Nasci às oito da noite, mas prefiro as oito da manhã. Sou diurna, apesar de ter sido combinada com a escuridão. Prova de que inclino-me ao que me contraria.
Julho deixa álgido o Nordeste — é tempo de inverno. Sempre chove no meu aniversário. Sobre isso, um homem bonito me diz que é bom: "é bênção". Não sei se concordo, mas é verdade que posso apreciar o frio gelado que faz — apesar de também desejar profundamente algum sol, de sentir falta de um calor. Contraditória, tenho em mim o contraste de matrizes opostas: o azul e o vermelho, o céu claro e a tempestade.
Meia-noite agora. Para acender-me dentro da baixa temperatura, ilumino uma vela antiga e queimo um fumo ruim. Estou bem assim. Esse pequeno instante me faz feliz, a despeito de todo o resto.
Hoje fico mais velha (e você, leitor, me deve aqui um feliz-aniversário sussurradinho do lado daí, pois gosto desse dia e gosto de ser felicitada). Pouco mais madura — pouquíssimo, acredite. Minha vida é um piscar dos olhos ligeiros do universo, um suspiro enevoado da boca do planeta terra. Quase nada; sou poeira estacionada no relógio cósmico (logo serei varrida). De todo modo, o fato é que são todos meus os dias que tive e que eu os amo por me tornarem real; meu tempo, apesar de ínfimo, é o que tenho.
As minhas horas neste mundo passaram de tal modo que fazem-me perceber a mim mesma como uma anciã precoce. Ah, meu deus, estou há tanto tempo por aqui. Às vezes cansa, como cansa, como dói. Quão incômodo pode ser ter um corpo, uma consciência crua. Mas não é de todo mau, não, — realmente não. Vivi (e vivo, sim!) muitas sortes; é bom, é bom sim. A vida tem sua graça. Entre felicidades terríveis e angústias lindas, entre dores hedonistas e prazeres hediondos, permaneço. Aceito. Já que vim, me deixe estar.
Noutros anos, meu combustível para viver foi um bem nutrido amor de mãe que sentia pelo mundo — um perdão muito grande, uma adoração perplexa por tudo que vive. Claro, ainda vejo imensa beleza na existência; sou eternamente súdita da exatidão universal. Mas confesso: amarguei. Esse ano eu endureci. Mudei (bem como pedi a mim mesma, em minha carta do aniversário anterior). E, sendo assim, o que agora coloca-me de pé e faz-me uma mulher forte e firme como uma muralha é o meu incondicional amor por mim. A mim peço, desesperada: socorro. A mim digo, aliviada: obrigada. Entrego a energia de uma vida inteira ao ser humano que estou construindo sobre absurdos, na medida do impossível.
Existem outras pessoas, claro, que encontro dentro dos meus poucos anos. Afetos regados com lágrimas de amor, que me criam e me ensinam a ser gente. Como me edificam meus amigos, meus amantes. No fim das contas, qualquer um em nosso caminho termina por ser isso: ou amigo, ou amante. Às vezes, com sorte, há quem seja os dois. Quase nunca são eternos em permanência, ambos. Mas são sempre perenes em meu carinho; não esqueço jamais quem me desperta emoções de vida. Ah; surgem, eventualmente, seres bastante tortos que nos intrigam e dessimpatizam — estes também ensinam, também esclarecem, também anunciam. Mas importam menos. Esqueço rapidamente dos sujeitos e só levo comigo as lições mais úteis trazidas por estes desagradáveis. Os que lembro, os que cito e os que agradeço são os que pontual e incondicionalmente amo (ou amei).
Conformei-me com a existência há pouquíssimo tempo; aparentemente, estou mesmo nesse plano estranhíssimo e aqui continuarei por mais, no mínimo, quarenta anos (choco-me com a descoberta diária que é a autopercepção). Conformei-me; mas entendimento e costume ainda não tenho, muito pelo contrário. Mas tudo bem também. É sendo estrangeira que aprecio e sei melhor. Melhor para mim, para minha aprendizagem — em comparação aos outros, não há como estar acima nem abaixo (tampouco eu gostaria). Não sou nada além de terrivelmente igual, porque sou humana.
Feliz vida para mim, que sou de carne e osso e assim vivo a vida. Desejo, sinceramente: parabéns, minha amada. Que eu faça bom proveito desses novos tempos.