Depois da discussão que tiveram, tinha decidido nunca mais tocar no nome de Nimue em toda a sua vida, mas a promessa não pôde ser cumprida por muito tempo, não quando a cena da jovem sangrando em sua frente continuava em sua cabeça. Por sorte, haviam muitas pessoas ao seu redor que preocuparam-se com sua situação, como Tyler e Nymeria, mas não sabia o que teria acontecido se ninguém estivesse por perto. A notícia tinha a atingido de uma maneira que não sabia como agir, algo totalmente raro tratando-se da Souverain, que sempre sabia o que deveria ser feito. Nunca imaginava que algo assim aconteceria com alguma delas, mesmo tendo a consciência que tinham mudado muito desde a última que conversaram realmente. Começou a fazer o que considerava correto, devido à sua extrema preocupação com o estado dela, acreditando também que tinha muito a ser considerado levando em conta tantos problemas que tinham enfrentado durante o tempo de sua amizade. Deixá-la sozinha a mercê de um destino incerto não era algo que Nadine faria. As visitas começaram a ser diárias, logo após o período das aulas. Não conversavam muito, mas não se sentia desconfortável com o silêncio que pendia, afinal tinham voltado a conversar apenas recentemente, além de terem muitas coisas que permaneciam não resolvidas entre as duas; não cabia a queen bee, no entanto, trazê-las a tona em um momento de fragilidade.
Ao contar o que seus pais tinham decidido a respeito dos segredos que manteve trancafiado por tanto tempo, pensou ter escutado errado o que a outra tinha falado, então permaneceu encarando os olhos claros que fitavam-na de forma dura. Desejava ter poder de escolha, mas não era algo que conseguia controlar. “I have to.” A resposta saiu depois de alguns segundos, sendo acompanhada de um longo suspiro. Queria poder ser a criança rebelde que não ligava para o que os pais diziam, mas infelizmente Nadine se importava demais com opiniões dos outros a respeito de si. Fechar os olhos e fingir que não estava naquela situação péssima era o melhor a ser feito, então forçou um sorriso, segurando a mão da outra com delicadeza. “But don’t think about it. I’m okay, I promise.” Não queria continuar pensando naquilo, não quando Nimue estava por perto. Talvez não devesse ter contado sobre o noivado para a morena, mas não tinha outra opção, afinal tinha certeza que perceberia o anel que brilhava em seu dedo. As duas encontravam-se em momentos completamente diferentes do que anos atrás. Aquelas crianças, que divertiam-se pelos cassinos sem preocupar-se com qualquer coisa além do que estavam vivendo na atualidade, provavelmente já estavam mortas a algum tempo. Eram pessoas tão diferentes que pensar sobre dois anos atrás era quase como se uma eternidade tivesse passado.
+“I’m sorry I gave up on us when you never did.”
A segunda confissão foi ainda pior para Nadine, que não acreditava no que estava escutando. Os olhos da Souverain perderam um pouco do seu tão usual brilho, assim como a destra que segurava a mão da outra apertou um pouco a pele macia alheia. Não queria ter que lidar com aquilo, não tão cedo, mas sabia que teriam que conversar sobre os assuntos pendentes em algum momento. “Você fez o que acreditou que era o correto.” A afirmação saiu de seus lábios de maneira fraca. Tinha sido um monstro terrível para Nimue, arrastando-a para suas vinganças particulares. Não a culpava tanto quanto culpava a si mesma pelo afastamentos súbito entre as duas. Tinha sido tão estúpida que não tinha enxergado o que estava diante dos seus olhos, mesmo que frequentemente se visse se perguntando o que tinha dado tão errado entre elas. A ânsia de liberdade da outra, combinado com a propensão de Nadine de aprisionar as pessoas, eclodiu em um conflito inexorável, mesmo que sentisse vontade de voltar ao que eram. A memória do beijo que compartilharam na viagem tinha se tornado apenas uma lembrança, independente de continuar vívida. Aquilo alimentou por muito tempo o sentimento que crescia durante cada minuto que passaram juntas, os toques que, por mais ingênuos que fossem, a incendiavam por dentro. Mesmo agora, quando as coisas estavam ainda mais complicadas, sentia as borboletas em uma esperança que jamais seria concretizada.
“Por tanto tempo eu te culpei pelo que estava acontecendo na minha vida, mas acho que só me fez perceber o quão sou vazia. Uma casca sem alma apenas existindo.” Confessou sem olhá-la nos olhos novamente, largando a mão da outra, decidindo que o melhor a se fazer era não ter nenhum contato físico. Os dedos brincavam com a aliança em seu dedo, pensando o que deveria fazer a respeito do seu noivado com uma pessoa que sequer conhecia muito bem. Faria o que sempre fez: nada. Talvez fosse o momento perfeito para contar o que estava em sua mente por algum tempo. Nadine nunca sabia quando tinha que manter a boca fechada, principalmente por não relacionar-se com os outros de uma manira muito leve. Os seus relacionamentos, amorosos ou não, eram baseados na intensidade, principalmente pelo seu tempestuoso temperamento. “I loved you, did you know? Por muito tempo, nem lembro quando começou, mas achei que fosse melhor deixar em segredo, não só por não poder contar para os meus pais, mas também porque não queria aprisioná-la no meu inferno. Eu via em seus olhos o tipo de felicidade que eu jamais teria, o que invejava, é verdade, mas também tinha um grande temor. Não queria ser a pessoa que tiraria ela de você, principalmente quando era algo que te fazia tão bem. Contar algo… Seria uma péssima decisão.”
Lá estava a verdade que tinha mantido para si por tanto tempo. É claro que falou como se fosse algo que pertencia ao passado, mesmo que continuasse sendo sua realidade, ainda tentando superar os sentimentos que permaneciam inquietos em seu coração. Sabia que jamais conseguiria isso se ainda olhasse nos olhos que aquecerem-na por tanto tempo e ainda visse o brilho que faziam-na acreditar na bondade. Nimue merecia alguém que faziam com que brilhassem ainda mais, capaz de entregar a felicidade que a deixava extasiada e não o contrário. Não queria ser a pessoa que desistiria, mas o correto seria não incomodá-la mais com seus sentimentos melancólicos a respeito de esperanças tolas que não seriam realizadas. O amor que sentia era o suficiente para que a única coisa que desejasse da outra fosse a felicidade.
[ ⌚ ] my muse recalls their favorite memory with your muse.
“De vez em quando, fico pensando nas nossas lembranças. Parecem ter sido anos atrás.” O café fumegante em sua mão parecia distraí-la dos pensamentos que a atingiam com grande força. Sabia que seus sentimentos não eram correspondidos, mas ainda sim alimentava a esperança com qual convivia há tanto tempo. Lutava contra a paixão que aquecia o seu coração, mas constantemente encontrava-se em frente a outra, envolta de ambos os dramas. Não cabia a Souverain incomodá-la com as emoções que não eram expressas de forma explícita, assim como os pensamentos que continuavam inquietos em sua cabeça. “Aquela viagem que fizemos… Acho que é a que permanece mais vívida, ao mesmo tempo que esquecida. Éramos pessoas tão diferentes. Sempre gostei de arquitetura e estar em contato com tanta coisa foi simplesmente incrível. Assim como o resto.” O anel em seu dedo, mesmo já permanecendo há algum tempo ali, continuava incomodando-a de formas que não conseguia explicar. Perguntava-se quanto tempo demoraria para que a barriga da… Ex amiga? Amiga? Começasse a aparecer. Pelo amor, não sabia nem como chamá-la naquele ponto. “Gostaria que as coisas voltassem a ser como eram, mas é impossível, mas pelo menos serviu como forma de aprendizado para nós duas. Se quiser, futuramente podemos viajar novamente. Nós duas e o pequeno Armstrong.” Um sorriso tímido e incerto apareceu de forma estranha no rosto que era acostumado com a confiança. Não esperava que a outra aceitasse, mas era uma tentativa ao menos.
Morgana deixou um sorriso sincero tomar conta de seus lábios. Não se importava com o que a grande maioria de pessoas pensava dela, mas ainda existiam aquelas que a feririam com seus julgamentos. E, sem dúvidas, Nimue estava inclusa na lista. “Thanks, that means a lot”. Não era de maneira alguma comum pegar a morena em um momento de vulnerabilidade, mas, coma semana que tivera, acreditava que merecia ao menos um pouco dessa liberdade. “Love you too” disse, abraçando a outra.
Nimue. Nymeria não fazia nem a mais ínfima ideia de como se sentir em relação à ex-melhor amiga, seu interior sendo um compilado de emoções conflituosas. Havia a revolta do abandono, ainda agridoce em suas lembranças; Mas os recentes acontecimentos faziam-na pensar que aquele era um assunto que ficara no passado. Havia a gratidão, incitada pela mão estendida em sua direção num momento de necessidade e quando ninguém mais tivera coragem; Mergulhar nessa emoção era tentador, mas danoso demais para um ego já muito abalado. Havia a dúvida. Havia a incerteza. Havia a culpa e a vergonha. E, no meio de tudo isso, havia Nymeria num pijama emprestado, de pé e à porta do quarto da Armstrong na noite anterior ao seu regresso à Trinity. Estava lá desde o fim da tarde, tendo permanecido a pedido do tio de consideração após uma conversa séria, na qual lhe prometera assumir a despesa de suas mensalidades. Era perigoso voltar para a casa de sua avó materna àquela hora da noite; ela concordava. Além disso, seria muito mais prático dormir ali e pegar carona até o colégio na manhã seguinte.
“ --- hm... boa noite.” Disse em tom baixo, curvando os cantos dos lábios num sorriso; demorando-se enquanto observava Nimue; hesitante entre agradecer ou deixar as coisas como estavam e ir silenciosa para o quarto de hóspedes a algumas portas de distância. O corpo se encontrava parcialmente apoiado à parede, como se não quisesse realmente sair dali. // @armstrcng