“You have to tell me who did this to you!” ( te amo tá rsrs)
tw: blood, self harm
A dor, por vezes, dilacera. Ele não precisava de mais uma prova desse fato, porém ali estava: destruído. Como se cada mínima parte de seu ser queimasse e agonizasse em uma sensação que sequer podia ser descrita em palavras; mal sabia como era capaz de sentir tudo aquilo sem ceder, sem quebrar, sem desistir. Mas, lá no fundo, sabia: era impossível estar ainda mais quebrado do que naquele momento. Sequer se sentia como si mesmo, tudo o que restara após aquilo fora uma casca sem vida do que um dia tinha sido Baek Jongsu, o jovem apaixonado que daria absolutamente tudo de si para fazer feliz a única pessoa que já tinha amado com toda sua alma e seu coração; puro e ingênuo demais. Maltratado demais. Sabia que tinha sido um erro seu depender tanto dele, doar-se tanto ao ponto de “não imagino minha vida sem ele” se tornar tão real que cada briga era uma dor física infinitas vezes pior do que as que já infligira a si mesmo. Mas que escolha tinha? Era um tolo. Um tolo que via o sol brilhar mais e as coisas fazerem mais sentido apenas por estar na presença dele. A luz que emanava do outro era a coisa mais bela que tinha visto, a qual ele se sentia feliz de ser permitido admirar, chegar um pouco mais perto, tocar, se aquecer em seu calor. Era o suficiente. Até que essa luz se tornou uma sombra que consumia tudo que existia dentro de si a cada minuto que passava e aquela verdade se fazia mais e mais real para si. Logo ele, que sempre tinha tomado tanto cuidado com o próprio coração, porque sabia que era sensível; a dor sentida quando perdeu a primeira pessoa que amou e sequer chegou a tocar tinha sido amostra e prova o suficiente do óbvio: precisava se proteger. O mundo lhe quebraria. Até que se convenceu de ter encontrado alguém que iria cuidar daquela pequena preciosidade tanto quanto si mesmo e foi, de peito aberto; deixou seu coraçãozinho correr por conta própria e aproveitar a liberdade enquanto assistia, de longe, o que parecia um conto de fadas tornar-se seu pior pesadelo sem que tivesse sequer a chance de impedir. Encontrá-lo na cama com outro não teria lhe ferido tanto se o outro não fosse seu melhor amigo; se não tivesse acontecido tudo imediatamente após um desentendimento que já o fragilizara demais. Já estava ferido demais para lidar com uma traição dupla, vindo das duas pessoas a quem confiaria sua própria vida. A memória, como sempre, lhe ludibriava nesses momentos; sempre era mais fácil bloquear o que parecia doloroso demais do que registrar aquilo em detalhes. Lembrava-se, porém, dos gritos; tanto os contra ele quanto os guturais que lhe escaparam enquanto estava ali, trancado no banheiro do hotel, tentando - de alguma forma - colocar para fora o que estava lhe corroendo; lembrava-se do desespero e de como ele lhe levara a quebrar o espelho e usar os cacos para ferir a própria pele, rasgando-a nos braços e nas coxas de maneira desajeitada como se isso fosse doer mais que o próprio peito; lembrava-se disso não funcionar como das outras vezes; e não precisava de lembrança para as lágrimas que ainda eram vívidas em seu rosto. Mal tinha conseguido se entender consigo mesmo quando Yejun lhe surpreendeu aparecendo na porta - e soube, naquele momento, que ele tinha mandado-o ali. Tal conclusão era dolorida como enfiar uma faca em uma ferida ainda aberta e sangrando. ㅡ Il a fait! IL A FAIT! ㅡ Não sabia como ainda tinha voz de tudo aquilo, mas as acusações saíram mesmo assim, no tom que mal sabia definir como raivoso ou dolorido. ㅡ Il a triché sur moi. ㅡ O francês saía quebradiço, como se sua voz fosse falhar a qualquer momento. E realmente falhou, ao final daquela frase e de admitir, em voz alta, o que tinha acontecido. ㅡ Pourquoi, René? Était-ce ma faute? Encore? ㅡ Repetia, baixinho, sentado sobre os próprios calcanhares no chão frio; o sangue sujando as roupas e a pele não incomodava mais - era um mero detalhe diante do comportamento de alguém que estava claramente em choque, se balançando suavemente para frente e para trás enquanto as unhas corriam pelas próprias pernas. ㅡ Qu'est ce que j'ai mal fait? ㅡ Os soluços agora saíam baixinhos, no choro silencioso e desolado de quem começava a aceitar o inevitável: o que tinha de mais precioso em sua vida havia sido arrancado brutalmente de seus braços, e agora teria que reaprender a vivê-la com essa ausência.






