A Insustentável Leveza do Che
Buenas tardes, Hingrid! Faz um mês e pouco que eu to aqui e o Mac já tá até querendo corrigir palavras como exatamente pra "exactamente". Um mês longe de casa, cozinhando pra mim mesma, lavando minha roupa, arrumando minha bagunça (ou não), carregando sozinha as sacolas do supermercado, (até comprei uma ecobag linda, marrom com cavalinhos cor-de-rosa, pra ir fashion no mercado!) você deve saber como é isso.
Eu te digo que na maior parte do tempo acho genial (uma palavra que se usa muito aqui pra dizer que uma coisa é legal)! Em nenhum momento ainda me senti abandonada, sozinha, desamparada, sofrendo calada. Não sei se é porque a Argentina é pertinho, mas eu tive uma facilidadezona de me sentir em casa aqui. Meu castellano (se diz castexááááno) já tá naquele nível das pessoas perguntarem "vc já falava antes de vir pra cá, né?". Cof cof, sim, já pode se orgulhar!
Continuando o meu diário retroativo, vou te contar um pouco sobre como começou a minha vida social aqui e sobre Che, o gato presidiário/suicida, mascote do Bigote 17. Che era um gato muito amado e bem cuidado, e tem esse nome, que remete, claro, ao Ernesto Guevara, e também ao "che" que é o equivalente ao nosso "cara". Algo assim: "Cheee, estoy cerca de la estación de subte?". Assim, Che, o gatinho, um dia começou a dar umas surtadas e ficar adoentado. E o Bigote, casa de todo mundo que é, tava recebendo uns franceses uma vez e uma menina comentou que tinha levado um arranhão do gato. Nisso, alguém comentou que o Che podia estar doente e a européia, elouquecida, foi pro hospital e de lá não saiu mais. Ficou internada e ligou dizendo que o Che teria que fazer o mesmo. Resultado foi que levaram o bicho para um internato de gatos com suspeita de raiva, e lá ele ficou por meses, em observação. Ele recebia visitas semanais dos habitantes do Bigote, mas não era diagnosticado tampouco recebia alta. Depois de quase 6 meses encarcerado, Che foi liberto. Ao voltar pra casa, a felicidade era tanta (ou não), que ao caminhar pelas soleiras das janelas, como costumava fazer, um dia, quando não havia passado mais de uma semana de sua volta, o gatinho simplesmente despencou 17 andares, voluntariamente ou não, e assim terminou sua trágica história. Uns dizem que foi desgosto e retaliação por tanto tempo na masmorra, outros dizem que foi empolgação mesmo, de estar em casa de novo. Quando eu terminei de escutar isso tudo, eu gargalhava tanto que chorava. Não sabia se de pena do gato ou de tão perplexa que eu tava com aquela história tão humanesca.
Tragédias felinas à parte, meu primeiro contato com a vida noturna argentina foi num lugar chamado Konex, uma balada que, quando me descreveram, achei que seria totalmente hippie. Seria a noite do Afrobeat e o lugar era um galpão. Cheguei lá, e na fila tinha desde gente com cabelo rosa e piercings, fashionistas com super looks de noite, até claro, hippies sujinhos de dreads e chinelas. Adorei a pluralidade e a democracia da balada. Fiquei impressionada também com o bom gosto das pessoas em se vestir. No geral não tinha gente absurda, ridícula, com tênis de corrida nem vestido Geisy Arruda. Achei muito interessante que o conceito de Afrobeat aqui era uma coisa muito mais misturada com salsa, cumbia, merengue, ou seja, os ritmos deles, mais latinos, mais hispânicos. Se fosse no Brasil, ia descambar pra um macumbão, ou ia ser mais samba. Mas uma coisa eu vi nessa balada, que me deu uma nostalgia infeliz e me fez pensar que gente é gente mesmo, em qualquer lugar do mundo, e não sei porque eu tava com uma ilusão infantil que em alguma coisa aqui os "cerumano" seriam diferentes: colam catotas de nariz nas paredes do banheiro e fazem xixi na tampa, igualzinho. Mundão véio.








