Sorte minha poder dobrar a quantidade de rivotril, até esquecer o tinder
Depois de meses de uso, descobri o que era óbvio e todo mundo já sabia, menos eu, era oficial: o tinder era, realmente, uma porcaria. Eu desisti, estava claro, o amor da minha vida não estaria ali, e se estivesse, eu não gostaria de conhecê-lo assim. Seria triste, ridículo, e como uma virginiana, eu ligo para detalhes, principalmente se forem permanecer na minha vida.
Depois de continuar ignorando, assim como na época que ainda tinha o aplicado, os caras quais passei meu número, resolvi atender mais um. Sem esperança, sem vontade de sair, e logo, sem fazer ideia porque estava fazendo aquilo, se na minha cabeça já tinha aceitado que a ansiedade sempre me atrapalha em primeiros encontros do virtual para o “real”, e me provoca crises ridículas, me tornando extremamente melhor em primeiros encontros por acaso, pós primeiras bebidas, sem pressão.
Na continuação de uma conversa que iniciei no tinder, semanas depois, eu queria poder dizer pro o cara “desculpa, eu realmente não estou interessada em pessoas deste aplicativo, talvez se algum dia a gente se ver por ai, do nada, ainda irei querer algo, principalmente por ter adorado tuas coxas, e o cabelo diferente, junto daquela foto que você estava fantasiado de coringa, eu acho, e não estava de sunga, até porque eu, definitivamente, não gosto de sunga”. Seguindo minha vidinha, continuei a conversa e não consegui dizer nada sobre não querer ter algo com alguém assim, talvez pelo meu nível de “pessoa extremamente legal, que não costuma dar foras, apenas ignorar quando não quer alguém e reza pros sem graças não chegarem nunca em festas, mesmo nunca indo à festas”.
Por incrível que pareça, e como sempre acontece, só porque estava certa de não repetir mais um errinho tosco, eu repeti. Como não estava planejado. Desci e subi escadas, ignorava e voltava, queria ver até onde era capaz de enrolar com aquilo sem precisar terminar, até onde um cara iria por um encontro legal. Não tendo mais escapatória e me mostrando uma mulher madura e segura, que odeia joguinhos, chamei logo pra sair. Simples, com algo pra ficar alterada e conseguir lidar com tudo, quem sabe até relaxar, e disposta a estragar tudo, como sempre faço, sem querer. Mas putz, na sexta anterior ao encontro, surgiu outro lugar pra ir. Desmarquei horas antes do combinado, mesmo já tendo planejado tudo tão bonitinho e assustador acontecendo na minha mente, pela milésima vez, como se fosse a primeira. Disse que iria pra tal lugar, se ele quisesse aparecer, tudo bem, ele disse que pensaria. Não visualizei a mensagem e sai. Ele foi. Não nos falamos porque no fundo, continuo sendo uma criança de 12 anos, ou então, só aquela menina sem idade mesmo, que era feinha e obesa, rejeitada e insegura. Eu não fui, e ele também não veio. Eu não fui, porque não sou Capitu, como gostaria de ser, e se não foi falar comigo, foi porque não gostou. Então, eu não fui, porque eu não esperava que ele aparecesse, mas esperava que fosse falar comigo. Eu não fui e estava certa que havia acabado o que nem tinha começado. Eu havia conseguido, e estava triste, porque parte de mim, mais uma vez, planejou uma vida ao lado de alguém.
E agora são 03:32 da manhã, e estou esperando o tempo passar desesperadamente, e ao mesmo tempo, que não passe, porque logo mais, em alguns dias, estarei de volta na cidade e no colo dele, mas antes tomarei um rivotril, talvez dois, porque ele me quer, e eu gosto de problemas, e de ser uma mulher madura, como quase sou, mas não, não nos conhecemos no tinder, e sim na praça, entre olhares e algumas artes, se perguntarem.