Aula 2 - Lara Rafahin
Quando a última chamada do voo ecoou por todo o aeroporto, a família foi retirada subitamente do ambiente saudosista que se havia instaurado. Últimos abraços, últimos beijos, últimos “vai com Deus” e últimos “eu te amo”. O homem, que chamarei aqui de Sr. D, colocou uma pequena mochila nas costas e segurou a alça da mala pela mão esquerda, virando-se de costas para a esposa e filhos e seguindo seu caminho. A despedida foi calorosa em olhares, mas quando, de fato, chegou a partida, tudo se converteu num frio acinzentado (Acredito que é porque quanto mais se prolonga a dor, mais ela se instala e impregna em nós). As faces que antes demonstravam tristeza, mas ainda sim eram transbordadas pelo amor, transformaram-se em pura lástima e desgosto. Lágrimas insistiam em continuar caindo dos olhos da Sra. P (como eu a chamei) e ela não parecia se importar em deixá-las fluir, por isso, levantou-se e deu sinal aos filhos que já era hora de ir embora. Acompanhei-os por todo o aeroporto até chegar ao estacionamento, onde uma hilux, aparentemente nova, estava estacionada. Os filhos entraram no carro, mas a Sra. P bambeou as pernas e tentou acalmar sua respiração, três vezes foram suficientes para que ela se recompusesse e com rapidez, arrumasse o cabelo, antes desgrenhado, em um lindo rabo de cavalo. Tomou seu lugar no banco de motorista, viu que os filhos já haviam se acomodado no melhor estilo “fone de ouvido”, e deu a partida. Seu coração permanecia acelerado, porém, curiosamente, seus lábios esboçaram um pequeno sorriso e, então, me dei conta de algo que eu nunca teria imaginado… A Sra. P, estava aliviada com a partida do marido, como se um peso fosse retirado de seus ombros e, pode ser, que se você olhasse com atenção, flores brotavam de seu peito, de seus lábios, de seus olhos e de todo seu corpo. Quero dizer, era como se uma nova mulher estivesse florescendo. Algo que antes estava murcho e ressequido, tornava a viver intensamente. Ao pegar a estrada, ela abriu os vidros e deixou que seus cabelos fossem para onde o vento quisesse, ligou o rádio e se pôs a cantarolar como uma adolescente, nem mesmo se importando com os filhos no banco traseiro.











