O CAÇADOR (COLETADO POR ALMEIDA GARRETT DA TRADIÇÃO ORAL PORTUGUESA)
@themousefromfantasyland
O caçador foi à caça, À caça, como só ia;
Os cães já leva cansados, O falcão perdido havia. Andando se lhe fez noite Por uma mata sombria, Arrimou-se a uma azinheira, A mais alta que ali via. Foi a levantar os olhos, Viu coisa de maravilha: No mais alto da ramada Uma donzela tão linda! Dos cabelos da cabeça A mesma árvore vestia, Da luz dos olhos tão viva Todo o bosque se alumia. Ali falou a donzela, Já vereis o que dizia: — ‘Não te assustes, cavaleiro, Não tenhas tamanha frima. Sou filha de um rei c’roado,
De uma bendita rainha. Sete fadas me fadaram, Nos braços de mi’madrinha, Que estivesse aqui sete anos, Sete anos e mais um dia; Hoje se acabam n’os anos, Amanhã se conta o dia. Leva-me, por Deus t’o peço, Leva em tua companhia.’ — ‘Espera-me aqui, donzela, Até amanhã, que é o dia; Que eu vou a tomar conselho, Conselho com minha tia.’ Responde agora a donzela, Que bem lhe respondia! — ‘Oh, mal haja o cavaleiro, Que não teve cortesia: Deixa a menina no solto Sem lhe fazer companhia!’ Ela ficou no seu ramo, Ele foi-se a ter co’a tia… Já voltava o cavaleiro Apenas que rompe o dia; Corre por toda essa mata, A enzinha não descobria. Vai correndo e vai chamando, Donzela não respondia;
Deitou os olhos ao longe, Viu tanta cavalaria, De senhores e fidalgos Muito grande tropelia. Levavam n’a linda infanta, Que era já contado o dia. O triste do cavaleiro Por morto no chão caía; Mas já tornava aos sentidos E a mão à espada metia: — ‘Oh, quem perdeu o que eu Grande penar merecia! Justiça faço em mim mesmo E aqui me acabou co’a vida.’ (ALMEIDA GARRETT, ROMANCEIRO)

















