Advérbio de falta
Todos os meus prazeres me destroem.
Todos os meus afagos me corroem.
Todo o meu futuro se acaba.
Todo o meu fim se constrói.
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Advérbio de falta
Todos os meus prazeres me destroem.
Todos os meus afagos me corroem.
Todo o meu futuro se acaba.
Todo o meu fim se constrói.
Dias
Não sei exatamente que diferença vai fazer
O que foi já passou e o que ainda… será?
Nada acontece no meu como ou no meu quando
Essa busca de propósito tem encontrado algumas lacunas que preencho de passado
Veja bem, não é que eu esteja suicida, não mais
É que meus olhos já não enxergam mais as mesmas cores
Meus ossos estralam o peso de ser
As vitaminas só aumentam e… ao vê-las na palma da mão, todos dias, me questiono o pra quê
Pra quê? Pra quê continuar? Não tem mais o que acontecer
Na minha intensidade, já vivi demais
Ah, você pergunta daquele outro, aquelas outras que não passei por ainda
É que não vai vir, entende? Olha só, está tarde e tudo bem, tentei por todas as linhas tortas e rasgadas, fumadas e cheiradas, está tudo assim, então, bem
Não consigo alcançar esse pra quê
Pra quê acordar todos os dias?
Pra quê fazer tanta comida?
Pra quê contar calorias?
Pra quê os 1000 passos por dia?
Pra quê se todo dia se repete?
Entende, nada mais vai acontecer
Já me arrasto 10 anos a mais que o esperado
Meu livro nunca vai sair
Nunca vou voltar ao Canadá
Muito menos conseguir ir ao Japão
Únicos desejos ainda levemente ansiados
Então vejo duas meninas tentando andar numa bicicleta sem roda e se divertindo, ainda assim…
Lembro de mim
Aos 5 anos de idade
E de como todos os dias
Esperava tanto
Que tudo mudasse
E não se repetissem
Tanto os dias
Almoço
Tenho esquecido de almoçar. Frango, um tubérculo que dizem ser saudável, alguma verdura. Uma fruta para depois, ou um gole no chá de hibisco, dizem melhorar a retenção de líquido. Suco verde. Caminhadas de quarenta a cinquenta minutos. Quatrocentas ou quinhentas abdominais diárias. A busca por mim mesma, cansativa, endorfinada, com um adesivo de nicotina variando de braços e dando coceira. O horário dos remédios, as horas dormindo, finalmente, após noites de insônia e pesadelos. Medo. Mas medo de quê, exatamente? Não é como se meus gatos não fossem sobreviver sem a minha presença, já testamos a vivência deles com meus pais e, apesar da gata deles, que se chama gata em inglês, não gostar dos intrusos na casa que é sua, foram bem cuidados. Já usei meus gatos como a justificativa para uma permanência meio torta, afinal foi a minha quem bateu na minha mão daquela penúltima vez.
Outra justificativa era só parar de fumar quando fosse mãe. Uma mãe de santo falou do futuro brilhante que eu teria, com uma casa enorme, possivelmente um centro de ajuda para pessoas que precisam dela, outra cidade ou outro estado, um marido, um filho ao meu lado. Como, me pergunto, se desisti de ser mãe ainda ano passado? Seria esse o segredo para que o meu enredo desenrolasse, o desistir? Não sei exatamente para quê ou por quem estou largando os 8 a 10 cigarros diários. Contei para o meu pai que a primeira vez que fumei foi aos 5 anos. Acredito que minha mãe não tenha falado sobre isso a ele, já que algumas horas depois ela percebeu o cheiro do Carlton dela em mim e, do jeito que achou prudente, me puniu com sandálias havaianas pelo corpo. Ou será que isso aconteceu quando peguei os 50 reais da carteira do meu pai, sem entender que estávamos passando por dificuldades financeiras, para comprar canetinhas coloridas, as mesmas que invejava as colegas de escola terem, mas eu não.
Por muito tempo invejei as colegas que seguiam as ordens das mães e recebiam ajuda nas tarefas. Lembro das tardes sozinha em casa, assistindo aos desenhos com a antena que meu pai tinha encomendado, tentando entender meu lugar naquele mundo meio solitário, mas cheio de coisas ao redor. Queria saber o que minha mãe gostava tanto naquela fumaça que permeava pela casa e pelo carro. Quis saber o que minha mãe fazia tanto em São Paulo na época da cirurgia. “Você quer ir pra Disney ou fazer uma festa de debutante?”, não quis nenhum. Preferi ir a São Paulo, conhecer esse lado da minha mãe, e ir para o Rio de Janeiro, conhecer o lado do meu pai. Entender meu lugar no mundo.
A verdade é que não sei exatamente quem eu sou sem o amparo da fumaça que tomei como minha e, na minha cabeça, ajudava com a ansiedade. Acontece que não sei mais pelo que tanto anseio. Desisti de sonhos, vivo no automático, faço meu trabalho, tento ser melhor, consegui ir pra Disney sozinha. Andando pelas ruas de Nova Iorque com os fones no ouvido, senti o lado bom de ser só eu. Nada me impede, posso tentar ser especial como todas as crianças nascidas nos anos 90 foram influenciadas a acreditar. Já estou há 6 dias sem fumar. Uma bronquite crônica assustou mais aos meus pais do que eu. Talvez eu não queira vê-los sofrer de novo por minha causa, a única filha de um deles, a que deu tanto trabalho. Mas foi tanto trabalho assim? Se soubessem tudo o que eu sei que vivi, talvez não aguentassem a dor de ter me colocado no mundo. Talvez me entenderiam melhor. “Um dia vou escrever um livro e eles vão entender”, mas será mesmo? Um vácuo de momentos que não precisam ser revividos, muito menos lidos.
Penso muito nele. Não tanto quanto pensa em mim, certamente. É que me acalenta pensar em outras coisas que não eu. Honestamente, não esperava ainda estar viva, então parece que vivo num beco sem saída. Posso seguir, entretanto... com que propósito? Mudar vidas através do trabalho que paga meu sustento? É suficiente querer viver pelos outros? Não sei explicar exatamente, mas consigo me amar, a questão aqui não é o desamor. Provavelmente eu já tenha amado demais nesses 30 e tantos anos, e vários amores foram errados, mas pareceram certos em algum momento. Li demais na infância, esperei algum tipo de príncipe ou princesa, qualquer coisa que me tirasse dali. Minha salvação fui eu mesma. Não sei o motivo. Não sei o que me leva a continuar. Já me dei girassóis, já me dei presentes, já me dei infernos, já me dei percalços. Quando acaba? Quantos mais frangos com verduras e abdominais devo colocar pelos dias? Preciso ser saudável para quê? Vou fazendo sem saber, assim como comecei um dia a escrever. Diria que nunca sei muito bem o que estou fazendo, mas diriam que algo de certo estou fazendo.
Minha antiga psicóloga achava interessantíssimo quando eu mudava a cor dos meus cabelos. Queria dizer a ela que hoje estão cor de rosa. “Por que?”, porque um dia eu quis e pensei sobre isso por incessantes 8 meses. Penso demais. Penso o tempo todo. Não consigo achar as motivações intrínsecas, achar não, entendê-las, de alguma maneira. De tudo que a mãe de santo me falou, o que ficou grudado foi que eu viveria algumas tantas perdas, o que ela disse com olhos de pena. Outrora, já haviam me dito algo similar. Abortos, acho eu. Ainda não engravidei nenhuma vez, mas penso tanto nesses abortos, que não quero permitir que isso aconteça, mesmo sem a certeza de que era isso que queriam me falar. Esse é o grande problema da maioria das pessoas que passa pela minha vida, o medo da honestidade, como se eu fosse uma boneca de porcelana que cairia ao primeiro sinal de aflição. A realidade não me assusta, o que me assusta é não saber.
Fui ensinada a pensar sobre serenidade, coragem e sabedoria. Devolver a ilusão de controle para o incerto do destino. Estive perto da morte tantas vezes que ainda não entendo por que acordei em pânico de uma cirurgia, como um bebê que sai do ventre sem saber onde está e porque diabos o tiraram de lugar tão confortável. Vai ver eu estava confortável no limbo do não pensar induzido por anestesia e o despertar arruinou minha paz como a de um bebê tranquilo. Quem sabe foi por isso que me enrosquei no cordão umbilical e não quis sair, eu ainda tinha um mês de paz.
“O que você quer?”
“Eu quero paz”
“E o que é paz pra você?”. Até hoje não sei responder.
Onde estou hoje consigo sentir paz, mas agora é diferente. É mentira dizer que os cigarros me davam paz. Eles me davam a esperança de ir logo embora e acabar com essa dúvida eterna e busca de propósito. Ou não. Ou eles me davam um abraço quando não tenho ninguém. Ou não. Ou eles me faziam parar de tremer, momentaneamente. Medo de engordar de novo sem eles. Frango, batata doce, caminhada, academia, 400 abdominais. Sobreviver. Para quê? Monto tantos cenários na mente, falo tanto com os outros sem que eles saibam, crio um milhão de diálogos que nunca acontecem. Acho que tento me preparar para o que pode acontecer, mas nada acontece como o esperado. Então eu continuo, sem saber quem eu sou, buscando por algo que não sei o que é, desejando que tudo logo se resolva para que eu tenha alguma sensação nova de paz, para que eu não tenha mais que ficar contando segundos, contando passos ou acasos.
Respiro melhor. Durmo melhor. Os sonhos não param porque minha mente não descansa. Acordo na madrugada, bebo água, durmo de novo. Voltei a ler. Faço meu trabalho, tento não me pressionar tanto e me permitir mais um episódio de um seriado qualquer. Será que agora tenho medo de morrer? Tão desconhecido, seria, se fosse isso. Não deve ser. Tenho medo de precisar de ajuda? De ter que ir? De não ter dinheiro para as contas? Tenho medo de não ver meu futuro e as tantas perdas que falaram? Medo das coisas e não sei que coisas são essas. Decepciono a mim mesma por não saber as respostas. Custa muito esperar pelo que não se sabe. Preciso descobrir quem sou eu, de novo, acredito que pela quarta ou quinta vez, no mínimo. Exaustivo existir sem ter pedido.
Amanhã tudo se repete, mas quem sabe eu lembre de almoçar.
Cloudsy
All things, trigger The impolite messaging The passive aggressiveness I can't be me But can I Stay here? All things, they trigger I keep explaining myself Should I? Need I? Why would I - These pants are suffocating This lipstick isn't working Someone looked at me Do they know Does he know Do I know I can't breathe Should I tell I don't know a thing So many clouds Can I stay here? Should I - No one around It's suffocating me I don't know how to live
Well I mean Do I?
Keep those doors Open them up What should I -
So Many Clouds Why Don't They Stop Treating Me Like I Don't Know A Thing
Maybe I don't Maybe I won't Maybe... It just... Won't...
Será
Será que ele sabe
Que um cheiro virou alegria
Que essa casa não mais é tão vazia
Que eu vou só prolongar minha estadia?
Será que ele sabe
Que dormir agora é paz
Que o olhar já me desfaz
Que o sorriso que me traz...?
Será que ele sabe
Das imagens que já decorei
Dos momentos que já imaginei
Das batidas que já pulei
Só de ver
Só de ter
Só de ser?
Será que ele sabe
Do tudo que eu já sei
Do tanto que já gostei
Do todo que já derramei?
Será que ele sabe
Na mesma intensidade
Que o medo de não mais ter
É o sino de bater
É o disfarce de não ser
É o amor de se viver?
Será que ele sabe
Que todo dia me traz poesia
Que todo dia me faz melodia
Que aqui acaba a melancolia?
Será que ele sabe
Na mesma intensidade
Na mesma intensidade
Na mesma intensidade?
Será que eu sei
O que fazer
O que doar
O que jogar
O que manter
O que tramar
O que dizer?
Será, eu sei
E o que se é
E o que será
E o que se tem
Respiro aliviada
O nariz desentupindo
O braço abrindo
Não conta tempo
Não mete freio
Vai
Deixa estar
Não leva nada
Para de pensar
O que foi já não é mais
Tira o pó da paz
"Merece"
Merece e agradece
Segue
Limpa o drive
E se não for?
E se é?
Respira, aliviada
Acabou a dor
O tempo que não existe
Já passou
Chegou a hora
De conhecer
Um novo
Amor
(Tempo é ilusão)
Marejo
A tragédia de ser e estar
ao mesmo tempo
que correr ou matar
A angústia de se declarar
pelo medo, no acalento
de "vai que tem que"
delatar
O acaso do desespero
o gatilho do fazendeiro
o passado do desejo
o inferno do ombreiro
Passa noite pelo dia,
chora enquanto há comida
Passa pó pelo que filtra,
canta enquanto há matilha
Sem os cem do acém
Com a meta da filha
Enfiada em agonia
Trabalha todo dia
E se anima, se derrama
pra voltar pela matina
Mas não sabe se levanta
ou se enrola em jogatina
É com rima
Em falta de alegria
Clamando em demasia
Gritando incompreendida
Fez-se silêncio,
então
É
no marejo
do bom dia
Fourteen
All we need, sometimes, is silence
so we don't have to hear the screams
But even in the so-called deepest slumbers
I still hear the sounds you made
the bad ones, the nice ones
all of them
Took the pictures of the wall,
deleted everything I had
yet, you're still here
and I still see you
How could you be like that
when all I ever wanted was...
The notes turned into terrible memories
It's so hard to eat, I can’t even drink
I've been doing so many things
It's been a lifetime of wishing
and five months of weeping
I force myself to think you didn't deserve me
I still get jealous and weak and hurty
I wonder what it would be like
I sense your smell and I miss your arms
I force myself to think I’m finally free
Then how...
How can one feel so deeply...
Why can't one get rid of it...
When, if ever...
Fourteen years
We celebrated our sacrament
only to bury it all inside?