Nossa! Nem tinha percebido que o sol já havia nascido. Parece que o dia será incrível, não há uma nuvem no céu. Fico feliz de não precisar ir trabalhar hoje, eu gosto de acordar do lado dela, mas acho que ela ainda não percebeu, não é sempre que ela me pede para ficar. Eu gosto de como ela dorme, do seu sono pesado e profundo, onde nada pode tirar sua calma e paz, o rosto angelical que passa tanta tranquilidade. Gosto de como coloca suas mãos, uma em cima da outra, como travesseiros para seu rosto, o pesoço a mostra, cabelo preto, não muito curto, solto por cima do travesseiro, deixando o dorso nu, . Passo de leve meus dedos por toda suas costas, gosto de sentir sua pele, o sob e desce por todo seu corpo esguio e branco. Meu amigo, tu não imagina a quantidade de cicatrizes que ela possui, elas se espalham, algumas pequenas, outras maiores, algumas mais feias, outras nem tanto, mas isso faz parte dela, de quem ela é, de quem foi e de quem se tornou. Sinto a textura áspera de cada uma, a dor e o alívio. Eu conheço a história de cada uma delas, com todos os detalhes. Ela faz questão, sempre que pode, de me contar como conseguiu cada uma e acredite, algumas são muito interessantes, divertidas, outras nem tanto. Tem uma no quadril, do seu lado direito, é fina, mas deve ter uns 10 centímetros. Ela havia me contado que conseguiu essa cicatriz quando tinha uns 8 anos, estava correndo de bicicleta com uma amiga e se distraiu ao ver sua amiga sem as mãos no guidon da bicicleta, mas ela mesmo, perdeu o equilibrio e acabou caindo em um barranco e enquanto caía, passou do lado de uma garrafa de vidro quebrada. Na hora ela disse que não sentiu nada, mas quando se levantou e começou a se limpar da sujeira, viu que suas mãos estavam cheias de sangue, acabou desmaiando e sua amiga que a ajudou. Sempre que as histórias começam, estamos ali, ambos nus, conhecendo nossos corpos e nos tocando sem intenção. Não sei bem o motivo pelo qual ela inventou todas as histórias, proteção, medo, não sei, mas admiro a sua criatividade, admiro sua inocência, mas a verdade é que sei tudo que aconteceu com ela desde sua infância, mas ainda não contei, acho que ela não gostaria disso, por isso eu prefiro que ela um dia se sinta a vontade de me dizer, assim como me sinto a vontade ao lado dela. Que ela confie em mim, assim como confio nela. A mulher que amo, teve uma infância complicada, difícil, brutal e muitas não suportariam, mas ela venceu e eu a amo por isso e vou sempre estar disposto a escutar suas histórias, serei sempre ouvidos, pois elas fazem bem para ela e principalmente para mim. Mariano P. Machado