Por que escolhi esse trabalho? Não tem porque, eu quis. Eu poderia ter escolhido outra coisa, mas eu escolhi ele. Nem todo mundo escolhe, mas eu escolhi ele, e talvez ele também tenha me escolhido.
Não é que eu seja desinformada, eu sabia qual era o trabalho e o que teria que fazer antes de ser selecionada. Trabalhar na saúde, especificamente na saúde mental, proporciona um leque de opções, mas aí depende de você, sua formação e, principalmente, em que você acredita. Acho que talvez isso seja o principal, em que você acredita.
Aspirante a antropóloga hoje, mas durante a vida já fiz de tudo um pouco, talvez tenha sido que me trouxe até aqui, e talvez isso que me mantenha aqui. Acreditar que sempre é possível melhorar. Eu acredito que eu possa melhorar minha vida através dos meus sonhos e esforço, então venho trabalhando isso na vida de outras pessoas. Justamente pessoas que precisem que acreditem nelas, que acreditem na capacidade delas, que acreditem que é possível reviver após os anos perdidos.
Eu acredito nos meus moradores, acredito demais na capacidade deles, principalmente na de viver. Eu me encanto todos os dias quando vejo eles progredindo, ou quando finalmente consigo entender algo que era estranho se tornar algo que faça sentido. De como criamos nossos códigos de comunicação, e fico abismada com tamanha inteligência. Fico orgulhosa quando vejo um banho bem tomado, ou um bolo feito. Entendo também quando não é possível que nada seja feito naquele dia, porque ok né?! Me preocupo quando estão tristes, e às vezes também fico quando sei o porquê.
Às vezes queria que todos conseguissem vê-los como eu vejo. Eu tenho poetas, confeiteira, passista, astronautas enviados de deus, enfim, uma galera boa! Uma galera que eu aprendi a cuidar, a ajudar, a ser amiga, me arrisco até a dizer que a amar. Pra mim, são além dos seus prontuários e momentos de crises, são pessoas, que tiveram suas vidas marcadas de uma forma ruim, incapacitadas de decidir qualquer coisa sobre seus corpos.
Eu acredito que um dia eu possa fazer mais por eles, acredito que um dia meu trabalho e nosso esforço conjunto, o deles de viver e o meu de apoiá-los, seja tão importante quanto ou até mais do que aquelas pastinha numerada na gaveta, que ali esteja parte da vida deles, e não que seja a vida deles.
Que a nossa voz seja compreendida e não apenas ouvida como algo a ser controlado.
Viva o SUS, e a nossa força de SUStentar tudo o que ele contempla.
Amanda Tamara é cuidadora e integra a equipe do Capsi Zé Garoto, em São Gonçalo - RJ
se ela não despertou nada em ti, aí é que ela se torna ainda mais essencial.
não entendeu? tudo bem, siga lendo e eu já vou explicar porquê.
a primeira vez que vi essa obra, ela não me chamou atenção.
pareceu algo que eu já poderia ter visto antes. um homem lendo. ok.
não me provocou nem impactou.
mas quando entendi realmente o que ela comunica, me senti medíocre. tive que vir aqui compartilhar algumas questões contigo.
por que de repente essa pintura ficou interessante?
porque George Steiner me pegou pela mão e apontou significados que eu talvez não percebesse sozinha. já está tudo na imagem: mas se não temos informações e repertório suficiente, os significados ficam “presos” na obra, não conversam conosco.
vamos lá, o que você vê na obra?
Erwin Panofsky criou um método de leitura iconográfica/iconológica, em que lemos uma obra respeitando três níveis:
descrição pré-iconográfica: factual, expressional; questões de O QUE?
interpretação iconológica: em busca dos valores simbólicos
o primeiro passo sozinho é muito poderoso, porque muitas vezes o nosso olhar sobre a obra é muito breve, é rápido. especialmente quando nos acostumamos a ver imagens pequenininhas no feed em segundos! então começamos por um olhar mais demorado. e descrevemos:
vemos um jovem sentado em frente a uma mesa. ele tem seus olhos sobre um livro, com um braço apoiado sobre ele, enquanto a outra mão segura a folha que ele lê. na mesa vemos: o livro grande, uma ampulheta (é um pouco difícil ver bem, mas parece que a areia está quase que na metade?), um recipiente com uma pena branca, e três medalhas que parecem metálicas. a mesa arredondada está coberta por uma toalha verde. voltando o olhar para o jovem leitor, qual é a aparência dele? ele parece bem vestido. uma roupa de frio, uma estola com acabamento em pele, assim como o chapéu. ele usa um chapéu. faz frio? a roupa por baixo parece um casaco vermelho. tecidos finos, como veludo, talvez? a parede atrás do leitor parecem de pedra. tem alguns objetos na prateleira, mas é um pouco difícil de reconhecer o que cada um é. garrafas? um copo virado? à direita,um pedaço de cortina azulada.
pois bem, descrição feita. poderia descrever ainda mais detalhes. mas por agora deve ser suficiente.
estamos prontes para a segunda etapa, em que tentamos encontrar significados que esses elementos da descrição da imagem poderiam estar comunicando...
aqui a coisa fica interessante. aqui a gente começa a se apaixonar pela arte, é onde as camadas se revelam, pouco a pouco.
a leitura que Steiner faz se revela objeto por objeto, detalhe por detalhe:
trajes formais: o rapaz tá arrumadinho, não tá? ele se apresenta em uma “elegância enfática’, pois “o leitor vai ao encontro do livro levando a cortesia em seu coração”;
chapéu: quem participa de cultos religiosos, quem consulta o oráculo, ou o iniciado ao se aproximar do texto ou fonte sagrada têm sempre a cabeça coberta. portanto, destacam-se conotações de cerimônia de intelecto;
ampulheta: aponta para a relação de tempo e leitura. o tempo passa, o livro permanece. a vida do leitor mede-se em horas; a do livro, em milênios. já dizia Píndaro: "quando a cidade que eu canto já não mais existir, quando os homens para quem canto já houverem desaparecido no esquecimento, minhas palavras ainda perdurarão". cada livro contém uma aposta, um desafio ao silêncio, que só pode ser vencido quando o livro é aberto novamente.
discos de metal: são medalhas/medalhões de bronze para fazer pressão sobre as páginas, mantendo-as esticadas. no século XVIII (e na Renascença) escultores e gravadores usavam esses discos para fixar a comemoração de um importante evento cívico ou militar para manifestar-se formalmente sobre uma alegoria moral-mitológica. o medalhão também é um texto. e também é efêmero. ao colocar os medalhões diante do livro, “Chardin invoca da antiguidade clássica, com exatidão, a perplexidade maravilhada e o paradoxo da longevidade da palavra”.
pena de escrita: é emblemática na obrigação de resposta inerente ao ato da leitura, define a leitura como interação. a boa leitura pressupõe resposta ao texto, disposição para reagir. ler bem é estabelecer uma relação de reciprocidade com o livro que está sendo lido; é embarcar em uma total troca. com a pena se fazem anotações nas margens. "se é fato que Deus”, como afirma Warburg, “encontra-se nos pormenores”, a correção de uma palavra grafada com erro é um ato de fé. Steiner ainda afirma: "a transcrição implica o engajamento total com o texto, uma reciprocidade dinâmica entre o leitor e o livro";
silêncio: "a leitura é um ato silencioso e solitário. trata-se de um silêncio vibrante de emoção e de uma solidão abarrotada de vida. mas a pesada cortina separa o leitor do resto do mundo - do que é mundo"
Chardin é enquadrado como um artista do período Barroco, e sua obra traz uma visão clássica do ato da leitura (isso seria visível mesmo sem saber o ano?). como se compara o ato da leitura hoje em dia com os valores presentes na tela de Chardin de 1734?
primeiramente, o tema da cortesia parece remoto. não nos vestimos especialmente para ler. somos casuais. não tem geração mais casual que a nossa. as próximas podem ser ainda mais. informalidade é nosso mote.
ainda que sejamos adeptos de outros formatos de leitura para além da obra impressa (audiobooks, eBooks no computador, no celular, no Kindle...), alguns elementos ainda estão presentes. não escrevemos com penas, mas anotamos a lápis, à caneta, com grifa-textos. destacamos trechos nos aplicativos de leitura. cronometramos, às vezes, a leitura, tentamos algo mais dinâmico e eficaz. no entanto, os medalhões realmente não tem uso hoje, me pergunto quantas pessoas entendem o que eles representam na pintura (eu só entendi quando me foi explicado por Steiner!).
além disso, o manifesto sobre a imortalidade da obra literária (feito desde Píndaro, Horácio, Ovídio) agora irrita as pessoas?
nossa relação com a leitura é outra. há quem afirme que escrever livros hoje em dia é inútil, que as pessoas só consomem narrativas e conteúdo por vídeo e áudio (estamos no auge do audiovisual, não estamos?). quando entramos em contato com textos, consumimos trechos, capítulos avulsos, a pressa da rotina nos impede de sentar e ler um bom clássico no tempo que um clássico demanda...
às vezes até nos irritamos com certos autores canônicos, alguns são tachados de ultrapassados. é o tempo de rever as bibliografias tradicionais, de questionar o cânone, o referencial eurocentrado. mas será que esses conteúdos seculares realmente se esgotaram? já disseram tudo que tinham pra dizer?
Steiner afirma que "o fenômeno literário em nossa época é difuso e irreverente. já não é mais uma atitude natural buscar em um livro a orientação que se buscava em um oráculo". nosso oráculo é o Google. tudo acontece muito rápido, se dependêssemos somente das respostas em livros, as informações transitariam em outra velocidade, como costumavam transitar no passado. nosso oráculo é o Google, estamos sedentos por 5G e tudo de mais veloz e imediato que ele promete.
e eu ainda nem falei da questão de peso e espaço! olha só o tamanho do livro que o filósofo da obra lê! queremos livros curtos, livros leves, edições de bolso pra carregar por aí. somos minimalistas desapegados que preferem uma biblioteca na nuvem do que uma biblioteca física porque a qualquer momento podemos nos mudar e não podemos levar tantos livros junto. (ok, falo de uma perspectiva pessoal, mas é fato: é cada vez mais desejável ser nômade digital, viver viajando e trabalhando home office). ou ainda, se tudo pega fogo, adeus livros. é muito mais difícil recuperar uma biblioteca física do que arquivos na nuvem, não é?
confesso: eu mesma, durante as leituras nessa semana, idealizei uma biblioteca de artigos em áudio para que eu pudesse ouvir o conteúdo enquanto tomo sol, caminho, lavo a louça... Steiner realmente me cancelaria.
o que Steiner faz no capítulo “o leitor incomum” é quase um manifesto apaixonado a favor de uma leitura mais significativa, atenta e ativa. uma leitura de valores clássicos. ele finaliza compartilhando um sonho de investir em um grupo de leitura, como um treinamento. o que o incomoda é:
"não são apenas as literaturas grega e latina tornaram-se inacessíveis: porções substanciais de toda a literatura europeia, desde a Divina Comédia até Sweeney Agonistes já não mais se encontram ao alcance das pessoas razoavelmente cultas. cultuadas apenas por estudiosos e visitadas ocasionalmente e de maneira fragmentada por estudantes universitários, obras que já foram marcos culturais compartilham agora a triste sina daqueles valiosos Stradivarius da coleção Coolidge, em Washington, silenciosos em suas vitrinas"
de fato essas literaturas clássicas estão distantes do nosso cotidiano, da nossa experiência direta de leitura. o pouco que aprendemos na escola parece uma obrigação chata, não nos desperta encantamento. quando o clássico persiste no ensino superior, talvez nos perguntemos se não deveríamos dar um tempo disso pra dar conta de questões decoloniais para preencher lacunas de conhecimentos pré-colombinos, afrodescendentes, nativos... como poderíamos conciliar tudo??
Steiner não dá essa resposta, porque ele não está pensando no giro decolonial. para ele, ainda se trata de reparar hábitos e conhecimentos de leitura. ele conta o que seria ideal para ele, visando uma leitura de qualidade:
"teríamos que aprender novamente sobre métrica, sobre escansão do verso, saberes tão corriqueiros para qualquer menino de escola da era vitoriana. precisaríamos fazer isso não por pedantismo, mas pelo fato irrefutável de que em toda poesia - e em uma boa parte da prosa - a métrica é a música que controla o pensamento e a emoção. teríamos que despertar cada músculo da memória, descobrir em nós mesmos, seres tão comuns que somos, os enormes recursos de evocação precisa de que dispomos e o deleite que nos dão os textos que conseguiram alojar-se dentro de nós. buscaríamos adquirir os rudimentos do saber que nos permitissem reconhecer as referências mitológicas e bíblicas, a lembrança compartilhada da história, saberes sem os quais seria praticamente impossível - exceto por meio de constantes recursos a um número cada vez maior de detalhadas notas de pé de página - ler adequadamente um verso de Chaucer, de Milton, de Goethe e mesmo de Mandelstam, um dos mestres das ressonâncias"
e você, compartilha dos pensamentos e desejos de Steiner?
STEINER, George. Nenhuma paixão desperdiçada. Rio de Janeiro: Record, 2018.