Catalina cruzou as pernas com elegância meticulosa, o salto fino da sandália oscilando levemente no ar enquanto aguardava o início da entrevista. A maquiagem impecável — traços delineados com a precisão de quem aprendeu cedo a nunca deixar margem para dúvidas — escondia com maestria qualquer indício de cansaço ou impaciência. Só quem conhecia bem, ou quem fosse estúpido o bastante para tentar cruzar uma das muitas fronteiras invisíveis que ela erguia ao redor de si, seria capaz de perceber o sutil apertar de dedos sobre o braço da poltrona. O jornalista à sua frente sorriu, com aquele tipo de expressão que os homens costumavam usar quando pensavam ter vantagem — ou uma pergunta que acreditavam ser impossível de evitar. Catalina apenas inclinou a cabeça, como quem concede o benefício da dúvida. Que venha, pensou.
" Señorita de Castilla… posso chamá-la assim? Obrigado por me conceder essa entrevista. " Ela ergueu uma sobrancelha, o canto da boca curvando-se numa ironia polida. ❛ O adequado seria alteza, ou princesa. ❜ O homem riu, mas o som morreu rápido, esmagado pelo peso da postura dela, tão sólida quanto as colunas dos palácios que conhecia melhor do que os próprios quartos onde dormia. E então, como previsto, ele avançou. As primeiras perguntas foram básicas. Sobre as primeiras nomeações que realizaria quando se tornasse rainha, sua aceitação no trono, a importância da família para a estabilidade do reino. O teatro habitual.
Catalina respondia com frases medidas, pausas estratégicas que soavam como concessões, não obrigações. Deixava escapar uma ou outra anedota — um detalhe ensaiado para parecer espontâneo. Aprendera que eles sempre gostam disso, e usava como arma. Mas então ele foi mais ousado, com uma típica ansiedade de quem queria estampar manchetes. " Muitos comentam sobre um possível acordo pré-nupcial… dizem que a alteza teria redigido o próprio, bastante rigoroso, antes mesmo de aceitar qualquer proposta de casamento. Procede? "
Catalina não se moveu de imediato. Nem sequer piscou. O silêncio que se instaurou entre eles foi milimetricamente calculado. Ela apoiou o cotovelo na lateral da poltrona, os dedos descansando suavemente sob o queixo, e finalmente respondeu: ❛ Diga-me… ❜ Começou, a voz arrastada, com aquele sotaque castelhano que suavizava as palavras, mas não o conteúdo, ❛… o que é mais interessante: o fato de eu ter redigido um acordo… ou o fato de vocês acharem que eu precisaria de um? ❜
O jornalista hesitou. Um segundo apenas. Catalina aproveitou a brecha, como sempre fazia. ❛ Meus advogados trabalham para mim, não o contrário. ❜ O sorriso, agora abertamente afiado, não escondia a satisfação em desmontar o jogo alheio com tão pouco esforço. ❛ E, claro… ❜ Inclinou-se um pouco mais para a frente, como quem confessa algo íntimo, ainda que a expressão não suavizasse, ❛… quando eu for me casar, terá um acordo. Ou pensa que eu entregaria a coroa de consorte para qualquer um, sem garantias? Eu amo Castilla. ❜
O jornalista tentou se recompor, mudando de assunto com pressa, como quem percebe tarde demais que a partida nunca esteve equilibrada. " Por isso que alguns a consideram controladora? " Catalina inclinou a cabeça, os olhos estreitando-se em diversão. Não era exatamente uma novidade, mas ela estava se divertindo com a ousadia. ❛ Não confunda organização com controle. Apenas gosto de saber onde piso… e com quem. ❜ O sorriso dele agora é tenso, como quem percebe tarde demais que sentou à mesa com um jogador melhor.
" As pessoas comentaram bastante sobre sua interação com o príncipe Sarp. E seu pai já demonstrou agrado, assim como o Magisterium. É uma possibilidade? " Catalina riu — não um riso aberto, mas aquele meio suspiro entediado, como quem já ouviu a mesma bobagem vezes demais para se importar. É claro que seu pai já havia demonstrado apoio, como o esperado. Somente assim ela deixaria o caminho livre para Alejandro, sem uma guerra civil. ❛ Não acredito que ainda estão nisso. ❜ Levantou uma das mãos, como quem espanta um inseto particularmente insistente. ❛ Próxima pergunta. ❜
O homem pigarreou, buscando um caminho menos escorregadio. Catalina apenas observava, imóvel, tão confortável na tensão que ela mesma criava quanto nas roupas de alta-costura que vestia. Sabia exatamente o que estavam fazendo ali: queriam um deslize, um lampejo de vulnerabilidade, um olhar incauto. Não teriam. Com o tempo, Catalina aprendera a lidar com os boatos do mesmo modo que lidava com os conselheiros do pai: não negava, não confirmava. Deixava-os crescer, transformar-se, implodirem por si próprios sob o peso do exagero. No fim, quem sobrevivia era sempre ela.
Quando a entrevista terminou, levantou-se com a mesma elegância com que se sentara, ajustou os brincos longos e, antes de sair, inclinou-se levemente para o jornalista, apenas o bastante para que ele soubesse que aquela era uma escolha, não uma concessão. ❛ Espero que tenha conseguido tudo o que queria… ❜ E, sem esperar resposta, virou-se e partiu. O som dos saltos marcando o compasso exato de quem sempre dita o ritmo do próprio jogo.