Não sou o primeiro nem serei o último a comentar sobre o destino do Brasil. Pera, não é polêmica política, tá? É em relação ao livro de 1941 do escritor austríaco Stefan Zweig, “Brasil, o país do futuro”. Fugido do nazismo, Stefan foi parar em Petrópolis, a cidade imperial no Rio de Janeiro, em um país sob regime ditatorial.
O livro de Zweig recebeu críticas bastante negativas, principalmente por enaltecer um país em regime ditatorial. Pra quem dormiu na aula de História, nos anos de 1940 o Brasil estava sob regime militar no período do Estado Novo de Getúlio Vargas. Mas e se fosse uma ficção? E se o narrador propositalmente elogiasse a nova nação por estar imerso numa realidade mais confortável que a anterior? Acho que esse papo tá ficando Black Mirror demais, né?
Na verdade, nem Black Mirror. Mas, sim, distópico. E é falando em distopia que a gente acaba despertando a reflexão pra assuntos políticos que acabam ficando à margem da sociedade. Guerras, fome, poluição, extinção das espécies, tecnologia, supervalorização da imagem, regimes totalitários: esses são temas bastante explorados na ficção distópica. Contudo, a gente não encontra isso somente em Jogos Vorazes e Divergente. Tem muita produção nacional interessante na qual encontramos esses temas.
Em tempos pós-Bush, com Temer, Eduardo Cunha, Bolsonaro, Trump, Kim Jong-Un, é claro que o tema da distopia iria voltar com muita força. Quem sabe dessa forma a gente consegue abrir os olhos e a mente para os problemas que realmente importam no nosso cotidiano, né? Se o jornalismo não tá gerando a nova revolução, que a ficção o faça.
Assim, apresento a vocês 5 obras de escritores (homens e mulheres) que se aventuraram por essa ponta política e social da ficção científica. E vamos começar com:
A Torre Acima do Veú de Roberta Spindler
No futuro, a humanidade se divide em blocos, e o Brasil virou a União Latina. Em tal momento, a megalópole Rio-Aires, assim como várias outras ao redor do mundo, são atingidas por uma densa névoa. Esse fenômeno dizima boa parte da população do mundo, e apenas quem habita nas montanhas ou em edifícios pra lá dos 300 andares é que consegue escapar da névoa, que é tóxica e causa mutação em humanos.
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Governos ruíram, líderes morreram e a desordem predominara, até que algumas pessoas se uniram para buscar alimentos e equipamentos abaixo da névoa. A liderança dessa nova sociedade é da torre mais alta em Rio-Aires, que espalha comandos às outras torres e vamos acompanhar Rebecca na expedição por essa nova superfície.
A autora, Roberta Spindler, é uma publicitária e editora de vídeos de Belém, Pará, e é coautora de Contos de Meigan – A Fúria dos Cártagos. A Torre Acima do Véu passou MESES fora de catálogo na Amazon e em outras lojas online, mas voltou recentemente. Acabei encontrando na Bienal do Livro no Ceará e foi a maior surpresa do evento até o momento!
Supernova: O encantador de flechas de Renan Carvalho
Acigam é uma cidade isolada do restante do mundo. Ela parou de evoluir com o resto da sociedade e vive num regime ditatorial com a iminência de uma guerra civil. Em Acigam, ninguém entra ou sai, nada entra ou sai: nem mesmo há comunicação com o mundo de fora. O isolamento é tanto que a ciência é vista como magia, e os chefes de estado usam desse conhecimento pra dominar e oprimir a população.
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Renan Carvalho é profissional de marketing pela USP e já escreveu a continuação da série: A Estrela dos Mortos. A inspiração para a série surgiu da vivência pelo Brasil, observando e sentindo a corrupção na política, serviços públicos precários e infraestrutura duvidosa. O prólogo e 1º capítulo de O encantador de flechas pode ser lido no Issuu.
Cidades-Mortas de Dêner B. Lopes
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Lisarb é um território cheio de tirania. Nesse lugar onde há apartheid racial (pessoas negras e brancas não podem se relacionar ou frequentar lugares públicos juntos), 10 casais de jovens são votados a participarem de um reality show nas Cidades-Mortas, favelas abandonadas cheias de comida e armamento. Com evidente inspiração em Jogos Vorazes, de Suzanne Collins (que pegou a mesma premissa de Battle Royale, de Koushun Takami), Dêner explora a política do Pão e Circo num Brasil bem mais desregulado que o normal.
Não Verás País Nenhum de Ignácio de Loyola Brandão
Esse é o mais antigo de todos. Lançado originalmente em 1981, nasceu como um conto e expandiu para um romance de um Brasil liderado por um governo chamado Esquema. Nesse futuro, a Amazônia é um deserto, comida e água são escassos, e a comunidade se divide em castas. Manifestações populares são reprimidas com violência e palavras e expressões ganham sentido de tabu, impronunciáveis sob pena de castigo.
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Na trama, acompanhamos Souza, um homem que descobre um furo em sua mão. Na busca por respostas, ele caminha por uma São Paulo inóspita e praticamente virada ao contrário. A obra ainda ganhou duas adaptações para o teatro: uma de Fortaleza, em 1987, e uma de Belo Horizonte, em 2016.
Anômalos: A Ilha dos Dissidentes de Bárbara Morais
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O livro inicia com Sybil Varuna, fugida da terra natal por conta da guerra. Após escapar com vida de um naufrágio, Sybil descobre ser uma “anômala” e acaba sendo enviada para viver com uma nova família. Assim como ela, essas pessoas têm habilidades especiais, mas não são mutações genéticas que irão salvá-los da guerra. Bárbara Morais é de Brasília e economista por formação e escreveu mais 2 livros da série Anômalos: A Ameaça Invisível e A Retomada da União.
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É muito importante que a gente demonstre interesse e apoie o trabalho de escritores nacionais. Atualmente, o esforço que eles têm de fazer para se destacar nas vitrines das livrarias é praticamente o triplo. Então, vamos aproveitar espaços como o da Bienal do Livro do Ceará pra conhecer novos autores e saber o que as produções deles têm de bom. O sentimento, no fim, acaba sendo de compensação. Vale a pena ler nacionais.
Então, só lembrando: Bienal do Livro do Ceará acontece no Centro de Eventos do Ceará (Av. Washington Soares, 999 – bairro Edson Queiroz), com programação gratuita diária até 23/04. Dá uma passada lá e olha os stands dos livros baratinhos. Talvez você tenha, logo ali, a maior surpresa da sua semana.
5 distopias escritas por brasileiros Não sou o primeiro nem serei o último a comentar sobre o destino do Brasil. Pera, não é polêmica política, tá?






