que a proposta de Jorge Ben foi de realmente fazer uma conexão África-Brasil como o nome do álbum já diz.O resultado disso é um “afro-samba” que é dificil de não se deixar levar. Os tambores, a guitarra elétrica e a cuíca são fortes e contribuem muito para a construção de todo esse cenário.
Jorge Ben Jor tem ascendência africana por parte da mãe: Etíope. O artista já divulgou isso diversas vezes, e no álbum “África Brasil”, Jorge reverencia e valoriza suas heranças africanas louvando modelos idealizados do que seriam os africanos, como a construção que faz de Zumbi como “Senhor das Guerras e Senhor das Demandas” e “Umbabarauma”: um jogador de futebol africano caracterizado como “Homem-Gol” e “Decidido”.
A narrativa que permeia suas canções de maneira mais forte é a da sua identidade negra. A ancestralidade africana, essa ideia de “Mãe África”, é evocada constantemente pelo artista e ressoa de modo mais forte em suas composições.
Em “Xica da Silva” por exemplo, Jorge faz alusão à Chica da Silva, personagem histórica da região de Diamantina: Uma escrava, posteriormente alforriada e que alcançou uma posição de destaque na sociedade. A letra à homenageia assim:
“...Muito rica e invejada // Temida e odiada
Pois com as suas perucas // Cada uma de uma cor
Jóias, roupas exóticas // Das Índias, Lisboa e Paris
A negra era obrigada a ser recebida
Como uma grande senhora da côrte
Do Reis Luís...”
“África Brasil” também conta com a presença de algo culturalmente muito presente na vida dos brasileiros: o futebol! Em “Ponta de Lança Africano” com Umbabarauma e em “Camisa 10 da Gávea” em que Jorge faz homenagem à Zico, ídolo do Flamengo, apelidado de “Galinho de Quintino”:
“...È falta na entrada da área // Adivinha quem vai bater
É o camisa 10 da Gávea (2x)
O galinho de Quintino chegou ô ô ô
Com garra fibra e amor ô ô ô…”
O álbum é realmente muito bom e rico de referências e conta ainda com um mix da musicalidade brasileira com a africana. Vale muito a pena conhecer esse premiado trabalho de um dos maiores nomes da música brasileira.
Deixo aqui também a minha recomendação pessoal e a minha música preferida do álbum (fugindo um pouco do “mesmimo”): “Cavaleiro do Cavalo Imaculado” - por seu ritmo, percussão e pela alusão à um ligeiramente africanizado São Jorge, caracterizado como “Leão do Império” e “Príncipe de toda África”.
Crítica “África Brasil” Jorge Ben Jor
O disco “África Brasil” em seu todo é muito animado e quase todas as músicas possuem um “gingado” de música africana, com instrumentos diferentes e até dialetos da cultura africana também. Algumas falam muito da cultura brasileira, sobre jogar futebol e gírias de alguns estados do nordeste. Sinceramente eu não gosto muito do gênero musical de Jorge Ben Jor, porém a maioria das músicas deste disco me mostraram que não preciso generalizar algo que eu não gosto, mas que pode sim ter algumas exceções em certos gostos que temos. Pode parecer muito estereótipo, porém quando ouvi o álbum eu me senti ora “turistando” pelo Rio de Janeiro, ora “turistando” pela Bahia, embora eu nunca tenha ido para o Rio, fiquei com vontade de conhecer e me apropriar de algumas culturas que estão presentes lá. Já estive na Bahia e é gostoso ter uma nostalgia lembrando de lugares e praias locais ouvindo as músicas.
As músicas em geral não têm muita ligação com o recorte “infância”, mas consegui relacionar a música “Meus filhos, meu tesouro” um pouco com este tema. A música toda é como se fosse um diálogo de Jorge Ben com três crianças que ele diz ser filhos dele, Arthur Miró, Anabela Gorda e Jesus Correia. Ele pergunta às crianças o que elas querem ser quando crescerem, e a resposta é direta, porém o que os meninos respondem são coisas grandes e importantes como jogador de futebol ou tesoureiro-presidente, e a resposta da menina é algo que rebaixa a mulher, pois ela diz que quer ser dona de casa atuante ou mulher de milionário. Nada contra as donas de casa, mas trabalhar para sustentar a casa com um homem milionário que te sustenta? Isso é algo que não deveria estar em uma música como reposta de uma garota pequena do que ela quer ser quando crescer! As respostas dos meninos fazem eles se auto sustentarem, enquanto a menina tem que cuidar da casa enquanto é sustentada pelo marido rico.
Se o tema da música é infância deveria ter pelo menos um empoderamento da mulher também desde o começo da criação das crianças. O contexto do lançamento do disco também não ajuda muito, plenos anos 70, onde a mulher ainda era oprimida pela sociedade machista e não tinha o empoderamento que temos hoje em dia, tudo estava em processo. O ritmo da música é bem animado e com muitos instrumentos diferentes, porém a letra da música não me agradou muito bem. Em minha visão foi a que mais se encaixou no recorte, por serem crianças sonhadoras com o futuro, mas também fica uma boa lição de como as coisas mudaram dos anos 70 para hoje em relação ao empoderamento feminino e em como as mães de hoje em dia estão começando a educar suas filhas, e principalmente filhos, nesta questão do machismo presente na sociedade.