Everton levantou a cabeça e olhou para os dois, Bruno e Ruy. Disse para eles que, por algum milagre, ele havia sobrevivido ao acidente. Ele tinha sido jogado para fora do carro, pois era o único que não tinha colocado o cinto de segurança. Comentou sobre a ironia, de que se tivesse com o cinto de segurança, não estaria ali contando aquela história. Ainda com o semblante muito sério, mas com algumas lágrimas já saindo de seus olhos, falou que toda sua vida se sentiu culpado por ter sobrevivido, que ele achava aquilo injusto. Havia perdido, de uma só vez, todos seus melhores amigos, além do pai do Gustavo. Depois que voltou a frequentar a escola e todos seus colegas repetiam o quanto ela tinha tido sorte, se perguntava se era sorte mesmo? Se aquela dor que sentia era normal. Por muitos anos aquela estranha sensação de culpa tomava conta de seus pensamentos e por dois anos ele chegou a frequentar um psicólogo, mas tudo aquilo havia ficado no passado...até hoje. Ele não conseguia acreditar no que tinha acontecido essa noite, na verdade nem ele, nem o Ruy ou o Bruno. Era tudo muito estranho para os três. Depois que os dois ouviram toda a história, ficaram sem saber o que fazer exatamente. Não sabia se conversavam com Everton sobre a história ou se continuavam como se nada daquilo tivesse acontecido. O que seguiu foi uma noite sem mais conversas, um silêncio cheio de dúvidas e perguntas que ficaram sugando o ar do ambiente, deixando eles sufocados. No dia seguinte, Everton acordou mais cedo que o normal, em silêncio, apenas se arrumou e saiu sem comer nada, sem banho e sem se despedir dos outros dois. O dia correu sem ter mudado nada. Parecia que tudo estava normal, mas a noite foi diferente. Everton não apareceu no horário que ele costumava chegar. Não conversaram entre si sobre isso, mas cada um chegou a pensar que devido a tudo que tinha acontecido, seria normal, ele querer dar um tempo para a cabeça, bebendo um pouco, sair para algum lugar e colocar as idéias no lugar. No meio da madrugada, ouviram a porta se abrir e viram que ele havia chego, mas estava quieto, um semblante diferente, mas não dava muito bem para ver, já que as luzes estavam apagadas e ele estava usando um capuz, escondendo o rosto um pouco. No outro dia, pela manhã, ele havia saído mais cedo que os outros novamente. Quieto, vestindo calça e camisa pretas e por cima um moletom com o capuz cobrindo o rosto novamente. Não que isso fosse algo muito relevante, já que estavam entrando no outono e a temperatura estava confortável, nem quente, nem frio, mas eles sabiam que aquilo não era do feitio dele.Os dias foram passando e perceberam que o Everton não parava mais no apartamento. Não o viam tomar banho, fazer a barba ou sequer lavar sua roupa. Ele havia se fechado. Deixou de ser uma pessoa para se tornar apenas um vulto, apenas uma sombra. Estava sempre com a cara fechada, não conversava mais. Começou a beber mais do o normal e quando ia para o apartamento, era possível ver claramente que ele estava bêbado. Sua fisionomia havia ficado dura, sem vida. Apesar de não falar mais sobre si, tanto Bruno quanto Ruy sabiam que ele não ia mais trabalhar e nem estudar. Nos dias que dormia no apartamento, ele tinha pesadelos que acabavam por acordar a todos. Outras vezes, por causa da bebida, ficava falando sozinho e sempre passava mal, vomitando no banheiro ou na própria roupa. Ruy era o mais assustado com aquela situação, pois sabia que parte do que estava acontecendo com Everton, era culpa dele. Por causa disso, sem contar para Bruno, ele marcou uma consulta com uma sensitiva. Ela se chamava Mônica. Era uma mulher alta, mais de 1,90, cabelo preto, liso e bem comprido. Devia ter na faixa dos 40 anos, mas seu rosto parecia mais novo. Ela escutou toda a história que Ruy contou sobre o que havia acontecido. Ela perguntava para Ruy o motivo pelo qual eles fizeram aquilo. Chamou ele de irresponsável e mostrou que ele havia colocado a via de uma pessoa inocente em perigo. Mônica era uma mulher sem papas na língua, dizia de forma direta o que precisa ser dito. Ela explicou para ele que o melhor seria levar Everton até ela mas que para tentar melhorar o ambiente no apartamento, Ruy poderia começar acendendendo 7 velas em 7 igrejas e rezar 7 pais nossos em cada uma das igrejas. Explicou que isso não resolveria a questão, pois eles abriram uma porta de algo completamente desconhecido, brincaram de forma imprudente e não se sabe o que passou por aquele caminho que foi aberto. Isso poderia trazer consequências inimagináveis para quem recebeu aquele espírito, como para quem está ao redor. Mônica pediu a Ruy que ele voltasse a falar com ela após ter ido às igrejas, para contar se algo mudou. A noite, Ruy aproveitou que Everton não estava no apartamento e conversou com Bruno sobre o que tinha feito. Explicou toda a conversa com teve com a sensitiva e perguntou o que ele achava. Bruno não sabia muito bem o que dizer, afinal sempre foi um cara muito cético quanto a existência de espíritos, possessão, anjos ou demônios, mas depois de tudo que ele tinha visto, não conseguia dizer muita coisa, mas achou que algo deveria ser feito sim, pois o clima dentro do apartamento estava péssimo, pesado, algumas coisas não estavam mais funcionando. Nenhum deles estava mais conseguindo estudar ou pensar em qualquer outra coisa. Era como se algo ficasse perturbando eles o tempo inteiro. Já não era mais prazeroso ficar dentro do apartamento. Ruy começou a ir nas igrejas. Uma a cada dia. Acendia uma vela e rezava um pai nosso, acendia outra e mais um pai nosso e assim por diante. Após a ida na primeira igreja, chegou no apartamento, por volta das 18h e encontrou alguns livros dele no chão. Em um primeiro momento não achou estranho, mas logo depois, Bruno chegou do trabalho e Ruy perguntou a ele se foi ele que havia derrubado os livros? Bruno respondeu que não, que não, que depois que saiu para trabalhar logo cedo, não tinha vindo ao apartamento antes. Bruno disse que talvez tenha sido o Everton, talvez tivesse chateado com algo ou que talvez tenha batido sem querer na estante, mas que o mais provável é que o Everton nem tenha aparecido no apartamento durante o dia e por isso disse que poderia ter sido o vento ou algo do tipo. Ruy levou em conta o que disse Bruno mas ainda ficou intrigado. No segundo dia, após ter ido na segunda Igreja, Ruy voltou para o apartamento e quando abriu a porta, viu que algumas peças de roupa do Bruno estavam no chão. Começou a juntar elas e nesse momento Bruno entrou no apartamento e perguntou a Ruy o que foi aquilo. Ruy explicou o que viu e decidiram conversar com Everton naquele dia, caso ele fosse para o apartamento. Era em torno de uma e meia da madrugada, quando Everton chegou no apartamento. Bruno e Ruy estavam acordados e olharam para o Everton. Ele estava com um moletom com capuz cobrindo os olhos. Não era muito visível seu rosto, mas não parecia ser o Everton, seu rosto estava diferente, envelhecido, cansado e abatido. Everton não comprimentou eles, mas Ruy perguntou se estava tudo bem? Everton balançou a cabeça positivamente mas não falou nada. Com a mesma roupa que havia chegou, se deitou e virou para o lado. Ruy olhou para Bruno e question Everton se por acaso ele havia estado no apartamento mais cedo ou durante o dia. Everton respondeu secamente que não e nem questionou o motivo pelo qual Ruy havia perguntado aquilo. No terceiro dia, Ruy havia ido na igreja bem cedo, saiu quase junto com Bruno. Antes das nove da manhã ele já estava de volta ao apartamento e resolveu que naquele dia não iria trabalhar no escritório. Ficaria em casa, já que seu trabalho proporciona tal flexibilidade. Enquanto estava atualizando alguns arquivos em seu notebook, ele ouviu alguns barulhos de vidro. Olhou a sua volta e não viu nada, voltou ao seu trabalho mas em seguida ouviu novamente o barulho. Se levantou e foi seguindo o som. Ao chegar na geladeira, percebeu que o barulho vinha de dentro dela. Ao abrir a porta da geladeira, no mesmo momento, a garrafa de vinho que estava na porta, estourou sem motivo aparente e junto com ela, um vidro de maionese e também uma garrafa de suco de laranja, tudo que era vidro dentro da geladeira estourou no momento em que Ruy abriu a porta. Só deu tempo dele virar o rosto e tentar proteger colocando um braço na frente, mesmo assim, vários cacos fizeram pequenos cortes em seu braço e alguns pegaram também no seu rosto, deixando pequenos arranhões, mas nada muito sério. Após aquilo, tudo que estava em cima da mesa onde ele estava trabalhando, foi parar no chão. Seu notebook, caderno, caneta, telefone e papéis. Como se alguém tivesse jogado tudo ao chão. Aquilo tinha deixado ele muito assustado, tanto que ele pegou seu telefone no chão e ligou para Mônica e explicou o que estava acontecendo. Ela explicou para ele que a entidade deveria estar furiosa com o que ele estava fazendo e estava dando um recado de que ele não deveria continuar, mas ela insistiu em que ele não parasse. À noite, ele falou com Bruno sobre o que aconteceu e perguntou para Bruno se ele poderia ir junto com ele nos outros dias, em outras igrejas. Bruno explicou que não tinha como, por causa do trabalho, mas que ele iria rezar o pai nosso todos os outros dias. Era o que podia fazer. Os outros 3 dias seguiram do mesmo jeito, com coisas estranhas acontecendo, objetos caindo e sendo jogados do nada. No último dia, antes do Ruy sair para ir na última igreja, Everton entrou no apartamento e disse que precisa falar com ele. Ruy achou totalmente estranho ele aparecer do nada, em um horário que normalmente ele não estaria em casa. Os dois sentaram na mesa e Everton, sem enrolar, saiu dizendo para ele não ir na igreja. Ruy não entendeu como ele poderia saber daquilo, afinal, ele só havia conversado com Bruno. Será que Bruno teria contado para o Everton? Não parecia ser o Everton dizendo aquilo, não eram as palavras que ele usaria, assim como não era a voz dele, estava diferente. Ruy olhava nos olhos do Everton, mas o olhar dele parecia vazio, sem vida, ele sequer piscava. Ruy se atreveu a perguntar quem estava pedindo aquilo? Para ele não ir na igreja. Everton simulou um quase sorriso, meio sarcástico, de canto, baixou seus olhos e respondeu a pergunta de Ruy com outra pergunta. Se fazia diferença quem estava ali. Ruy não respondeu e continuou olhando para Everton. Apenas dois segundos se passaram e Everton voltou a pedir para Ruy não ir na igreja. Caso ele fosse, ele teria que se responsabilizar por tudo que aconteceria dali em diante. Ruy disse que tudo que ele queria era ajudar seu amigo para que tudo pudesse voltar ao normal. Everton falou que não era justo ele (Gustavo) ter morrido enquanto Everton curtia a vida. Disse que ele nem mesmo soube aproveitar a vida. Gustavo continuou dizendo que ele teria feito tudo diferente e poderia estar gozando de uma vida farta ao invés daquela vidinha sem graça que Everton estava vivendo. Everton se levantou e estava saindo do apartamento, quando se virou para Ruy e disse que o aviso havia sido dado. Ruy não deixou de ir na igreja, fez todo o ritual e depois foi até a casa de Mônica. Teve que esperar quase duas horas até ser atendido, pois não tinha marcado hora. Quando finalmente foi recebido, ela disse para ele que podia perceber quão grave estava a situação. Ruy disse para ela que conversando com o Everton, não parecia estar conversando com uma criança de 11 anos, mas sim, com um adulto cheio, alguém cheio de maldade. Ela explicou que realmente não era o Gustavo que estava ali, mas que aquela entidade usava suas memórias, sua luz, inocência e sua morte precoce para reivindicar sua volta através da porta que vocês abriram, na verdade, era um ser maligno que havia passado no portal aquela noite e não o espírito do Gustavo e por isso não podia confiar em nada do que ele disse. Mônica disse não ter capacidade para tratar aquele assunto mas passou para Ruy, o contato de uma amiga dela e pediu para ele contatá-la o quanto antes. Ela também iria falar com ela explicando a situação e solicitando que ela ajudasse Ruy. No dia seguinte, Ruy sentou com Bruno e falou o que estava sentindo. Falou sobre se sentir culpado por ter colocado o Everton e o próprio Bruno nessa situação e que não sabia mais o que fazer. Estava com muito medo de ter ferrado com a vida dos amigos e isso estava deixando ele muito mal. Bruno escutou cada palavra de Ruy e falou para o amigo que era a culpa, o grande inimigo deles, que eles precisavam combater, antes de mais nada, esse sentimento que estava deixando eles enfraquecidos. Pediu para que Ruy não se lamentasse mais e que agora era hora de mudar o que vinha acontecendo nos últimos dias. Depois da conversa que tiveram, Ruy se sentiu mais aliviado e contou sobre a pessoa que a sensitiva Mônica havia falado. Ele disse que iria ligar para ela e pedir ajuda. Quando ligou para o número, do outro lado da linha, uma voz bem rouca e envelhecida atendeu. Ele pediu para falar com a Senhora Margot e a voz respondeu que era ela mesma. Quando Ruy começou a contar o caso, ela interrompeu e disse que sua amiga, Mônica, já tinha colocado ela a par da situação. Ela pediu o endereço do apartamento deles e disse que estava a caminho. Ruy perguntou sobre o valor do serviço. Margot disse para ele que o preço seria dado depois que tudo tivesse acabado e isso deixou Ruy apreensivo mas ele não questionou mais e assim ficou marcado. Um pouco depois das 19 horas, a Sra. Margot tocou o interfone do apartamento. Bruno foi quem abriu a porta. Viram uma mulher que aparentava ter uns 50 anos, cabelo muito curto, quase raspado, o pouco de cabelo estava pintado de um azul bem vivo. Uma pele morena bem marcada pelo tempo, rugas, e sinais que deixavam ela parecer mais velha do que realmente era. Apesar disso, usava brincos em forma de argola bem grandes, pareciam ser pesados, pois além de grandes, não eram finos. Usava um vestido grande e largo, apesar de não parecer ter muito peso. Ela parecia ter 1,60 mt de altura, em torno de 65 Kg de peso mas seu vestido não deixava bem claro, pois ele era muito largo. Se Bruno e Ruy pudessem fazer uma comparação, acredito que seria com uma cigana. Sim, realmente, ela parecia bem uma cigana. Ela tinha piercings nas orelhas, no nariz, nas sobrancelhas e também no lábio inferior, as tatuagens pelo braço e no pescoço faziam com que os guris tivessem respeito por ela. Ela se sentou junto a mesa e perguntou se eles tinham algo para beber. Eles que tinham e ofereceram água, suco e leite. Ela se mostrou bem decepcionada e perguntou se não tinham algo de verdade para beber. Eles se olharam e disseram que não. Ela ainda chateada, disse que tudo bem e puxou de sua bolsa uma pequena garrafa de garrafa de vidro com um líquido meio dourado, meio cor de caramelo e eles perguntaram se era cerveja, mas ela disse que não e que não vinha ao caso, o que ela estava bebendo. Ruy disse a ela que não sabia se o Everton iria aparecer lá, mas ela respondeu para eles que sim, que ele iria até lá, pois sabia que ela estaria no apartamento. Ela tirou alguns objetos de sua bolsa, como um charuto, um lenço vermelho, um canivete e um isqueiro em formato de dragão. Ela falou que eles deveriam permanecer no apartamento quando o Everton chegasse mas que não deveriam ter medo do que iriam presenciar. Bruno falou que depois do que eles passaram, não sabia se algo mais poderia assustá-lo. Ela se virou para ele e respondeu que sim, que havia muito mais coisas para se assustar, muito mais do que ele imaginava. Alguns minutos depois, a porta da frente se abriu e viram que Everton havia chego. Em voz alta, a cigana Margot falou que ele havia chego mais cedo do que ela esperava. Everton fechou a porta, olhos para Bruno e Ruy e depois para a senhora sentada, acendendo seu charuto. Ele esboçou um sorriso de canto e disse para aquela senhora que ela deveria ir embora. Em resposta, a cigana disse que iria sim, mas depois de deixar o guri chamado Everton bem e livre desse fardo. Em poucos minutos, a fumaça do charuto tomou conta do apartamento inteiro, mas ele não fazia mal, os guris não sentiam o cheiro, ao contrário de Everton, que começou a tossir muito e não conseguia falar direito. Agora a voz que saia da boca do Everton, não era mais a dele, era uma voz mais arranhada, mais grave. A voz começou a amaldiçoar a cigana, começou a se debater e falar que não sairia dali, que era um direito dele. Enquanto isso, a cigana dizia algumas palavras bem baixinho, repetindo elas, como uma sequência. Não parecia ser em português, mas naquele momento, tanto Bruno como Ruy não conseguiam pensar em outra coisa. Estavam apavorados com o que estavam presenciando Em pouquíssimo tempo já não era mais possível ver nada dentro do apartamento, a fumaça do charuto se tornou tão densa quanto um nevoeiro e no segundo seguinte, foi possível ver dois pontos vermelhos atravessando a fumaça. Aqueles pontos eram os olhos do Everton, mas eles pareciam que estavam lançando fogo através deles. A cigana disse que agora ele estava em sua forma original, a fumaça deixava aquela criatura cega e para enxergar, ela precisava ir além do corpo do possuído, era preciso se manifestar para poder enxergar. A entidade falou de forma diabólica que aquilo era brincadeira de criança, que não iria adiantar nada e que Everton iria morrer rapidamente. A Cigana pediu para Bruno e Ruy segurarem Everton, pediu para eles não terem medo. Quando eles conseguiram sair do estado de horror, conseguiram encontrar os braços do Everton e seguraram eles, mas Everton estava com uma força além do normal, eles estavam com dificuldade de manter aquela situação. Nesse momento, Margot, pegou seu canivete, fez um corte no braço do Everton e deixou o sangue que escorreu cair no lenço vermelho. Quando ela terminou, tanto Bruno quanto Ruy foram jogados para o outro lado da sala com força. Foi possível ouvir a voz da entidade gritar alto a palavra não, enquanto a cigana queimava o lenço vermelho com o sangue do Everton. O lenço queimou muito rápido e quando virou pó, o corpo do Everton caiu no chão, desacordado. A fumaça se dissipou rapidamente e por alguns momentos, todos ficaram em silêncio olhando para Everton. Bruno perguntou o que vinha agora e a cigana Margot, disse que era necessário deixar ele acordar para saber como ele reagiria. Ela começou tomou mais um gole da sua bebida e foi embora, mas antes de ir, disse que para os garotos aguardarem uma ligação dela. Não havia mais o que fazer naquele momento. Eles colocaram Everton na cama dele, com a roupa que ele estava vestindo antes e ficaram conversando sobre tudo o que havia acontecido naquela noite. Eles não tinham se dado conta, mas mais de três horas haviam se passado desde a hora que a cigana entrou no apartamento. Como era possível aquilo? Parecia ter passado tão pouco tempo. Bem que eles tentaram dormir, mas depois de uma noite daquelas, como ter sono? Além do medo que ainda sentiam, a adrenalina e tudo mais. Impossível dormir. Na manhã seguinte, por volta do meio-dia, Everton começou a acordar. Bruno e Ruy estavam em suas camas, ainda com a roupa do dia anterior, eles haviam conseguido dormir depois de muitas horas após o acontecido. Everton se levantou, tomou uma água e começou a preparar seu café. Com o barulho Bruno acordou e deu bom dia para Everton. Para sua surpresa, Everton respondeu ao bom dia e perguntou o que tinha acontecido, pois o apartamento estava uma bagunça e fedendo a charuto. Ele perguntou para Everton se ele não lembrava da noite anterior, mas Everton respondeu com a cabeça que não. Everton disse que os últimos dias foram muito ruins para ele. Disse que se sentia tão cheio de culpa, que aquilo que havia acontecido depois do jogo do copo, mexeu com ele. Bateu uma depressão, não tinha mais vontade de nada, mas que não conseguia sair daquela situação, era como se ele estivesse sendo controlado por alguma coisa maior que a vontade de seguir em frente. Ele estava pensando demais nos amigos que morreram no acidente, mas que, de alguma forma, ele entendeu que ele não deveria se sentir daquele jeito por ter sobrevivido, pelo contrário, ele deveria comemorar a vida, da mesma forma que seus amigos teriam feito, que estar vivo era uma forma dele poder homenagear seus amigos e manter a memória deles vivas. Com a conversa que vinha da cozinha, Ruy acabou acordando e foi se juntar aos amigos. Everton começou a coçar o braço, quando percebeu que o moletom estava rasgado e estava sujo de sangue. Puxou a manga e viu um curativo no braço. Ruy disse a ele que havia feito o curativo. Eles sentaram na mesa onde tudo havia começado e começaram a conversar sobre a noite passada. Mais uma vez, Everton não conseguia acreditar em tudo ouviu Bruno falou para Everton que lá no começo, mesmo que ele, o Everton, não estivesse muito a fim de jogar, ele era muito suscetível a receber algum espírito, pois ele era uma alma atormentada, que queria a todo custo se libertar e assim, quando o jogo começou, ele se tornou uma porta aberta. Fora da nossa realidade existe um universo completamente desconhecido, onde o bem e o mal disputam o tempo inteiro e nossos corpos acabam sendo ferramentas para essa eterna guerra, nunca sabemos o que virá do outro lado, por isso que aqui, temos que ser o melhor possível, sem medos, sem culpas, livres de ódio e rancor, justamente para que não possamos ser tomados por algo ruim, maléfico. Everton e Ruy concordaram com Bruno. A tarde se seguiu tranquila e leve, com os amigos conversando e comendo juntos. Falaram sobre muitas coisas e sempre com alegria. Por fim, Everton tomou a decisão de que voltaria para sua família. Disse que precisava rever seus pais, voltar para suas raízes. Precisava clarear os pensamentos. Se abriu dizendo que em alguns momentos pensou em suicídio mas que tudo terminou bem antes que ele mesmo colocasse um fim. Agradeceu aos dois por não terem desistido dele e pediu desculpas pelo tempo que ficou dentro da escuridão. No dia seguinte, com a rotina retomada, Ruy ligou para a Cigana Margot. Quando ela atendeu, ele perguntou sobre o valor. Queria saber quanto ele e Bruno deveriam pagar a ela. A cigana perguntou para Ruy se ele lembrava que ela havia dito que o valor seria dado quando tudo tivesse terminado? Ruy respondeu que sim. Então a cigana disse, pelo telefone, que ainda não havia terminado e desligou o telefone. Mariano P. Machado