Dizem que os primeiros amores nunca morrem, não é isso?
Eu, particularmente, acharia mais bonito dizer que conheci Matheus por cartas extraviadas que resultaram num destino lindo e amoroso (mas o início não foi por cartas. De todo modo, talvez eu possa dizer que o destino, por sua vez, foi certamente lindo e amoroso — embora de uma forma inconvencional, não de um modo obviamente lindo, tampouco precisamente amoroso; ainda assim, lindo. E amoroso. Essas foram as duas partes que fui presenteada). Ou se fosse porque ele há muito me admirava pelas janelas que davam da rua para o meu quarto (mas também não foi seu corpo material que meus olhos viram pela primeira vez, tampouco físico o nosso primeiro contato). Ou se o acaso houvesse nos apresentado no ar fresco de uma praça qualquer, entre um livro e outro, entre um riso e outro, entre um calor e outro (mas não era azul o céu do dia que aconteceu de fato, e eu não estava livre, e eu não via a rua). Ou se tivesse sido, por exemplo, na arquitetura resiliente e carmim na juventude antiga e própria do cinema São Luiz (mas não foi assim bonito, não foi assim rebuscado, não foi lá o maior feito artístico do universo; simplesmente foi — e indo do seu próprio modo, também me satisfez).
Sou antiquada, anacrônica, temporalmente errada; algo como um anticomputador sentimental. Preferiria narrar uma história com os traços de qualquer outra geração, gostaria que fosse uma história começada nesses outros caminhos que conjecturei agora, vividas nas inocências dos tempos passados. Entretanto, a despeito do que quis, não foi assim que aconteceu.
Conheci Matheus sentada numa cadeira desconfortável, tendo como canal um computador muito feio. 2014. Dia 13 do mês 04. Eu lembro com exatidão porque essa data depois viria a se tornar a senha daquela mesma máquina que nos apresentou — veja só como um fruto da geração Z atribui significado ao que lhe importa. Um cenário absolutamente fiel à juventude sônica das primeiras décadas do século 21. Apaixonei-me não por olhares ou por um toque ou pelo som de um riso: foram palavras criptografadas, virtuais e distantes que pareceram flutuar da tela para pousar diretamente no meu coração, pequeno e inédito coração adolescente. Depois vieram as ligações que fizeram-me derreter como um verão azul por aquela voz deturpada, pouco real, vinda da obscuridade de um telefone sem fio. Na época, não percebi; estava muito ocupada, perdida na cegueira eufórica dos apaixonados. Atrasada em alguns anos, percebo agora o simbolismo de tudo aquilo. Matheus me mostrou como o amor ocorre de modos muito travessos e absolutamente inexoráveis, do jeito que quiser, sem eira nem beira. Foi um nocaute em mim — eu que quero a tudo definir em conceitos bem delimitados e descritos, aprendi com a surpresa deste causo de minha vida que o amor não tem pré-requisito, pré-disposição ou critério rígido: ele ou acontece ou não acontece, a despeito do amante e do amado. Não precisei dos olhos de Matheus e nem da boca de Matheus e nem do corpo de Matheus e nem do sexo de Matheus também não da voz de Matheus; só foi necessário que Matheus existisse e que eu disso soubesse para que meu encanto estivesse irremediavelmente estabelecido. Depois de longos meses de virtualidade, de ternura intocada e de afeto distante, eu e ele nos encontramos e trouxemos ao corpo algo que já vivia noutro plano. E funcionou — embora numa dinâmica diferente da estabelecida quando estávamos conectados apenas pelo sentimento e pelo wi-fi. Mas o memorável é que o império de nossa emoção foi ascendido de forma semi-platônica, enquanto eu, no meu espaço, construía um amor e ele, em seu lugar, elaborava o seu carinho. O namoro durou um ano e meio (muito, considerando todas as circunstâncias da época. Surpreendente a resiliência criada por duas crianças perdidas no mundo pela tentativa esperançosa e dedicada de se satisfazer — tanto mútua quanto individualmente). E então nós nos deixamos — virtual e pessoalmente. Todas, todas as conexões foram abruptamente quebradas e o que restou foi um ódio cego e muito maduro (porque, apesar da imaturidade nossa, o ódio em si era frutado, muito desenvolvido, com uma força de ancião). A desavença durou alguns anos (a mesma quantidade de anos que durou o meu próximo relacionamento — que, por sua vez, não foi nada cibernético; muito pelo contrário, mas não vem ao caso), até que nos reencontramos (dessa vez, em persona, carne e osso) para restabelecermo-nos como bons amigos. E então Matheus me apresentou outras faces do que é o amor: desta vez o amor restaurado, fraterno e nostálgico. E tem me apresentado.















