Esse ano, incrível novo ano, pelo menos perto do ano passado, mas ainda assim eu não vim exatamente citar promessas que fiz para mim mesma, porque nem isso eu quis fazer, e agora falo como se fosse tosco e eu fosse conseguir deixar de me cobrar, o que claramente não vai acontecer e no fundo (e nem tão fundo) eu sei disso.
Pensei em aproveitar que voltei para a fase de escrever e diversificar, não falar sobre como me senti quando desisti de paixão, amor e essas histórias, que mesmo fazendo sentido em contos, preciso assumir: nunca fará sentido para mim, pelo menos não mais. E é por isso que eu vou tentar uma crônica, como se anteriormente por ser clichê não tivesse sido uma crônica. Eu realmente não sei, já que ser clichê não apaga fazer parte do cotidiano.
Sendo assim, por qual razão deixar para lá o que me dói? Esse é o primeiro ano que é meu primeiro ano passando uma virada boa e livre, mesmo que antes disso eu tenha passado raiva e julgado diversas pessoas. O tanto que sinto quando vejo falarem de forma banal sobre o diagnóstico de TDAH não está escrito. Basta abrir um vídeo qualquer sobre o assunto que surgem várias pessoas falando que por uma característica, que as vezes até mentira é, que possuem TDAH, como se fosse legal ou fácil. Vocês estão buscando entrar na moda de algo que claramente atrapalha a vida de quem realmente tem? Quem são vocês?
Antes da virada eu entrei em meltdown e só reconheci quase três dias depois. Eu pesquisava, dentro do meu hiperfoco pulsando dentro de mim, do meu peito, e era desespero puro. Sentia fortes dores na cabeça, raiva e muita vontade de chorar e ir (eu fui) mais além e dentro exatamente do que é o meltdown.
Eram histórias sobre amizades e como o neurodivergente possui dificuldade em manter e fazer manutenção de amizades. E eu me questionando, se meu hiperfoco é autismo por qual razão ler sobre e entrar no meu próprio diagnóstico de tdah me deixava assim? Estava eu tentando entender como aquelas mesmas pessoas que falavam sobre não terem amigos iam sair passar o ano novo com os mesmos. Simplesmente, a conta não fechava e a tristeza aumentava. Eu sempre busquei migalhas disso tudo e não faz sentido, menos ainda rir da realidade que machuca e rasga.
Logo concluo que pouco se fala de como é difícil separar totalmente o autismo do tdah porque ambos são atípicos e mais que isso: muitas vezes comorbidade do outro. E é assim, nesse exato momento quando o hiperfoco bate na porta e encontra meltdown que vemos as consequências, mesmo o diagnóstico trazendo a tal liberdade.
E focando na parte da liberdade e sensação de dor, apesar de tudo, eu agradeço meu diagnóstico e a ajuda que me trouxe. Pois por anos eu não entendia como eu, uma pessoa sóbria, e cada saida voltava exausta e sem condições de realizar nada no dia seguinte. A comparação vinha e eu não tinha respostas. Saia de casa com a sensação de culpa, medo e uma ansiedade absurda, chegava e mesmo com conhecidos me sentia vazia e sozinha. Como era possível alguém se sentir assim? O que havia de errado em mim? Por qual razão era a única que levava mais de uma semana para me recuperar e me sentir bem? Mesmo quando o tema era algo parte de mim e do meu gosto. Eu não conseguia entender.
Finalmente, entrada do ano de 2024, eu encontrei alguém para passar a virada comigo, era uma festa e minhas interações são limitadas, principalmente quando envolve contato físico com desconhecido e interpretar expressões, e sim, isso tudo sendo completamente comunicativa, verbal.
Deu o horário e eu suava frio nervosa, quem eu iria abraçar naquele momento? Quem eu deveria abraçar? Os amigos da minha única amiga? Eu realmente não sabia. Minutos depois busquei um canto, sentei e ali fiquei, forçando demonstrar estar confortável no meio de tantos bêbados, com os olhos brigando comigo para poder soltar a vontade imensa de chorar que senti desde que tinha começado a me arrumar. Fui embora, tinha planos para o dia seguinte, finalmente iria para uma casa que gostava, tinha saído cedo da festa. Mas meu corpo travou, não aguentou e desistiu. E é assim que vive um neurodivergente com diagnóstico tardio. E foi com essa dor e dúvidas, que apesar do meltdown no segundo dia do ano, eu agradeço por ter me escolhido na entrada de 2025 e respeitado minhas vontades e limites para viver o dia seguinte, sem cometer o mesmo erro e sobrecargas que vivi anteriormente.