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Criadores explicam a origem da piada 'Não me chame de Shirley'
Há poucos filmes com frases tão memoráveis quanto as da paródia de 1980 'Apertem os Cintos... o Piloto Sumiu!' — e entre as muitas piadas e ironias presentes no longa, a mais famosa delas é o momento em que o relutante piloto Ted Striker (Robert Hays) diz ao Dr. Rumack (Leslie Nielsen), “Surely you can’t be serious,” que em português seria algo como "Certamente você não pode estar falando sério." Eis que Rumack responde, "Eu estou falando sério — e não me chame de Shirley," já que a pronúncia do nome Shirley é semelhante à da palavra surely.
Como parte da nossa série de uma semana com as 100 piadas que definiram o mundo da comédia, nós mergulhamos nas origens e na execução desta cena — e na mecânica geral por trás de 'Apertem os cintos' — com o trio que escreveu e dirigiu o longa, Jim Abrahams, David Zucker, e Jerry Zucker.
Qual foi a origem da frase "Não me chame de Shirley"? Jerry Zucker: A origem desta piada é semelhante a de muitas outras presentes no filme: enquanto nós estávamos escrevendo, costumávamos assistir a muitos filmes antigos e sérios que tinham vários diálogos excessivamente dramáticos. Nós falávamos, "Espera, espera, espera. Pare a fita," e voltávamos até a cena acrescentando a nossa piada. Foi em um destes momentos que alguém realmente falou "Certamente você não pode estar falando sério,"
David Zucker: A outra pessoa pode até ter dito, "Eu estou falando sério." Mas nós acrescentamos o "Não me chame de Shirley."
Vocês faziam isso para criar muitos dos diálogos? Jerry Zucker: Sim, bastante.
Jim Abrahams: Constantemente. Há uma fala no [suspense de 1957] 'Entre a Vida e a Morte' que diz — como é a fala mesmo?
Jerry Zucker: “Aeromoça, você é capaz de lidar com alguns fatos desagradáveis?" E então, em 'Entre a Vida e a Morte' ela responde "Sim," mas no nosso filme ela diz "Não."
David Zucker: Ou "Nós precisamos de alguém que não apenas saiba pilotar este avião, mas que não tenha comido peixe no jantar."
Abrahams: Essa é uma fala real! É uma fala de 'Entre a Vida e a Morte' escrita por Arthur Hailey.
David Zucker: Em 'Entre a Vida e a Morte' todas as pessoas que comeram peixe em um avião, inclusive os pilotos, passaram mal.
Jerry Zucker: Nós colocamos esta fala no filme, literalmente.
O que você se lembra das filmagens da piada "Não me chame de Shirley"? Abrahams: Bom, a Paramount Pictures estava apreensiva em ter três diretores estreantes trabalhando juntos em um filme.
David Zucker: O nosso contrato dizia que eles poderiam nos demitir após uma semana de trabalho.
Abrahams: No final das contas, a cena com "Não me chame de Shirley" foi filmada no primeiro dia. Quando a Paramount Pictures assistiu às tomadas do dia e viu aquela piada e a forma como ela se desenrolou, eles ficaram aliviados. Eles finalmente entenderam o conceito e se sentiram muito mais confortáveis para lidar conosco.
Jerry Zucker: Nós recebemos uma ligação do tipo, "Ah, agora nós entendemos." Eu acho que antes eles haviam dito, "Ok, você pode ter [Robert] Stack, [Lloyd] Bridges, [Leslie] Nielsen, e [Peter] Graves,” mas eu não acho que muitas pessoas entenderam o que nós estávamos fazendo colocando estes atores sérios no elenco até que viram o resultado.
David Zucker: Era um conceito radical. Nós estávamos fazendo uma comédia sem comediantes. Eu acho que o estúdio aprovou o projeto pensando que fosse algo como 'O Clube dos Cafajestes' em um avião, e acabou sendo algo totalmente diferente do que eles imaginavam.
Jerry Zucker: É uma frase que muitas pessoas diferentes poderiam ter dito, e teria sido engraçado — as pessoas teriam entendido. Mas eu não acho que ela seria lembrada até hoje da mesma forma se não fosse pela forma como Leslie Nielsen a disse.
David Zucker: Este é uma boa questão. Nós amamos Bill Murray e pessoas que fazem comédia bem, mas não teria sido a mesma coisa se um comediante dissesse aquela fala.
Quais instruções vocês deram a Leslie para aquela cena? Jerry Zucker: Eu acho que nós mostramos 'Entre a Vida e a Morte' a ele antes porque queríamos que ele visse o estilo. Nós dissemos a todos que ser sério não era suficiente, porque eles acham que estão sérios mas ainda dão uma piscada. Nós pedimos que eles atuassem como se não soubessem que estavam em uma comédia. Como se ninguém tivesse dito isso a eles. Assim como Leslie tinha atuado em 'O Destino de Poseidon' ou em qualquer outro filme ou programa de televisão que tivesse feito antes. Leslie, mas do que ninguém, realmente entendeu e se divertiu fazendo isso. Ele amou. Durante toda a filmagem ele não precisou de muitas instruções em relação à performance.
David Zucker: Ele simplesmente pulou na água e nadou. Ele sabia o que estava fazendo.
Abrahams: Você pode intercalar cenas de 'O Destino de Poseidon' com a sua atuação em 'Apertem os Cintos' e não vai conseguir distinguir entre os dois, em termos de performance.
Aquela fala é seguida quase imediatamente por outra piada, a parte em que Ted diz, "É um tipo completamente diferente de voo," e Rumack e Randy repetem a fala juntos. Muitas cenas do filme são assim. Como vocês se asseguraram de que o longa não ficasse com uma quantidade exagerada de piadas? Jerry Zucker: Demorou um tempo para que nós conseguíssemos vender o filme, e continuávamos acrescentando uma piada atrás da outra. Se a piada conseguisse sobreviver desde o momento em que foi escrita até a hora em que finalmente fosse filmada, então ela provavelmente era uma boa piada. Mas isso era parte da nossa ideia a respeito do tipo de filme que queríamos fazer: nós queríamos que as piadas fossem muito rápidas.
David Zucker: Durante dez anos antes desse filme nós havíamos participado de um stand up comedy chamado Kentucky Fried Theater, onde as piadas tinham um ritmo muito acelerado. Nós descobrimos que era mais fácil manter o público rindo do que fazer com que ele começasse a rir novamente. Foi assim que chegamos ao ritmo de 'Apertem os Cintos.' Jerry Zucker: Além disso, nesse filme nós sabíamos que não poderíamos confiar somente em um personagem engraçado para transformar uma fala medíocre em algo agradável com a sua expressão. Então era melhor ter outra piada em seguida.
De quanto em quanto tempo vocês assistem ao filme?
David Zucker: Com mais frequência do que você pode imaginar, já que ele está sendo exibido constantemente. Tivemos o aniversário de 25 anos, de 30 anos, de 35 anos. Vários festivais de cinema. Nós literalmente viajamos o mundo mostrando este filme.
Qual piada costuma arrancar mais risadas, em média? David Zucker: Algumas delas, como "Não me chame de Shirley," são quase como quando você assiste a um show e os músicos começam a tocar uma música e o público a reconhece e aplaude. Eu gosto de coisas simples que arrancavam risadas há 35 anos e continuarão fazendo isso daqui a 35 anos. Como quando a aeromoça diz, "Eu tenho 26 anos e não sou casada," e a outra moça diz, "É, eu também estou assustada, mas pelo menos tenho um marido." Esta piada sempre funciona. É tão simples!
Abrahams: Eu já tive muitas favoritas ao longo do tempo. Nos últimos anos a que mais se manteve comigo foi "Você pode me dizer — eu sou médico." Quando escrevemos isso, nem nós sabíamos o que estávamos pensando, mas com o passar dos anos a minha família foi muito exposta à arrogância dos médicos. Seja lá o que permitiu que Leslie dissesse aquilo no filme, "Você pode me dizer — eu sou médico" se tornou uma sátira presente na minha vida.
David Zucker: A risada mais fácil e longa costumava ser quando os repórteres correm para a cabine telefônica. Mas eu acho que, com o passar das décadas, as pessoas não sabem mais o que eram cabines telefônicas!
Jerry Zucker: Às vezes eu gosto das coisas mais antigas. Como Leslie dizendo, "O que está acontecendo aí atrás?" e aí você vê a mulher em estribos e ele segurando um espéculo. Não é a piada mais engraçada do filme, mas é estranha de uma certa maneira. Não é um jogo de palavras claro ou algo assim. Eu sempre gostei de "Todos fiquem em posição de queda."
Na sua opinião qual é o legado de 'Apertem os Cintos' para o mundo da comédia? Jerry Zucker: Uma das vantagens do DVD é que toda nova geração pode ver o filme. É fácil assistir várias vezes. Ele tem um legado maior agora do que quando foi lançado e desapareceu, como todos os filmes.
David Zucker: Eu adoro ir a festas e não precisar me esforçar para ser engraçado. Eu fiz 'Apertem os Cintos!', eu não preciso ser engraçado. Eles riem de qualquer coisa.
Abrahams: Para nós é impossível responder a este tipo de pergunta seriamente porque a chave é justamente não levar as coisas a sério. É isso que queríamos com 'Apertem os Cintos'. Se o filme deixou algum legado, espero que seja esse. Mesmo naquela fala, "Não me chame de Shirley," mostramos que há coisas na cultura e na mídia que nós levamos muito a sério e não precisamos fazê-lo. Eu gosto de pensar, mesmo hoje, que ao ouvirem alguém falando "surely" no noticiário muitas pessoas do mundo todo irão dar uma pequena risada porque se lembram da fala e sabem que não precisam levar tudo tão a sério.
Jerry Zucker: E aí, é claro, também temos, "Você já viu um homem adulto pelado?" Por que esta não entrou no seu Top 100 piadas? Ela não deveria ter sido uma das cem?
Nós tentamos alocar apenas uma piada por obra. David Zucker: Você não acha que algumas obras de arte merecem três ou cinco menções?
Jerry Zucker: Eu pensaria que, se é para fazer as coisas direito, você deveria pegar apenas as melhores falas. Se 'Banzé no Oeste' tem cinco delas, ótimo.
David Zucker: Bom, 'Banzé no Oeste' provavelmente teria uma, mas 'Apertem os Cintos' teria umas 10, você não acha? Mas o que você quiser fazer está bom, eu acho.
Vulture Por Abraham Riesman