"You had me wishin' we were somethin' but left me here with a whole lot of nothing now."
Eu já tava naquela bad fazia umas horas. Tempo suficiente pra ficar irritado e mandar tudo pra puta que pariu. Se a Alícia tinha sido vadia o suficiente pra se esquecer de mim em tão pouco tempo e se jogar nos braços do primeiro playboyzinho que passava na rua, eu não ia ficar aqui com essa cara de choro do caralho curtindo uma fossa. Peguei um maço de cigarros na gaveta que eu nem lembrava mais que tava ali e sai. Fumar era um hábito que eu tinha largado pela Alícia. Tudo pela Alícia. Que otário.
Meses atrás, recebi a notícia de minha mãe que íamos nos mudar. “É só por um tempo, querido. Vamos voltar, mas, agora, sua família precisa de você”. Eu tinha a porra de uma vida aqui, uma vida que tinha demorado muito tempo pra construir, mas ninguém parecia entender isso ou se entendiam não se importavam. Então, eu desapareci. Por seis meses. Deixando apenas uma mensagenzinha pra Alícia: “Estou com uns problemas sérios que nem eu sei o que são. Vou pra fazenda. Explico quando voltar. Desculpe. Vine.”.
Eu lembrava a fazenda como um lugar que gostava de ir. Visitar o vovô e a vovó. Devia ter uns doze anos quando isso acontecia. Agora, eu tinha dezessete e preocupações demais pra ficar preso em um lugarzinho fora do mapa. Quando chegamos, tava todo mundo lá já. Minhas tias e tios, primos e um fantasma de quem minha avó costumava ser. A velha estava pálida e magra como eu nunca tinha visto. Tinha desenvolvido câncer. De mama.
Seis meses depois de tanto se esgotar, ela morreu. Deixou todo mundo louco. Meu avô ficou depressivo, vendeu a fazenda e tudo mais que lembrava a velha. Se mudou pra longe, não queria ver os filhos. Minhas tias choraram dias a fio e minha mãe, ah! A minha mãe. Ela era uma mulher maravilhosa, é ainda. Só que as coisas andavam difíceis. Mesmo depois de voltar pra casa onde nada podia piorar seu estado, eu ouvia-a andando pela casa a noite, chorando no banho. Trabalhava o triplo de tempo que costumava.
Têm coisas que vem pra foder com a sua vida. E ultimamente, já tava achando que todas elas tinham resolvido acontecer de uma vez. Como se não bastasse minha mãe estar pirando, ainda tinha a minha garota. Alícia chorou a semana toda quando voltei. Não saía de perto, mas tava sempre longe. Demorava pra responder, não conversava, não sorria. Não era a guria que eu tinha deixado há seis meses.
Fechei a mão em punho dentro do bolso quando lembrei o motivo disso tudo. Lucas.
O cigarro não durou nem metade do caminho até meu bar favorito. Andei mais rápido baixando a cabeça pra madrugada fria. Eu não era Vinicius que tava todo fodido. Pelo menos, não hoje. Amanhã, talvez.
— Sabia que ia encontrar você aqui — Ouvi uma voz atrás de mim. Nem precisei me virar pra saber que ela estava sorrindo daquele jeito que eu ficava louco.
— Alícia — Acenei levemente e mantive meus olhos em meu copo. Bebi mais uns goles enquanto ela se sentava ao meu lado. Era foda o que ela causava em mim. Mesmo puto pra cacete, ela ainda conseguia me fazer ficar de boa e querer agarrar ela toda vez que a via. Porra, Alícia.
— Vine…
— É Vinicius pra você, amor.
— Não, Vine. Não faz isso comigo, por favor! Não me afasta — Pendurou em meu ombro com a voz chorosa.
Não tinha nem olhado pra ela ainda, mas já tava me sentindo desconfortável pra caralho e sabia que se ela falasse mais meio segundo que fosse eu voltava atrás na minha decisão. Não podia. Soltei-a do meu pescoço, fiquei em pé e coloquei umas notas em cima do balcão. Peguei meu maço de cigarros recém-comprados e fui embora.
Tava sonhando alto achando que ela ia desistir e ficar lá no bar quando eu fosse embora. Ouvi o salto alto dela batendo no asfalto me seguindo, a respiração dela falhando. Não chora, Alícia, não chora, caralho. Não por mim. Droga. Continuei andando sem olhar pra trás. Ela parou.
— Então é isso? Tu vai embora sem nem me ouvir? Tu vai sumir de novo da minha vida sem me dar a chance de explicar ou se explicar?
Parei também. Virei de frente pra Alícia e encostei-me no pilar de luz ao meu lado. Acendi um cigarro e, pela primeira vez na noite, tomei coragem pra encará-la nos olhos.
— Tu pode começar quando quiser.
Eu queria ouvir. Queria saber dos motivos dela pra me foder tão bonito e, no final, queria arrumar uma desculpa pra perdoá-la. Pra ter ela de volta. Porque eu não aguentava ficar longe, eu não suportava ver que ela tinha os olhos cheios de água e saber que eu era o filho da puta que tinha feito aquilo. Porque mesmo com a porra do coração todo quebrado, eu ainda era o Vine que ela tinha conhecido. Ainda era o Vine todo fodido.
— Vine me desculpa! Por favor. Por favor, Vine. Por favor. Porque quando você foi embora, eu só conseguia pensar que você tinha me deixado, que tu não tava mais feliz comigo, que tu nunca tinha sido feliz comigo. Porque tu sabe que eu sei que nunca fui boa o suficiente pra tu. Eu sabia que um dia tu ia cansar de mim e das minhas frescuras, a gente sempre brigava por coisa boba e de repente tu foi embora... E eu fiquei aqui sem saber o que fazer, sem ter o que fazer, porque eu nem tinha vontade de nada. Então o Lucas apareceu, eu nem sei de onde, ele tava de férias por aqui. Tu tem que entender que eu achei que fosse coisa divina ele ter entrado na minha vida quando tudo tava tão bagunçado. Já fazia uns três meses que tu tinha sumido sem dar sinal de vida. E então eu me deixei levar porque eu precisava. Eu achava que precisava. Mas daí não adiantou. E não adiantou porque tudo que era teu tava aqui dentro ainda, me machucando e ainda tá. Não tem Lucas, não tem ninguém, só tem você. Só fui entender isso depois de todas as burradas. É só você, Vine. Não me afasta, não me deixa.
Ela tremia e parecia não respirar. Tuas lágrimas caíam cada vez mais rápidas. Quando ela terminou de falar deu um passo pra frente, eu podia sentir o calor que emanava do corpo dela chegar até mim na madrugada fria. Queria pegar ela pelo pescoço e matar toda a saudade que sentia. Puta que pariu, Alícia. Como eu te amo. Traguei uma vez. Soltei a fumaça pela boca na direção dela.
— Não me afasta — Repetiu chegando mais perto, o dedo gelado encostando-se à minha barba.
— Tu já fez isso por mim, Alícia. Eu nem te conheço mais.
— Tu conhece sim, sou eu, tua Alícia — Sussurrou, o indicador ainda passeando pelo meu rosto. Coloquei minha mão sobre a dela, segurando-a. Sorri cansado.
— Tu até pode ser a minha Alícia, mas eu não sou mais o teu Vine — Baixei a mão dela do meu rosto. Joguei o cigarro no chão e amassei com a ponta do sapato.
Ela tava paralisada na minha frente. Parecia que a gente tava ali, adiando o adeus, tinha umas três horas. Suspirei. Olhei pra frente sobre o ombro dela. Ia voltar pro bar, aquela conversa merecia um pouco de álcool. Talvez muito.
— Agora, faz um favor pra tu mesma e vai pra casa. Tchau, Alícia.