Resenha #135: As Perguntas-Antônio Xerxenesky
Ano: 2017 / Páginas: 184 Idioma: português Editora: Companhia das Letras
Sinopse:
Alina enxerga sombras e vultos desde criança. Doutoranda em história das religiões, especializada em tradições ocultistas e aferrada à racionalidade que tudo ilumina, ela se acostumou a considerar as aparições como simples vestígios de sonhos interrompidos. Certo dia, um telefonema da delegacia desarruma sua rotina de tédio programado. A polícia suspeita de que uma seita vem causando uma onda de surtos psicóticos em São Paulo. A única pista disponível é um símbolo geométrico desenhado por uma das vítimas. Intrigada e ansiosa para fugir da rotina, Alina decide investigar por conta própria um mistério que a fará questionar os limites entre razão e religião, cultura e crença. Em 'As perguntas', Antonio Xerxenesky costura o tédio da vida cotidiana com o desconforto do horror em um livro repleto de referências ao universo dos filmes, da música e do ocultismo.
Resenha:
“Houve uma época em que as noites eram para dormir, um sono profundo, sem sonhos. Eu não consigo dormir. Fico acordado a noite toda, até amanhecer. […] Neste período, os pesadelos vêm até nós. E, se estamos acordados, sentimos medo.Ingmar Bergman, A hora do lobo”
A palavra NOITE no dicionário significa:
horário em que está escuro, por falta da luz solar, e em que geralmente as pessoas descansam ou dormem. Contudo, para Alina, era nesse momento em que tudo começava a ficar assustador, quando os pesadelos se iniciavam e sombras sinistras surgiam para atormentá-la.
Tudo começou na sua infância, quando ela acordava gritando, urros tão desesperados que acordavam seus pais e seu irmão. Os gritos iam diminuindo até ela compreender e localizar a linha divisória entre o mundo dos sonhos e a realidade, mas mesmo depois de acordar, ela continuava enxergando as sombras no quarto. Seu pai, no alto do seu cientificismo, explicava que o cérebro demora um pouco para entender que não está mais sonhando.
Alina não tinha muita fé em Deus e sentia que a sua religiosidade era apenas algo de hábito, que nunca fora forte e logo iria desaparecer. Mas para a sua sorte, a frequência dos acontecimentos foi diminuindo com os anos, até quase cessarem e ela esquecer-se do assunto, associando os gritos a um passado distante. As ideias de seu pai foram ganhando espaço, ela acordava, via as sombras, tomava um susto inicial, mas não se deixava vencer pelo desespero. Porém ela sentia que não estava totalmente livre delas e que se trouxesse o assunto a tona, talvez na noite seguinte, ela voltaria a receber as visitas.
“ Fechou a porta e ficou no escuro por um tempo, gotas de água escorrendo do cabelo e pingando no chão, sentindo o cheiro um pouco rançoso de um quarto que costuma permanecer fechado durante a semana toda, e tentava discernir a silhueta da cama, do armário, sentindo-se uma invasora num local povoado de fantasmas.”
Por conta das sombras, Alina nunca fora fã de filmes de terror, mas tudo mudou nos seus vinte anos. Após assistir um filme chamado Suspiria, ela desenvolveu uma grande fixação pelo gênero e queria entender o que a interessava tanto naquelas histórias sobrenaturais de covis de bruxas e rituais macabros. E foi a partir deste momento que ela decidiu fazer faculdade especializada na história da religião e religião comparada, tornando-se uma pesquisadora que estuda a persistência das doutrinas e crenças do ocultismo no contexto urbano e contemporâneo. Até que, por conta das pesquisas, sua obsessão fora domesticada e até mesmo as sombras, bruxas, contatos com outros planos de existência inexplicáveis, tudo ficou preso numa janela de racionalismo.
Após se mudar para São Paulo, Alina percebeu que não queria mais ser uma pesquisadora que ia atrás de assuntos que não ajudariam a pagar suas contas, com isso, ela muda drasticamente a sua área de trabalho, optando por trabalhar como editora de vídeos institucionais em uma produtora e sair à noite para baladas e afins com seus amigos.
Contudo, aos vinte e nove anos, Alina não apenas se tornara uma mulher cética, cujas sombras mesmo que ainda aparecessem no seu apartamento, eram constantemente ignoradas, mas também estava diante de uma vida tediosa e monótona, ansiando que algo incomum acontecesse.
Enquanto estava no trabalho, Alina recebe uma ligação de uma delegada que exigia a sua presença para ajudar num caso. Um homem fora encontrado no centro de São Paulo, gritando coisas desconexas, atravessando a rua no meio dos carros e agindo de uma forma terrivelmente agressiva. Demonstrando estar completamente fora de si e incapaz de responder perguntas simples, contudo ele não possuía nenhum histórico de doença mental.
Outros casos como esse foram apresentados em outras delegacias, pessoas de classe média que constavam no sistema como desaparecidas e que reapareciam nesse estado. Como se estivessem desconectadas com a realidade e não voltassem mais. Ninguém conseguia explicar o motivo, mas isso não era o pior, e sim, quando as vítimas desenhavam um símbolo de nove triângulos apontando para baixo que por sua vez acabavam formando um triângulo maior. Usavam qualquer material que tivessem, seja caneta e até mesmo as próprias unhas, como o homem havia feito no seu corpo, rasgando a própria pele.
“O fato de que tinha uma seita, ou culto, ou grupo, ou seja lá comovocê quiser chamar”, disse Carla, “usando esse símbolo, me fez pensarque algo muito maior estava em jogo. Não apenas uma droga nova, masum culto perigoso. E isso me deixou preocupada, muito preocupada. Nãoquero abrir o jornal uma manhã dessas e deparar com uma mensagemsobre sacrifício de crianças.”
Por conta da sua formação, Alina fora chamada para identificar o símbolo, contudo ela nunca tinha visto nada parecido e se sentiu inútil por não poder ajudar. Voltando a empresa, Alina não conseguia se concentrar, por isso, ela resolve pesquisar por conta própria até que encontra um site, falando sobre bruxaria e rituais, cujo fórum possuía o estranho símbolo que as vítimas desenhavam. Tomando coragem, ela envia o e-mail falando sobre as suas pesquisas e no mesmo dia ela recebe uma proposta dos administradores para participar ou testemunhar um ritual bimestral, caso ela quisesse aprender algo de fato sobre os assuntos que ela estudava.
A partir deste momento, Alina entra numa situação perigosa, assustadora e ao mesmo tempo inesquecível que irá mudar a sua vida mais uma vez e a fará questionar suas crenças e principalmente a sua sanidade.
O enredo começa de uma forma bem envolvente, principalmente quando as sombras surgem e dão um ar bem sinistro e intenso à trama. E a partir do momento das investigações, eu não consegui mais largar o livro.
A mudança de narrativa foi um ponto interessante, pois ela começa em terceira pessoa e depois muda para a primeira pessoa, com a Alina contando a sua própria história. Porém eu esperava mais da história e confesso que fiquei com um ponto de interrogação gigante na cabeça ao terminar, cheguei até a pensar que estava faltando páginas haha. Pois o autor optou por colocar o final em aberto para que o leitor pudesse refletir sobre os temas. Eu queria contar mais para vocês, mas seria spoiler haha. Apesar disso, foi uma boa leitura e a obra me faz refletir bastante sobre as questões de religião em relação à humanidade.
Indico aos leitores que querem sair da sua zona de conforto e embarcar num suspense com direito a terror psicológico haha. E aí, gostaram da resenha? Deixem nos comentários o que vocês acharam do livro!









