Nas frestas do tempo
Como é viver a sua vida no compasso do outro? Esperando que as suas escolhas caibam nas frestas de um cronograma que nunca foi seu.
Como é existir em segundo, terceiro, quarto plano, fragmentando os próprios sonhos para que os dias de outra pessoa permaneçam inteiros. É silenciar a própria necessidade para servir a quem caminha leve, livre do impacto das próprias escolhas — porque sabe que o peso delas nunca vai desabar sobre si, mas sobre você.
A doação não deveria ser o apagamento. Mas você aceitou virar o fundo da tela, a sombra onde o outro se apoia, fazendo dele a sua única moldura.
E presa aí dentro, você virou uma espera silenciosa por um resgate que não vem. Aceitou ver os dias passarem em câmera lenta. E quando a noite chega e tudo se acalma, o seu cansaço não é físico. É só aquela sensação incômoda, no fundo da mente, de quem não sabe dizer em qual curva do caminho acabou se esquecendo de si mesma.
— Ane Rocha.








