]heads on the science apart[
16 de outubro de 2015, Sexta-feira. Alojamento da A.N.E.
O dia estava tomando um rumo surpreendentemente melhor do que o de costume, embora, no inicio, pensara que tudo estava perdido. Havia passado a madrugada toda no necrotério do laboratório central trabalhando nos últimos casos do dia anterior. Eram seis da manhã quando percebeu que finalizara a pilha de envelopes restante. Foi como um balde de água fria. Apesar de ter sido dispensada de seus afazeres para “aproveitar” seu final de semana prolongado, havia planejado permanecer no laboratório. Com a falta de ocorrências, infelizmente, seus planos foram cancelados.
Lembrou que deveria ir até a Ala Geral para uma consulta rotineira com sua psicóloga responsável, mas descartou a ínfima possibilidade de comparecer. Teria problemas por isso? Óbvio. Importava-se? Jamais. Já estava cansada de ir até lá para ser “analisada” por algum pretensioso metido a vidente, tanto que aquela era a terceira encarregada de seu caso. Todos os outros desistiram ou precisaram de seu próprio tratamento. Fracos. Era só uma questão de tempo até conseguir uma quarta vítima, mas naquele momento não estava com humor para lidar com isso.
O quê mais poderia fazer?
Quem sabe ligar para a loja de música para saber se a manutenção de seu saxofone havia terminado? Ótima ideia, pensou e tomou a iniciativa logo em seguida. Foi quando sua sorte começou a mudar. Estava pronto e ela poderia ir busca-lo durante a tarde, após o horário de almoço. Depois da boa notícia, a loira platinada comprou um café, acendeu um cigarro e foi direto para os dormitórios. Não estava com sono, mesmo tendo virado a noite, então só tomou um banho e trocou de roupa. Demorou quase meia hora para secar o cabelo e mais uma hora para terminar o esboço de um blazer feminino para a boutique.
Aproveitando-se do fato de que ainda restavam horas para ir pegar o instrumento na loja, desceu com sua caixa de ferramentas, um balde com água e sabão, um pote de cera, uma esponja e uma flanela. Fazia tempo que não cuidava de sua motocicleta e aquela era uma oportunidade em meses. Sabia que logo não teria mais tempo livre, como todos esses feriados e comemorações de fim de ano. Pois é, as pessoas ficam mais temperamentais e assassinas perto do natal.
Pegou sua Iron 883 na garagem e foi para o canto da rua, perto de um terreno baldio. O clima ameno era quase uma benção divina, sem contar com o céu nublado. Era realmente um ótimo dia. Poderia levar Macquiavel, sua cobra Python, para um passeio depois que pegasse o sax. Aliás, deveria comprar mais ratos para ele pelo caminho. Dois coelhos com uma só cajadada.
A única coisa que não estava agradando a legista era o fato de estar sendo observada. Olhares curiosos eram lançados em sua direção durante todo o processo. Alguns caras, os mais imbecis, tentaram aborda-la em um momento. Não sabiam que estavam lidando com Verena Raccoon e, agora, vão ficar um bom tempo juntando os cacos de seu orgulho masculino. Uma criança pensou em iniciar uma conversa, mas desistiu ao ver o olhar da loira.
Ainda assim sentia que estava sendo observada. Depois de alguns minutos, já deitada no chão sob sua Harley, não conseguiu mais ignorar o ser irritante.
— Vem cá, gosta tanto assim de motos ou é da motociclista?






