Este foi o texto com o qual a psicóloga Rita Silverio nos presenteou na Roda de Conversa feita sobre a temática do Luto dos profissionais de saúde. Um tema árduo, muitas vezes posto de lado, porém necessário de ser aprofundado. Acreditamos que o lado mais rico do Pausas e Pousos tem sido justamente essa possibilidade de diálogo e intercâmbio com pessoas do campo da saúde, nos permitindo a aproximação e a descoberta das múltiplas experiências e estratégias de enfrentamento dos profissionais ao longo desta pandemia.
"Primeiramente gostaria de agradecer ao convite para participar desta roda de conversas, e especialmente agradecer à Isadora Jochims pelo compartilhamento desta história tão intensa*. E espero poder contribuir de algum modo na costura deste delicado bordado que vem sendo tecido pelo Pausas e Pousos.
Optei por fazer minha costura com um breve texto escrito por mim, no momento em que li a narrativa de Isadora, na tentativa de trazer muito mais os afetos suscitados pela narrativa do que qualquer questão teórica. E o primeiro afeto que registro foi ternura. Ternura pelos familiares impedidos de despedirem-se do filho, irmão, sobrinho, amigo, enfim, da pessoa amada. E ternura pelos profissionais, destaco aqui a Isadora, que testemunhou a dor desses familiares frente a morte iminente e na impossibilidade de despedida; assim como testemunhou a ruptura do tecido da vida do próprio jovem, em seus momentos finais, ou dito de outra forma, a transformação de larva em borboleta, usando aqui uma alusão de Kubler- Ross, que atribuiu simbolicamente a borboleta essa transmutação pela morte. Em todos esses casos, sejam familiares, amigos ou profissionais, nos referimos ao rompimento de vínculos afetivos, ainda que de diferentes naturezas. E nos deparamos com o maior desafio da vida, a finitude!
Quando da leitura da narrativa, uma primeira memória de imediato emergiu para mim, uma vaga lembrança do filme tomates verdes fritos, que assisti há muitos e muitos anos atrás, e que traça a partir da narrativa oral de uma senhora à uma visitante desconhecida, sua trajetória de perdas e luto. Ou seja, a possibilidade de dar voz as suas perdas ao testemunhá-las a outra pessoa disposta simplesmente a estar junto e a escutá-la, a possibilidade de lembrar e assim dar vida às experiências de perda vividas solitariamente, assim como aos seus mortos, afinal de contas, costuma-se dizer que a pessoa morta sobrevive em, e a partir de nossas lembranças, o que de algum modo legitima a sua dor, permitindo sua reparação. Em um luto, que talvez possamos designar como adiado quando não encontra tempo e espaço para sua emergência e elaboração no ato do acontecimento.
A narrativa me remete ainda a outras questões muito sensíveis, como por exemplo, os sentimentos que advém diante da perda de uma pessoa jovem. Pois somos sabedores de que todos morreremos um dia, mas o esperado é que a morte chegue após completarmos o ciclo maturacional do nascimento até o envelhecimento. E quando um jovem adoece gravemente e morre, fica muito difícil digerir esse rompimento vincular tão precoce. E não é difícil só para os familiares e amigos próximos, costuma ser difícil também para os profissionais que o assistem. Alguns por serem tão jovens quanto aquele por eles cuidado e que se foi, e outros por verem nele o filho, sobrinho, neto... ou até a si mesmos. De algum modo, a morte de uma criança ou jovem parece romper a ordem natural das coisas, subverter nosso mundo e nossas crenças. E nos posicionar diante da dura questão de que há um tempo para tudo o que é vivo, e que este tempo não é o do relógio, das conquistas por vir, dos sonhos por realizar, é um tempo desconhecido e do qual não temos qualquer controle, não nos cabe escolher como, tampouco saber a hora. O que nos demanda a viver cada dia como se fosse o último, ou seja, a viver plenamente.
Outra questão que imediatamente a narrativa de Isadora me despertou foi a questão dos desaparecidos, àqueles por quem não é possível ter um corpo para chorar. E por dia 226 pessoas desaparecem no Brasil, em 2019 foram 82 mil pessoas. O que deixa o luto sempre em aberto, em suspenso, em uma infinda incerteza de que a pessoa ainda possa voltar, uma vez não haver comprovação física de sua morte. Despertando uma angústia impensável, como diria Winnicott.
Neste sentido, a narrativa de Isadora revela sem máscaras ou disfarces, não só a dor pela perda daqueles que nos são caros em tempos de covid, como também a dor por não ter um corpo para dizer as últimas palavras, efetuar o último toque, dar o último beijo ou abraço, olhar nos olhos pela última vez, algumas vezes até para dizer da raiva por ter deixado àqueles que o amam, ou simplesmente para estar ao lado mais uma vez. Como disse Rita Khel, esse impedimento em tempos de pandemia, demarca uma tortura: “Não ver o corpo de alguém que perdeu é uma tortura”.
E também os profissionais não são imunes a tudo isso, eles tem testemunhado, participado e conduzido cotidianamente essas situações tão doídas de fratura dos laços afetivos, tentando costurar com palavras e gestos encapsulados por máscaras, luvas e outros equipamentos sua solidariedade e emoções, e também seu pesar. E é preciso construir alternativas, onde essas insurgências promovidas pelo impedimento de viver plenamente a dor do luto, possam encontrar espaço de emergência. Creio que Isadora, corajosamente, ao compartilhar sua narrativa tão sensível com pausas e pousos, tem um ato de insurgência, no sentido de não se conformar ao silenciamento imposto e buscar a legitimidade dessa perda e do luto que a acompanha. Como disse Galeano, recordar: do latim re-cordis, voltar a passar pelo coração.
Dito isto, proponho um minuto de pausa pela recordação do jovem que faleceu, pela lembrança de todos os enlutados pela sua perda, também enlutados pelos impedimentos e exigências impostas pelo covid, e pelos profissionais da ponta, testemunhas de tantos amores, dores e perdas, e enlutados por muitas delas, sobretudo Isadora que está aqui conosco."
Rita Silverio é Psicóloga, Mestre em Atenção Psicossocial, especialista em Saúde mental e reabilitação psicossocial e há aproximadamente 15 anos dedica-se aos estudos em tanatologia e luto.
O texto da Isadora Jochims, ao qual Rita se remete se chama "Luto sem Corpo" e foi publicado aqui no nosso tumblr e nas demais redes do Pausas e Pousos.