I am a theory in your head.
I know you think it’s more than just bad luck.
It’s just text book stuff
It’s in the ABC of growing up.
Uma manhã como todas as outras. Tão comum que a legista havia virado novamente a noite trabalhando nos laboratórios da academia. A única diferença era que, após o último caso que julgava interessante ser finalizado com maestria, a bastarda se dirigiu direto para seus aposentos ao invés de ficar pelo necrotério, esvoaçando seu jaleco pelos corredores e suas olheiras escondidas atrás de uma camada de maquiagem e de seus óculos escuros. Conseguiu escutar alguns sussurros durante o percurso, coisas relacionadas ao seu jeito e aparência. Ou seja, o de sempre.
Precisava de algumas poucas horas de sono para recuperar suas energias e voltar à ativa, isso porque uma família de origem mexicana de Nova Orleans havia contratado a garota como saxofonista. Aparentemente ocorreria uma celebração típica devido ao “Día de los Muertos”. Não poderia ser mais perfeito, pensou, rindo consigo mesma da situação. Teria que se apresentar assim que a missa de uma capela local terminasse e tocaria, liderando a família, até o cemitério mais próximo. Acho que não existe dia mais “Eva” do que esse.
Curiosidade: um chinês morreu por falta de sono quando ficou acordado durante onze dias direto para assistir a todos os jogos do Campeonato Europeu. (futebol, para aqueles que, como Eva, não têm ideia do que se trata). Na décima primeira noite, viu a Itália bater a Irlanda por 2 a 0, tomou banho e dormiu por volta das cinco da manhã. E morreu. Sem querer ofender o morto, mas é muito idiota ficar acordado por causa de futebol.
E assim foi feito. Assim que o relógio da igreja bateu seis da tarde, Eva já havia estacionado sua Iron 883 harley-davidson e esperava pacientemente na escadaria, terminando de ajustar seu instrumento musical. Ela estava vestida a caráter, a pedido de seus contratantes, com uma maquiagem de esqueleto cheia de arabescos multicoloridos e um blazer escuro bastante formal. Isso sem contar a gravata borboleta. O resto da banda também já estava presente: um trompetista, dois violinistas, um baterista, um contrabaixista e um guitarrista, sendo que os três últimos citados tocariam no carro que abriria o caminho até o cemitério. Não sabia seus nomes e nem iria perguntar.
Tocar saxofone era um dos maiores prazeres da vida da loira. Ela realmente estava aproveitando o momento, tanto que acabou se esquecendo de que estava ali a trabalho. Ganhar uma boa quantia de dinheiro por causa de um dos seus maiores prazeres. Sentia-se como uma prostituta musical ao avesso. Caminharam pelas ruas ao ritmo do jazz, festejando aquela data especial. Estava... Contente, talvez. Difícil dizer se “felicidade” se encaixa no grande dicionário da legista.
Depois de mais ou menos três horas, a comemoração chegou ao fim. Estava cansada, de fato, mas sabia que, se fosse necessário, tocaria noite adentro. Conversou por alguns minutos com a senhora que organizara todo o festejo, acertando os detalhes do pagamento e recebendo elogios e agradecimentos. Era uma senhora muito educada e, apesar de ser falante em demasia, Eva gostou de conhecê-la.
Mais uma vez de volta para a estrada. Como estava com fome, parou em um pequeno mercado antes de voltar para casa. A alemã se sentia tão inspirada que decidiu preparar o jantar por sua conta. Não encostara na cozinha desde sua chegada ao dormitório. Pegou-se relembrando seus finais de semana com Petrus enquanto escolhia alguns pimentões verdes. Nenhum dos dois era bom cozinheiro, então a verdadeira competição era tentar fazer uma refeição completa e pomposa com ingredientes simples, como ovos e macarrão instantâneo. Tocariam seus instrumentos, saxofone e piano, depois do jantar e, talvez, fumariam um pouco na varanda. Bons tempos, pensou, mas ele era um mentiroso e agora está morto. Empurrou as memórias indesejadas para um quarto de sua mente, trancou a porta e jogou a chave o mais longe possível. Sabia, porém, que era só uma questão de tempo até encontrar a tal chave.
Curiosidade: Os casos de suicídio (egoísta e anômico) aumentam em noites de lua cheia e feriados.
Cerca de duas horas depois, a cientista já estava sentada na mesa de jantar de seu apartamento. A cozinha já estava limpa e sua refeição, berinjelas e pimentões recheados de carne moída, pronta. Macquiavel, a Python timoriensis albina, se retorcia preguiçosamente em sua jaula de vidro. O lustre acima de sua cabeça era a única fonte de iluminação e um blues desconhecido tocava na antiga vitrola de seu falecido mentor. Ela geralmente preferia seu Ipod, mas aquele era um momento de paz raro e relativamente especial.
Um dia aparentemente comum que acabou saindo melhor do que o esperado.
Colocou um pouco mais de merlot suave em uma de suas poucas taças e a ergueu em um gesto solene, um pouco acima da cabeça.
– Feliz aniversário de vinte anos, Eva.